Ainda no Império, responsável pela superação do paradigma produtivo colonial em terras capixabas, a cafeicultura, que esteve no centro da instalação da vida republicana entre nós, foi o eixo estruturante da economia espírito-santense por cerca de 100 anos, entre meados dos séculos XIX e XX.
Frontalmente atacada pelo Programa de Erradicação dos Cafezais, criado pelo governo federal na década de 1960 devido aos estoques elevados (o Brasil tinha estocado o equivalente a mais de um ano de produção mundial), consolida-se na atualidade como fator decisivo para a produção de riquezas no Estado.
Nessa travessia entre o quase desaparecimento e o renascimento, vale um olhar atento à atividade agrícola que ajudou a forjar o Espírito Santo moderno, e que se faz especialmente relevante nos dias de hoje. Trata-se de um percurso valioso acerca de nossas potencialidades, desencontros e acertos.
Antes da crise, há cerca de 60 anos, o café respondia por cerca de 90% das exportações e empregava 80% da mão de obra agrícola do Estado, mas a nossa cafeicultura era uma das mais atrasadas tecnologicamente.
Com a retirada dos cafezais, houve uma queda abrupta na circulação de dinheiro no interior. O Espírito Santo foi a unidade da Federação que mais sofreu, erradicando cerca de 60% de seus cafezais, deixando 60 mil desempregados e provocando êxodo rural de 120 mil pessoas.
Com a drástica política de erradicação de cafezais, entra em cena a fase os grandes projetos industriais, como CST e Aracruz Celulose. No livro “Cafeicultura & Grande Indústria: a transição no Espírito Santo 1955-1985”, Haroldo Correa Rocha e Ângela Morandi demonstram que a industrialização do Espírito Santo não foi uma evolução “natural” ou orgânica da acumulação de capital do café, como aconteceu em São Paulo, mas, sim, uma solução planejada e induzida de fora para dentro (exógena) para resolver a crise gerada pelo colapso da produção cafeeira.
Mas, em meio à crise e à implantação de um novo paradigma produtivo, como uma fênix, a cafeicultura resiste e se reinventa, agora sob impulso da expansão do plantio do conilon e sob o olhar visionário de lideranças políticas e econômicas.
Nesse sentido, a partir da década de 1970, a cafeicultura de conilon no Espírito Santo passou por uma profunda transformação, saindo do posto de coadjuvante para tornar-se a principal força agrícola do Estado, projetando o Brasil como um dos maiores produtores mundiais da variedade.
Estiveram à frente desse movimento transformador três figuras centrais: Dário Martinelli, o pioneiro político e incentivador; Jônice Tristão, o visionário industrial que garantiu o mercado; e Eduardo Glazar, o continuador da política pública.
Como prefeito de São Gabriel da Palha nos anos 1970, Martinelli buscou uma alternativa para a economia local. Ele descobriu uma variedade de café resistente à ferrugem que havia sobrevivido à erradicação: o conilon.
Jônice Tristão foi o pilar industrial que garantiu a viabilidade econômica da aposta no conilon, com a criação da Realcafé em 1971. Enquanto Martinelli fomentava a produção no campo, Tristão criava a demanda na indústria, um movimento estratégico que se provou fundamental para o sucesso da empreitada.
Eduardo Glazar, sucessor de Dário Martinelli na Prefeitura de São Gabriel da Palha, deu continuidade às políticas de incentivo iniciadas por seu antecessor, manteve a campanha de distribuição de mudas e fortaleceu a parceria com a Realcafé, que estava em fase de implantação.
Os anos 1980 e 1990 permitiram um novo avanço, com a assistência técnica à cafeicultura organizada em torno de uma única empresa pública, a Emcaper, depois transformada em Incaper.
A partir dos anos 2000, concomitantemente à reconstrução político-institucional do Espírito Santo, a cafeicultura voltou a ser tratada como parte relevante e decisiva para o crescimento do Estado.
O Plano Estratégico de Desenvolvimento da Agricultura Capixaba (PEDEAG), realizado pioneiramente em 2003, transformou-se no direcionador das políticas públicas do governo estadual.
Foi a partir desse planejamento que os atores (governos, produtores, industriais, comerciantes e centenas de profissionais de ciências agrárias) passaram a dialogar, definir os problemas a serem atacados e apresentar diretrizes e planos de ação.
Ao enfrentarmos a crise hídrica de 2014 a 2017, promovemos uma outra superação relevante. Dados do Incaper mostram que, em Jaguaré, 12% dos produtores tiveram que interromper a irrigação total ou parcialmente em 2014. Em 2015, esse número foi de 82,5%; em 2016, 94%; e em 2017, 42,3%.
Foi nesse contexto que, em 2015, tomamos uma série de medidas para ampliar a segurança hídrica dos capixabas. Até 2013, o governo do Espírito Santo liberava a construção de menos de 100 barragens por ano. Em 2015, foram 2.400. Em 2016, mais de 3.500 obras foram autorizadas. Trata-se do Programa Estadual de Construção de Barragens, cujo marco foi a inauguração da barragem Valter Matielo, em Pinheiros, em março de 2018, com 256 hectares de lâmina d’água.
O cultivo de conilon do norte do Estado e do sul da Bahia é a única cafeicultura 100% irrigada do mundo. No Vietnã, maior produtor planetário de robusta, o índice é de apenas 2%. Na Colômbia, 5%. E a cafeicultura do cerrado e do sul de Minas Gerais tem menos de 30% de sua área irrigada.
Assim como nos primórdios dessa fase revolucionária da cafeicultura capixaba, nos anos 1970, tratamos de fomentar toda a cadeia produtiva. Por meio de diplomacia econômica ativa, em 2016, em Singapura, convencemos a Olam International a implantar uma nova fábrica de café solúvel nas terras capixabas. Em 2018, o anúncio oficial foi feito.
Também em 2018, anunciamos oficialmente a fábrica da Café Cacique, após uma visita realizada em Londrina (Paraná). Em 2024, a Cacique foi adquirida pela gigante francesa Louis Dreyfus Company (LDC).
Estima-se que de 40% a 50% da produção de conilon da safra 2025 ainda se encontre armazenada pelos produtores rurais. Isso mostra uma liquidez sem precedentes em uma cultura que tem dado 70% de margem operacional (EBITDA), provocando, entre outras coisas, uma explosão na valorização das propriedades rurais do norte do Espírito Santo, tornando-as umas das mais caras do Brasil. A soja, por exemplo, dará 20% de margem operacional nesta safra.
Hoje, o Estado é o maior produtor de conilon do Brasil. Segundo o Incaper, responde por 70% da produção nacional, com 286 mil hectares de conilon e 49 mil propriedades em 68 municípios, representando cerca de 38% do PIB agrícola capixaba e gerando algo como 250 mil empregos. Mais do que números, a cafeicultura de conilon ajudou a redesenhar o mapa do desenvolvimento econômico do nosso Estado.
Com o suporte de políticas públicas efetivas (assistência técnica, programa de barragens, atração de investimentos etc.), pesquisa científica, empreendedorismo e mecanização/modernização produtiva, a cafeicultura retoma seu lugar histórico de relevância à transformação socioeconômica capixaba.
Da decisiva transição econômica entre os séculos XIX e XX, passando pelo “Programa de Erradicação de Cafezais”, ao dinamismo econômico espraiado pelas terras espírito-santenses, a cafeicultura se firma atualmente como uma marca de prosperidade capixaba.
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