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Novo Ensino Médio chega como projeto de vida e de carreira

Nova grade será válida a partir de 2022, com carga horária de mil horas por ano; reflexos no mercado de trabalho já são esperados e debatidos por especialistas

Vitória
Publicado em 03/11/2021 às 15h18
Alunos do ensino médio usando máscara na saída da escola
Além do "novo normal", alunos agora vão lidar com o Novo Ensino Médio. Crédito: rawpixel.com / Freepik

A poucos meses de entrar em vigor, o Novo Ensino Médio ainda apresenta algumas lacunas e deixa dúvidas sobre as novas mudanças. Válido a partir de 2022 com uma carga horária de mil horas por ano, o novo modelo vai fazer com que os alunos escolham um percurso formativo desde o início, e uma das preocupações é referente à inserção desses estudantes ao mercado de trabalho. Será bom para facilitar o ingresso na faculdade? Quais são os prós e contras dessa escolha nessa fase do ensino?

Segundo Rosângela Vargas Davel Pinto, gerente de Ensino Médio da Secretaria de Estado da Educação (Sedu), o ensino médio no Espírito Santo já tem uma grade de 916 horas por ano. Agora, na prática, alunos passam a ter seis aulas diárias de 50 minutos. “É incorporada no currículo a formação geral básica, Biologia, Português, Matemática, e na primeira série ele tem o que chamamos de componentes integradores. No Espírito Santo, inserimos o estudo orientado”, explica a gerente.

Especialistas afirmam que a mudança é uma tentativa de dialogar com o mundo moderno, no intuito de desenvolver nesses estudantes as habilidades socioemocionais e autonomia, ainda mais com o mercado de trabalho cada vez mais dinâmico. Segundo Juliana Santos, mestre em Estudos Linguísticos e especialista em Gestão de EAD, a reclamação de que muitos assuntos estudados não tinham relação com as escolhas a serem feitas sempre foi presente.

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“Agora, com o Novo Ensino Médio, teremos a condição de cursar um currículo básico com as disciplinas voltadas para o campo de interesse do jovem. Isso pode refletir em maior adesão aos estudos e gerar o desejo de ingresso em cursos superiores”, afirma Santos, que também é gerente de Educação na Faesa.

Além de gerente de educação da Faesa, Juliana Santos é mestre em estudos linguísticos e especialista em gestão de EAD
Juliana Santos é mestre em Estudos Linguísticos e especialista em Gestão de EAD. Crédito: Acervo Pessoal

Coordenadora da Emescam, Juliana Alvares segue no pensamento positivo de que a mudança vai favorecer o interesse do aluno na aula, já que ele será aproximado da realidade do mundo, uma vez que os percursos formativos serão trabalhados. “Aluno tem interesse em comum com a vida real e vai ter mais interesse com essa conexão com a escola. Hoje, eles estão completamente desconexos com a instituição, eles não gostam do formato, é uma escola obsoleta”, inicia a pedagoga e gestora educacional.

Juliana Alvares

Pedagoga e gestora educacional

"Quando olhamos para a evolução da educação, ainda estamos no modelo da escola industrial e conteudista, que coloca alunos enfileirados. Com esse novo modelo, eles terão autonomia, poder de escolha e isso faz com que o aluno se envolva mais, e que a escola seja mais o foco"

A nova distribuição de horas é definida como 60% para currículo base e 40% de itinerários formativos, tendo como foco o desenvolvimento do projeto de vida que deve ser orientado com espaços para diálogo, reflexão, conscientização e debates, a fim de auxiliar os jovens em suas escolhas. 

"Temos sentido que existe um desejo de mudar as áreas que eles têm interesse. Hoje, é muito diferente do que era há 10 anos. As novas profissões aguçam muito o olhar. É uma vantagem desse novo ensino médio, eles poderem testar o que gostam. Entendo que isso vai colaborar para eles no mercado de trabalho. Quando a gente sabe o que gosta e o que é bom, isso facilita muito posteriormente”, opina Monique Montenegro, coordenadora pedagógica geral da Rede de Ensino Doctum, esperando que o ensino médio apresente a perspectiva de um trabalho investigativo, criativo, que trabalhe empreendedorismo nos alunos.

Monique Montenegro é coordenadora pedagógica geral da Rede de Ensino Doctum
Monique Montenegro é coordenadora pedagógica geral da Rede de Ensino Doctum. Crédito: Acervo Pessoal

Juliana Santos ainda reitera que o mundo do trabalho está em plena mudança e, por conta disso, é necessário que os jovens mantenham um aprendizado contínuo. “Se estamos desenvolvendo projeto de vida com os alunos, espera-se que eles entrem no mercado de trabalho com maior propósito, porém isso não quer dizer que vão seguir carreiras como as existentes até hoje, pois as mudanças vão gerar impulso para readequações constantes de carreiras. É quase inimaginável que o jovem de 2030 permaneça 10, 15 anos em uma empresa”, pontua.

PREPARADO PARA O MERCADO?

Rosângela, gerente de Ensino Médio da Sedu, pontua que um dos contras incisivos na questão do Novo Ensino Médio é que o estudante ainda não tem maturidade o suficiente para fazer uma escolha assertiva mas que, diante de dúvidas, acredita que será possível que o aluno mude, se quiser.

