Autor(a) Convidado(a)
É economista, auditor de Finanças da Sefaz-ES e professor da Fucape. Mestre em Políticas Públicas pela Universidade de Oxford, no Reino Unido

Como a crise venezuelana afeta a política externa do Brasil?

O ponto de atenção é o precedente que esse tipo de ação estabelece para o funcionamento da ordem internacional. Países que não dispõem de poder militar dependem mais de regras do que de força para proteger seus interesses

  • Eduardo Araújo É economista, auditor de Finanças da Sefaz-ES e professor da Fucape. Mestre em Políticas Públicas pela Universidade de Oxford, no Reino Unido
Publicado em 06/01/2026 às 14h02

captura do presidente venezuelano pelos Estados Unidos recoloca no centro do debate um princípio básico da política internacional: a soberania dos Estados. Desde o pós-guerra, o uso da força entre países é tratado como exceção, limitado a situações muito específicas.

Quando uma potência age fora desse enquadramento, o episódio deixa de ser apenas um caso isolado e passa a enfraquecer o sistema de regras criado justamente para conter o recurso à força. É esse deslocamento do excepcional para o aceitável que torna a crise venezuelana relevante para o Brasil.

O governo americano justificou a ação com dois argumentos principais. O primeiro é de segurança, associado ao combate ao narcotráfico. O segundo é de natureza humanitária e migratória. Relatórios de órgãos da ONU descrevem um padrão prolongado de repressão política, com prisões arbitrárias e censura à imprensa, além de um colapso social que empurrou milhões de venezuelanos para fora do país. Diante desse quadro, é compreensível que parte da opinião pública veja a prisão de Maduro como uma possível saída para um impasse que se arrasta há anos.

A questão central, no entanto, é saber se a ação americana se explica apenas por segurança e preocupação humanitária. Em entrevista à imprensa, o presidente americano afirmou que a transição permitiria fazer o petróleo venezuelano “voltar a fluir”, sinalizando o acesso de empresas dos Estados Unidos às reservas do país. Além disso, mencionou o risco de presença de potências extra-hemisféricas na região, ao tratar da aproximação da Venezuela com China e Rússia, citando acordos recentes de financiamento e cooperação militar.

Essa ênfase na defesa de interesses estratégicos dos Estados Unidos na América Latina remete à Doutrina Monroe, formulada no início do século XIX. A narrativa dessa política externa sustenta que a presença de potências extra-hemisféricas na região legitimaria uma reação mais assertiva de Washington. Esse argumento voltou a aparecer na Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, divulgada no último mês de novembro. Além disso, a Colômbia foi mencionada em declarações públicas, sugerindo que o enquadramento aplicado ao caso venezuelano pode extrapolar para outros países.

Aeronaves usadas pelos EUA nos ataques à Venezuela
Aeronaves usadas pelos EUA nos ataques à Venezuela. Crédito: Reuters/Folhapress

O ponto de atenção é o precedente que esse tipo de ação estabelece para o funcionamento da ordem internacional. Países que não dispõem de poder militar comparável ao das grandes potências dependem mais de regras do que de força para proteger seus interesses. A soberania funciona, nesse contexto, como um seguro institucional que reduz incerteza e limita arbitrariedades. Quando esse princípio é relativizado, o ambiente no qual países médios operam torna-se menos previsível e mais arriscado.

Como lembrava Lord Palmerston, chanceler britânico no século XIX, “Estados não têm amigos permanentes, têm interesses permanentes”. Para o Brasil, isso significa que a defesa da soberania, das regras e do multilateralismo não é um gesto simbólico de oposição a países. É uma forma pragmática de ampliar margem de negociação, proteger interesses e preservar influência na América Latina.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

A Gazeta integra o

Saiba mais
Donald Trump Estados Unidos nicolás maduro Petróleo venezuela

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta.