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Paulo Hartung é economista e político capixaba, governador do Espírito Santo por três mandatos (2003–2010 e 2015–2018) e presidente da Ibá (Indústria Brasileira de Árvores). Octaciano Neto é um especialista em agronegócio com forte atuação no setor cafeeiro, ex-secretário de Agricultura do Espírito Santo (2015-2018) e consultor focado em gestão, mercado de capitais e finanças para o agro

Cafeicultura capixaba: do programa de erradicação à euforia econômica

Hoje, o Estado é o maior produtor de conilon do Brasil. Segundo o Incaper, responde por 70% da produção nacional, com 286 mil hectares de conilon e 49 mil propriedades em 68 municípios, representando cerca de 38% do PIB agrícola capixaba

  • Paulo Hartung e Octaciano Neto Paulo Hartung é economista e político capixaba, governador do Espírito Santo por três mandatos (2003–2010 e 2015–2018) e presidente da Ibá (Indústria Brasileira de Árvores). Octaciano Neto é um especialista em agronegócio com forte atuação no setor cafeeiro, ex-secretário de Agricultura do Espírito Santo (2015-2018) e consultor focado em gestão, mercado de capitais e finanças para o agro
Publicado em 20/01/2026 às 10h00

Ainda no Império, responsável pela superação do paradigma produtivo colonial em terras capixabas, a cafeicultura, que esteve no centro da instalação da vida republicana entre nós, foi o eixo estruturante da economia espírito-santense por cerca de 100 anos, entre meados dos séculos XIX e XX.

Frontalmente atacada pelo Programa de Erradicação dos Cafezais, criado pelo governo federal na década de 1960 devido aos estoques elevados (o Brasil tinha estocado o equivalente a mais de um ano de produção mundial), consolida-se na atualidade como fator decisivo para a produção de riquezas no Estado.

Nessa travessia entre o quase desaparecimento e o renascimento, vale um olhar atento à atividade agrícola que ajudou a forjar o Espírito Santo moderno, e que se faz especialmente relevante nos dias de hoje. Trata-se de um percurso valioso acerca de nossas potencialidades, desencontros e acertos.

Antes da crise, há cerca de 60 anos, o café respondia por cerca de 90% das exportações e empregava 80% da mão de obra agrícola do Estado, mas a nossa cafeicultura era uma das mais atrasadas tecnologicamente.

Com a retirada dos cafezais, houve uma queda abrupta na circulação de dinheiro no interior. O Espírito Santo foi a unidade da Federação que mais sofreu, erradicando cerca de 60% de seus cafezais, deixando 60 mil desempregados e provocando êxodo rural de 120 mil pessoas.

Com a drástica política de erradicação de cafezais, entra em cena a fase os grandes projetos industriais, como CST e Aracruz Celulose. No livro “Cafeicultura & Grande Indústria: a transição no Espírito Santo 1955-1985”, Haroldo Correa Rocha e Ângela Morandi demonstram que a industrialização do Espírito Santo não foi uma evolução “natural” ou orgânica da acumulação de capital do café, como aconteceu em São Paulo, mas, sim, uma solução planejada e induzida de fora para dentro (exógena) para resolver a crise gerada pelo colapso da produção cafeeira.

Mas, em meio à crise e à implantação de um novo paradigma produtivo, como uma fênix, a cafeicultura resiste e se reinventa, agora sob impulso da expansão do plantio do conilon e sob o olhar visionário de lideranças políticas e econômicas.

Nesse sentido, a partir da década de 1970, a cafeicultura de conilon no Espírito Santo passou por uma profunda transformação, saindo do posto de coadjuvante para tornar-se a principal força agrícola do Estado, projetando o Brasil como um dos maiores produtores mundiais da variedade.

Produção de café conilon vai receber investimento para alcançar paladares exigentes
Produção de café conilon vai receber investimento para alcançar paladares exigentes. Crédito: Cooabriel

Estiveram à frente desse movimento transformador três figuras centrais: Dário Martinelli, o pioneiro político e incentivador; Jônice Tristão, o visionário industrial que garantiu o mercado; e Eduardo Glazar, o continuador da política pública.

Como prefeito de São Gabriel da Palha nos anos 1970, Martinelli buscou uma alternativa para a economia local. Ele descobriu uma variedade de café resistente à ferrugem que havia sobrevivido à erradicação: o conilon.

Jônice Tristão foi o pilar industrial que garantiu a viabilidade econômica da aposta no conilon, com a criação da Realcafé em 1971. Enquanto Martinelli fomentava a produção no campo, Tristão criava a demanda na indústria, um movimento estratégico que se provou fundamental para o sucesso da empreitada.

Eduardo Glazar, sucessor de Dário Martinelli na Prefeitura de São Gabriel da Palha, deu continuidade às políticas de incentivo iniciadas por seu antecessor, manteve a campanha de distribuição de mudas e fortaleceu a parceria com a Realcafé, que estava em fase de implantação.

Os anos 1980 e 1990 permitiram um novo avanço, com a assistência técnica à cafeicultura organizada em torno de uma única empresa pública, a Emcaper, depois transformada em Incaper.

A partir dos anos 2000, concomitantemente à reconstrução político-institucional do Espírito Santo, a cafeicultura voltou a ser tratada como parte relevante e decisiva para o crescimento do Estado.

O Plano Estratégico de Desenvolvimento da Agricultura Capixaba (PEDEAG), realizado pioneiramente em 2003, transformou-se no direcionador das políticas públicas do governo estadual.

Foi a partir desse planejamento que os atores (governos, produtores, industriais, comerciantes e centenas de profissionais de ciências agrárias) passaram a dialogar, definir os problemas a serem atacados e apresentar diretrizes e planos de ação.

Ao enfrentarmos a crise hídrica de 2014 a 2017, promovemos uma outra superação relevante. Dados do Incaper mostram que, em Jaguaré, 12% dos produtores tiveram que interromper a irrigação total ou parcialmente em 2014. Em 2015, esse número foi de 82,5%; em 2016, 94%; e em 2017, 42,3%.

Foi nesse contexto que, em 2015, tomamos uma série de medidas para ampliar a segurança hídrica dos capixabas. Até 2013, o governo do Espírito Santo liberava a construção de menos de 100 barragens por ano. Em 2015, foram 2.400. Em 2016, mais de 3.500 obras foram autorizadas. Trata-se do Programa Estadual de Construção de Barragens, cujo marco foi a inauguração da barragem Valter Matielo, em Pinheiros, em março de 2018, com 256 hectares de lâmina d’água.

O cultivo de conilon do norte do Estado e do sul da Bahia é a única cafeicultura 100% irrigada do mundo. No Vietnã, maior produtor planetário de robusta, o índice é de apenas 2%. Na Colômbia, 5%. E a cafeicultura do cerrado e do sul de Minas Gerais tem menos de 30% de sua área irrigada.

Assim como nos primórdios dessa fase revolucionária da cafeicultura capixaba, nos anos 1970, tratamos de fomentar toda a cadeia produtiva. Por meio de diplomacia econômica ativa, em 2016, em Singapura, convencemos a Olam International a implantar uma nova fábrica de café solúvel nas terras capixabas. Em 2018, o anúncio oficial foi feito.

Também em 2018, anunciamos oficialmente a fábrica da Café Cacique, após uma visita realizada em Londrina (Paraná). Em 2024, a Cacique foi adquirida pela gigante francesa Louis Dreyfus Company (LDC).

Estima-se que de 40% a 50% da produção de conilon da safra 2025 ainda se encontre armazenada pelos produtores rurais. Isso mostra uma liquidez sem precedentes em uma cultura que tem dado 70% de margem operacional (EBITDA), provocando, entre outras coisas, uma explosão na valorização das propriedades rurais do norte do Espírito Santo, tornando-as umas das mais caras do Brasil. A soja, por exemplo, dará 20% de margem operacional nesta safra.

Hoje, o Estado é o maior produtor de conilon do Brasil. Segundo o Incaper, responde por 70% da produção nacional, com 286 mil hectares de conilon e 49 mil propriedades em 68 municípios, representando cerca de 38% do PIB agrícola capixaba e gerando algo como 250 mil empregos. Mais do que números, a cafeicultura de conilon ajudou a redesenhar o mapa do desenvolvimento econômico do nosso Estado.

Produção de Café no ES (1970-2025)
Produção de Café no ES (1970-2025). Crédito: Reprodução

Com o suporte de políticas públicas efetivas (assistência técnica, programa de barragens, atração de investimentos etc.), pesquisa científica, empreendedorismo e mecanização/modernização produtiva, a cafeicultura retoma seu lugar histórico de relevância à transformação socioeconômica capixaba.

Da decisiva transição econômica entre os séculos XIX e XX, passando pelo “Programa de Erradicação de Cafezais”, ao dinamismo econômico espraiado pelas terras espírito-santenses, a cafeicultura se firma atualmente como uma marca de prosperidade capixaba.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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