Há um erro recorrente no debate internacional — e nas redes — sobre a Venezuela: o de tratá-la como um problema exclusivamente externo ou, no extremo oposto, como uma questão blindada contra qualquer forma de pressão internacional. Nenhuma das duas leituras se sustenta. Estados soberanos não vivem no vácuo. Mas tampouco existem para servir de extensão territorial ou moral de potências estrangeiras.
Se a Venezuela representa uma ameaça regional — seja por acusações de narcoterrorismo, violações sistemáticas de direitos humanos ou instabilidade política com impacto transfronteiriço —, ela pode e deve estar sujeita à pressão de organismos multilaterais. A ONU existe exatamente para isso: oferecer mecanismos de contenção, mediação e responsabilização que não passem pela força unilateral nem pela lógica do mais forte.
O problema começa quando essa pressão deixa de ser coletiva e institucional para assumir a forma conhecida da tutela. Quando, sob o pretexto da estabilidade, um país se arroga o direito de decidir o destino de outro. A história mostra que, nesse ponto, o discurso perde qualquer neutralidade.
A Doutrina Monroe, formulada em 1823 como um alerta às potências europeias, nunca foi apenas defensiva. Ela se consolidou como um princípio tácito segundo o qual a América Latina estaria inserida numa zona de influência permanente dos Estados Unidos. O tempo passou, o vocabulário mudou, mas o reflexo permanece: crises no hemisfério costumam ser lidas como convites à intervenção.
O repertório é conhecido. Já foi anticomunismo. Hoje é narcoterrorismo, autoritarismo, ameaça à ordem regional. Em todos os casos, o argumento moral convive, sem constrangimento, com interesses econômicos claros. Sempre conviveu.
Em 1953, o Irã aprendeu isso após a nacionalização do petróleo e a derrubada de Mohammed Mossadegh. Em 1991, a Guerra do Golfo reorganizou o controle das rotas energéticas globais. Em 2003, armas de destruição em massa justificaram uma invasão que jamais encontrou tais armas, mas redefiniu o mapa do petróleo iraquiano. A lição é incômoda: princípios costumam ser flexíveis quando recursos estratégicos entram em cena.
A Venezuela se insere nesse padrão com precisão excessiva. Não apenas por seu regime político, mas por aquilo que repousa sob seu território. A maior reserva de petróleo do mundo transforma crises internas em disputas globais e líderes nacionais em peças de um jogo que raramente se joga em Caracas.
Donald Trump apenas retirou o verniz. Ao falar da América Latina como “quintal”, não criou uma doutrina nova, apenas verbalizou uma lógica antiga, hoje mais transacional e menos disfarçada.
Nenhum regime se legitima pela força externa. Nenhuma democracia nasce sob ocupação. O que se produz, invariavelmente, é dependência, ressentimento e instabilidade prolongada — um roteiro já conhecido na América Latina.
A Venezuela não é um problema externo a ser resolvido por outro país. Mas também não é um território imune ao direito internacional. Entre a omissão e o quintal, existe um caminho mais difícil e mais civilizado: o do multilateralismo, do direito e do respeito à soberania.
No fim, a pergunta permanece incômoda: estamos dispostos a defender regras universais ou apenas a conveniência de quem tem poder para impor sua própria resposta?
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