O mais recente Índice de Percepção da Corrupção (IPC) 2025, divulgado pela Transparência Internacional, traz um retrato alarmante sobre o estado da integridade pública no Brasil e no mundo. Na escala global de 0 a 100, em que notas mais altas refletem maior percepção de integridade, o Brasil obteve somente 35 pontos, ficando na 107ª posição entre 182 países, repetindo a sua segunda pior colocação da série histórica e permanecendo abaixo da média global e das Américas.
Essa estagnação, mesmo após anos de esforços anticorrupção, evidencia desafios persistentes que exigem respostas profundas e estruturais.
O IPC não mensura diretamente a corrupção objetiva, isto é, o número de casos concretos, mas sim a percepção de especialistas e operadores internacionais sobre a integridade do setor público, o que o torna uma das referências mais respeitadas globalmente para avaliar a qualidade da governança pública. A posição brasileira, inferior à de muitas democracias regionais, sinaliza que mecanismos de prevenção, transparência e controle precisam ser fortalecidos em nossa sociedade.
Esse indicador internacional também revela uma tendência global preocupante: pela primeira vez em mais de uma década, a média mundial caiu para 42 pontos, e 122 dos 182 países pontuaram abaixo de 50, indicando que a corrupção sistêmica afeta democracias consolidadas e países em desenvolvimento.
A Transparência Internacional, em seus relatórios, associa essa realidade à erosão dos sistemas de freios e contrapesos, à politização da justiça e ao enfraquecimento do espaço cívico e da liberdade de imprensa, que são pilares essenciais para a responsabilidade pública e o controle social.
Frente a esse cenário, é fundamental observar que combater a corrupção não é apenas uma questão de repressão penal, mas de fortalecimento institucional e de promoção de uma cultura de integridade, transparência e responsabilização em todos os níveis do Estado.
O enfrentamento efetivo exige, como apontam as recomendações do IPC 2025, reformas institucionais profundas e um compromisso contínuo com a proteção da democracia, da justiça independente e do espaço cívico.
Entre as recomendações destacadas estão garantir a independência, a transparência e o acesso às instituições de justiça, blindando nomeações e promoções contra pressões externas e fortalecendo mecanismos de responsabilização sem interferência política; ampliar a transparência no processo decisório e a fiscalização dos recursos públicos, assegurando que a alocação e execução orçamentária atendam ao interesse coletivo e não a interesses privados.
Já observamos que a impositividade das emendas parlamentares no Congresso Nacional, com o aumento do valor reservado a essas emendas, tem produzido efeitos disfuncionais sobre o presidencialismo no país e sobre a própria qualidade da democracia brasileira. No Brasil, rever esse processo é fundamental.
O papel das instituições republicanas é central. A independência e o equilíbrio entre os Poderes não são conceitos abstratos, mas condições necessárias para que o combate à corrupção seja efetivo e legítimo.
O enfrentamento da corrupção exige também a independência e o protagonismo de instituições de controle públicas, como o Ministério Público e os Tribunais de Contas, além da atuação da imprensa profissional livre, de denunciantes e de organizações da sociedade civil, fundamentais para a exposição de irregularidades e para o controle social.
Nesse processo, para enfrentar a corrupção em larga escala, é fundamental investigar os fluxos financeiros ilícitos, por meio de cooperação internacional e mecanismos robustos de prevenção, detecção e punição.
O Brasil não está condenado a essa posição. Diversos países mostram que avanços são possíveis quando há liderança, independência institucional, transparência e responsabilidade pública. Cabe a nós, como instituições comprometidas com a democracia, continuar trabalhando de forma determinada e técnica, para que o país supere esse desafio, reduza a corrupção sistêmica e reforce a confiança dos cidadãos nas políticas públicas e no funcionamento do Estado.
A construção de uma cultura de integridade é um compromisso de todos nós, e os resultados dessa jornada devem estar à altura das expectativas da sociedade por uma república justa, transparente e democrática.
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