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É mestre em Direito (FDV) e pesquisador das relações entre ficção e realidade nas telenovelas

A intolerância em "Três Graças": a novela e seus ecos na realidade

Embora a intenção da narrativa seja claramente denunciar o discurso homofóbico ao atrelá-lo ao vilão da trama, parte da sociedade apoiou seus posicionamentos

  • Arthur Leal Abreu É mestre em Direito (FDV) e pesquisador das relações entre ficção e realidade nas telenovelas
Publicado em 22/01/2026 às 15h09

Na novela "Três Graças", uma das tramas que têm envolvido os telespectadores é o relacionamento entre duas jovens mulheres, Lorena e a policial Juquinha. Na semana passada, o namoro foi descoberto pelo pai de uma delas, o vilão Ferette, interpretado por Murilo Benício.

O personagem é um típico antagonista: criminoso de colarinho branco, responsável pela falsificação de medicamentos distribuídos à população carente; no ambiente familiar, além de autoritário, é adúltero, mantendo um relacionamento extraconjugal com uma mulher que se diz amiga de sua esposa.

Ao tomar conhecimento do relacionamento homoafetivo da filha, Ferette a expulsou de casa, em uma cena que teve ampla repercussão.

É importante destacar que as novelas não se esgotam em sua exibição na TV. Há décadas, suas tramas são assunto em jornais, revistas especializadas e outros programas — da mesma emissora ou de concorrentes. Na era digital, esse movimento se renova e se estende pela internet: cenas são recortadas, compartilhadas e comentadas em sites jornalísticos e, sobretudo, nas redes sociais.

Foi o que ocorreu com a sequência em que Ferette expulsa a filha de casa por ela ser lésbica. O trecho foi replicado em plataformas como TikTok e Instagram, ambientes em que o público deixa de ser mero espectador e ganha voz, reagindo, comentando e se posicionando.

Lamentavelmente, parte dessas reações buscou legitimar o discurso homofóbico do vilão, endossando a violência contra a filha em razão de sua orientação sexual. Trata-se de uma violência que é psicológica e patrimonial, mas também simbólica, na medida em que naturaliza a rejeição, como se determinadas identidades fossem menos dignas de respeito.

Esse episódio evidencia uma das características centrais da telenovela brasileira: sua capacidade de refletir comportamentos presentes no cotidiano e, ao mesmo tempo, influenciar a sociedade a discutir temas, adotar condutas ou reverberar discursos. No caso em questão, embora a intenção da narrativa seja claramente denunciar o discurso homofóbico ao atrelá-lo ao vilão da trama, parte da sociedade apoiou seus posicionamentos.

Diante disso, foi preciso reenquadrar a relação entre ficção e realidade. Utilizando as mesmas redes sociais em que as cenas haviam repercutido, o ator Murilo Benício publicou um vídeo reiterando que homofobia é crime. A mensagem reforça essa ponte entre a novela e o cotidiano, destacando que “o que você viu na TV, acontece a cada 1 hora em algum lugar no Brasil”.

Lorena (Alanis Guillen) e Juquinha (Gabriela Medvedovsky)   em Três Graças
Lorena (Alanis Guillen) e Juquinha (Gabriela Medvedovsky) em "Três Graças". Crédito: TV Globo/Divulgação

O que chama atenção nesse contexto é a necessidade de uma interferência na “vida real” para deixar claro que a representação na novela não é legitimação, e sim uma denúncia. Embora o discurso tenha sido veiculado por um personagem que é um notório criminoso, traidor e moralmente falido, houve quem se sentisse representado por sua atitude homofóbica.

Nos próximos capítulos, a intolerância de Ferette tende a permanecer em evidência, já que o personagem descobrirá que seu filho, sucessor nos negócios, namora uma mulher trans. Mais uma vez, a novela se propõe a expor tensões que ainda atravessam o cotidiano brasileiro.

A repercussão dessa trama e a necessidade de uma intervenção externa à narrativa indicam que a telenovela continua sendo uma instância relevante de mediação entre ficção e realidade. Esse espaço, no entanto, só se sustenta quando conseguimos distinguir representação de validação. Reconhecer essa diferença é fundamental para que a novela siga cumprindo seu papel social e pedagógico: refletir o cotidiano e, ao mesmo tempo, promover transformações na sociedade.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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