Com a legalização das bets no Brasil em 2018 e a ausência, por alguns anos, de uma regulação operacional robusta, assistimos a uma explosão das apostas digitais e à consolidação de um ecossistema cada vez mais integrado entre publicidade, plataformas online e práticas de jogo.
O que antes era, para muitos, um entretenimento episódico passou a se transformar, em parcela relevante da população, em um comportamento repetitivo, de alto risco e com consequências duradouras. Endividamento, conflitos familiares, prejuízos no trabalho, ansiedade, insônia e vergonha são alguns dos efeitos observados quando as apostas passam a ocupar o centro da vida cotidiana.
A urgência do debate se justifica por duas razões. A primeira é que a lógica das apostas digitais opera 24 horas por dia no bolso do usuário, por meio de estímulos contínuos, recompensas imediatas e intensa pressão de marketing.
A segunda é que o jogo problemático não é um desvio moral nem uma falha de caráter, mas um problema de saúde e de proteção social que exige prevenção, triagem, cuidado e estratégias de redução de danos. Reconhecer isso muda o modo como Estado e sociedade devem agir: não se trata de culpar, e sim de proteger.
Um ponto decisivo para compreender a gravidade do problema é que as classificações internacionais evoluíram e passaram a tratar o transtorno do jogo como um transtorno aditivo, isto é, um comportamento que pode produzir dependência mesmo sem o uso de substâncias. A literatura recente mostra convergência crescente nessa direção.
Diante do crescimento do problema, medidas regulatórias e de proteção tornam-se parte da resposta, como a iniciativa da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda com a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, que permite ao próprio usuário solicitar voluntariamente o bloqueio, de uma só vez, do acesso às plataformas de apostas autorizadas, funcionando como barreira institucional contra recaídas e contra a lógica de disponibilidade permanente.
A autoexclusão não resolve, sozinha, um transtorno aditivo, mas é compatível com a redução de danos ao criar tempo, reduzir exposição e favorecer a reorganização do usuário e a busca por cuidado, podendo também apoiar famílias e redes de proteção; cabe ao Estado ofertar o recurso e assegurar sua divulgação, compreensão e integração aos fluxos do SUS e das redes estaduais.
O Espírito Santo tem uma experiência consolidada de organização de cuidado e acolhimento a pessoas em sofrimento relacionado ao uso de álcool e outras drogas. A Rede Abraço, com atuação articulada, tem desenvolvido serviços, fluxos e práticas baseadas em evidências científicas, com foco na proteção social, no cuidado em liberdade e na integração com a rede de saúde.
A decisão do Governo do Estado de ampliar o escopo de atendimento para incluir problemas relacionados a vícios digitais, jogos, bets e gaming reconhece, com coragem e realismo, que o campo das adições se transformou. A lógica aditiva não se limita a substâncias: ela pode se manifestar em comportamentos que, em contextos de alta disponibilidade e estímulo contínuo, tornam-se compulsivos e devastadores. Ao incorporar esse tema, a Rede Abraço se alinha ao que há de mais atual no debate internacional e responde a uma demanda concreta que já chega às famílias, às escolas e aos serviços.
O ganho dessa ampliação é triplo. Primeiro, permite que o Estado ofereça acolhimento sem estigma e com linguagem adequada para pessoas e famílias que muitas vezes não se reconhecem no rótulo tradicional de dependência. Segundo, integra o cuidado para quem apresenta comorbidades, evitando que o usuário seja empurrado de um serviço para outro sem coordenação. Terceiro, fortalece a capacidade do Espírito Santo de produzir conhecimento aplicado, protocolos e evidências próprias sobre um fenômeno novo e dinâmico.
Por fim, a discussão sobre bets, gaming e vícios digitais não pode ficar restrita à saúde. Ela envolve educação, assistência social, proteção ao consumidor, regulação econômica, comunicação e direitos. Quando um jovem passa a noite apostando e perde sono, rendimento escolar e perspectiva, o problema não é apenas individual. Quando uma família entra em colapso financeiro por apostas, o problema não é somente falta de controle. Quando trabalhadores se endividam e entram em ciclos de ansiedade e vergonha, o problema é social.
Ampliar o escopo da Rede Abraço para atender pessoas com problemas em jogos, bets e gaming é reconhecer o presente e proteger o futuro. É dizer, com clareza, que a saúde mental e a dignidade das famílias capixabas valem mais do que qualquer algoritmo de retenção. É transformar um desafio emergente em oportunidade de inovação, cuidado e responsabilidade pública.
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