Rosângela Vargas Davel Pinto

Gerente de Ensino Médio da Sedu

"Naturalmente, esse aluno vai amadurecer e ter conexão com algo mais real. Isso facilita o ingresso no ensino superior, essa maturidade favorece isso, talvez até uma identificação e, com certeza, uma segurança maior com a profissão. Hoje, vemos alunos ingressando no ensino superior e mudando de curso. Ou faz o curso inteiro e não atua na área por uma escolha não acertada feita lá atrás"

A preocupação dos jovens alunos com o mercado de trabalho, segundo Juliana Alvares, já é existente. A especialista afirma que a grande preocupação de hoje é o aluno não saber nada sobre o mercado justamente por falta de preparo na escola.

“A preocupação é com o modelo de escola proposto. Não saber lidar com banco, fazer Imposto de Renda. ‘Amanhã estou no mercado de trabalho e não sei por onde começar’. A preocupação maior é a desconexão da escola com o mercado. Eles dizem: ‘Eu não sei o que fazer quando chegar no mercado de trabalho’. Muita gente tem expectativa de experiência e aí o aluno chega lá cru. Isso é uma sombra que rodeia os alunos”, completa a profissional.

Alunos terão que decidir a carreira durante o ensino médio
Alunos terão que decidir a carreira durante o ensino médio. Crédito: wayhomestudio/Freepik

Ainda sem evidências propriamente ditas em relação ao mercado de trabalho, Rosângela pontua que a Sedu ainda não fez uma pesquisa que mostre respostas concretas a respeito. “No entanto, no que a gente vê, muitos desejam fazer um curso técnico. Acredito que a escolha dos estudantes demonstra já de imediato uma carreira profissional que eles desejam seguir, mas isso não pode ser visto como parâmetro final. De repente, é um desejo de imediato, mas que ainda não tem definição concretizada na cabecinha deles”, acrescenta a gerente.

O ENSINO FUNDAMENTAL FICA DO MESMO JEITO? E O VESTIBULAR?

Juliana Santos pontua que, de acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a educação básica também vai se alterar. As matrizes são construídas por competências tendo os conteúdos como pano de fundo. “São desenvolvidas competências específicas de componentes curriculares e as habilidades são o foco da educação”, explica.

A gerente de Educação ainda pondera que é preciso assegurar que os jovens estejam preparados para resolver problemas, agir de maneira socialmente responsável, que sejam criativos, críticos e que não tenham pensamento compartimentado, mas que avaliem diferentes perspectivas para um mesmo fato, por exemplo.

Entretanto, a gerente de ensino médio da Sedu afirma que ainda não há direcionamento se, a nível nacional, o ensino fundamental sofrerá mudanças. “O Espírito Santo direciona o ensino médio para que carga horária também seja ampliada para 1.000h/ano e que também os componentes comecem a ser implementados no ensino fundamental daqui um tempo. Mas as diretrizes nacionais a respeito da mudança, ainda não temos”, afirma Rosângela.

Já em relação ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), Davel afirma que a Sedu ainda aguarda a definição do Ministério da Educação (MEC) a respeito do novo desenho do exame.

“Em discussões e reuniões com o MEC, eles dizem que estão estruturando propostas que conversem com o novo ensino médio. O estudante vai fazer uma prova baseada nos componentes da formação geral básica e depois outra prova que dialogue com o itinerário que ele escolheu, mas que converse com a competência e habilidades de outros estudantes. Ainda temos muita indefinição do Enem com o Novo Ensino Médio”, confessa.

Coordenadora da Emescam, Juliana Alvares é pedagoga e gestora educacional
Coordenadora da Emescam, Juliana Alvares é pedagoga e gestora educacional. Crédito: Acervo Pessoal

Juliana Alvares também segue com a mesma dúvida, porque ainda não se sabe como o exame será ofertado. "O MEC tem anunciado as mudanças e falado constantemente sobre o assunto, mas nada foi formalizado ainda. Estamos todos na expectativa, ainda mais escolas particulares que ofertam cursinhos e têm produtos preparatórios para cursos. As escolas estão aguardando o formato do novo Enem para consolidar suas propostas dentro do Novo Ensino Médio. É novo para todos, temos acompanhado movimentos das escolas que estão evitando mexer demais na grade", explica.

Por fim, Alvares afirma, de forma otimista, que mudanças são sempre boas e que a Emescam vai, sim, abraçar a proposta, procurar soluções e se reinventar. “Passamos por uma pandemia, a educação não estava pronta, escolas sofreram muito. Acho que, no final das contas, nos reinventamos e as coisas aconteceram. Precisamos estar dispostos a tentar e a promover e fazer dar certo”, finaliza.

“A escola está ultrapassada, não é eficaz. Eu acho que precisa mudar, as escolas não atendem às demandas emocionais dos alunos, não linkam esse estudante com a vida real. Acho que a gente precisa, de fato, abraçar a ideia e tocar o barco. Somos ensino superior e precisamos acompanhar essas mudanças. Isso vai impactar na forma que o ensino vai se comportar. Vestibulares e provas precisam acompanhar essas mudanças O ensino médio é o começo delas”.

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