Coisas muito repetidas costumam ganhar certo ar de naturalidade. Esse é o caso das apostas on-line, das bets. De tanto sermos bombardeados por propagandas e notícias sobre o assunto, parece que esse fenômeno, relativamente novo, tornou-se algo normal. Um jogo, uma distração, um negócio. Mas os números mostram uma realidade, no mínimo, preocupante.
Estudo do Banco Central, com base em dados de agosto de 2024, indicava que cerca de 24 milhões de brasileiros, aproximadamente 15% da população, participaram de jogos de azar e apostas. Desse total, cerca de 5 milhões eram pessoas de famílias beneficiárias do Bolsa Família. De lá para cá, esses números podem ter aumentado.
O avanço das apostas on-line no Brasil ultrapassa a lógica do entretenimento individual e passa a configurar um problema emergente de saúde pública e proteção social por três razões centrais.
A primeira é a facilidade de acesso. Diferentemente do jogo tradicional, as apostas digitais estão disponíveis 24 horas por dia, no celular, integradas a sistemas de pagamento instantâneo. A ausência de barreiras físicas, o uso de crédito eletrônico e a possibilidade de apostar valores pequenos, de forma contínua, reduzem a percepção de risco e favorecem comportamentos compulsivos. O jogo passa a estar literalmente na palma da mão, incorporado à rotina cotidiana.
A segunda razão está na natureza do produto apostado. Ao se vincular a eventos reais, como partidas esportivas, as apostas criam uma sensação ampliada de controle, conhecimento e participação. O apostador não se percebe como alguém jogando ao acaso, mas como alguém analisando estatísticas e antecipando resultados. Essa ilusão de domínio cognitivo aumenta a propensão à repetição e à dificuldade de reconhecer perdas.
A terceira diz respeito ao desenho das plataformas digitais. Algoritmos, bônus de entrada, apostas em tempo real e estímulos contínuos reforçam ciclos de recompensa semelhantes aos observados em outros transtornos do controle do impulso, potencializando vulnerabilidades individuais e ampliando desigualdades sociais, especialmente entre jovens e pessoas de menor renda. No modelo existente, não adianta proibir, as plataformas continuarão existindo no exterior e com acesso disponível aqui. O dinheiro dos apostadores vai embora e o problema fica com as famílias e a sociedade brasileira.
Nesse contexto, os impactos ultrapassam o indivíduo, atingindo famílias, sistemas de saúde e políticas de proteção social, o que justifica a intervenção coordenada do Estado.
O Governo do Espírito Santo saiu na frente e estruturou uma resposta direta a esse desafio. O Programa Rede Abraço passa a oferecer uma linha específica de atendimento voltada a pessoas que sofrem com a compulsão por jogos digitais e apostas esportivas.
Primeira semana de atendimento e 28 pessoas já buscaram ajuda nos Centros de Acolhimento e Atenção Integral sobre Drogas (CAAD) de Cachoeiro de Itapemirim, Linhares e de Vitória. A incorporação do tema das apostas on-line ao programa amplia a rede de apoio para quem precisa e deseja ajuda para se livrar da adição ao jogo.
Na esfera nacional, o Ministério da Saúde lançou o Observatório Saúde Brasil de Apostas Eletrônicas e a Linha de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos e Apostas, com orientações clínicas e previsão de atendimento presencial e on-line.
A Rede Abraço é a política pública do Governo do Espírito Santo tradicionalmente voltada à prevenção, ao cuidado e à reinserção social de pessoas com problemas relacionados ao uso de álcool, outras drogas e comportamentos aditivos. Atua de forma integrada à rede do Sistema Único de Saúde (SUS) e à assistência social, por meio dos CAAds, ações de prevenção nos territórios e articulação com municípios e organizações da sociedade civil, garantindo acesso gratuito e sem burocracia.
Entre janeiro de 2019 e dezembro de 2025, o programa realizou mais de 100 mil atendimentos, beneficiando aproximadamente 16,2 mil cidadãos. Esses resultados evidenciam a capilaridade e a efetividade da política e reafirmam o compromisso do Espírito Santo com ações inovadoras de proteção social, saúde mental e dignidade das pessoas.
Agora, também, abre espaço para uma experiência concreta de enfrentamento de um fenômeno que, embora recente, tende a permanecer entre nós. Novos desafios exigem ação determinada, resposta rápida e olhar atento para o futuro.
Compromisso Rede Abraço, viva a saúde e o bem-estar das famílias capixabas.
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