Vinte anos após a criação da Lei Maria da Penha, alguns bairros do Espírito Santo continuam aparecendo repetidamente entre os locais com maior número de registros de violência contra a mulher. Levantamento realizado por A Gazeta com base em dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp) mostra que Interlagos, em Linhares, liderou o ranking estadual de 2022 a 2024 e voltou a ocupar o primeiro lugar nos cinco primeiros meses de 2026.
De janeiro a maio deste ano, o bairro registrou 136 ocorrências, uma média de um caso a cada 27 horas. Em seguida, aparecem Vila Nova de Colares, na Serra (124); Guriri, em São Mateus (117); Jardim Camburi, em Vitória (113); e Bairro das Laranjeiras, também na Serra (109).
A análise da série histórica revela que a violência contra a mulher se mantém concentrada em alguns territórios do Estado. Além de Interlagos, bairros como Guriri, Jardim Camburi, Praia da Costa, Praia do Morro, Barra de Itapemirim, Feu Rosa e Bairro das Laranjeiras estão nas primeiras colocações em diferentes anos, indicando um padrão persistente de registros.
Apesar disso, a Gerência de Proteção à Mulher da Sesp afirma que os números não significam, necessariamente, que esses bairros sejam os mais violentos para as mulheres. Segundo a delegada Michelle Meira, diversos fatores influenciam as estatísticas, como o tamanho da população, a existência de equipamentos públicos especializados e, principalmente, a disposição das vítimas em denunciar.
A gente acredita que as mulheres estão denunciando mais. Cada vez mais, por meio da imprensa, das campanhas e das ações do poder público, elas entendem o que é violência contra a mulher. Muitas pessoas ainda associam violência apenas à agressão física, quando ela pode acontecer de várias formas
Michelle Meira, delegada da Gerência de Proteção à Mulher da Sesp
Para Rosely Pires, coordenadora do projeto de extensão Fordan – Cultura no Enfrentamento às Violências, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o aumento das notificações também precisa ser entendido como um reflexo de uma sociedade, que passou a reconhecer melhor as diferentes formas de violência previstas na Lei Maria da Penha. Ela pondera, porém, que a violência continua fortemente ligada às desigualdades sociais e às relações de poder entre homens e mulheres.
"Quanto mais acesso ilimitado o homem tem ao corpo da mulher, maior a possibilidade de produzir violência. Por isso, marido e companheiro aparecem muito acima dos demais agressores", afirma, citando dados do DataSenado, segundo os quais 62% das mulheres que sofreram violência doméstica apontaram o marido ou companheiro como autor das agressões.
Serra lidera em quantidade de bairros
Apesar de Interlagos ocupar o primeiro lugar, é a Serra o município com maior presença entre os bairros que mais registraram violência contra a mulher no Estado.
Dos 20 bairros com maior número de ocorrências, cinco estão no município: Vila Nova de Colares, Bairro das Laranjeiras, Feu Rosa, Parque Residencial Laranjeiras e Novo Horizonte.
O levantamento também mostra que a violência contra a mulher não está concentrada apenas na Região Metropolitana. Entre os bairros com maior número de registros aparecem, Guriri, em São Mateus; Barra de Itapemirim, em Marataízes; Centro de Colatina, além dos dois bairros de Linhares.
Feminicídios ocorrem em bairros diferentes
O cruzamento dos dados de violência contra a mulher com os registros de feminicídio mostra que o maior número de ocorrências não significa, necessariamente, maior concentração de assassinatos motivados por violência de gênero.
Entre os 20 bairros que lideram o ranking de registros, apenas Bairro das Laranjeiras, na Serra, também registrou um feminicídio em 2026.
Além desse registro, houve casos de feminicídio em Santo Antônio, Vitória; Itaquari, Cariacica; Jardim Planalto, Pinheiros; Centro de Castelo; Barra do Riacho, Aracruz; Itamira, Ponto Belo; São Judas Tadeu, Guarapari; e em São José do Calçado.
Para Michelle Meira, a diferença entre os dois indicadores reforça a importância da denúncia ainda nos primeiros sinais da violência. De acordo com a delegada, estudos apontam que cerca de 70% das mulheres vítimas de feminicídio já viviam relacionamentos marcados por agressões, mas nunca haviam denunciado os autores.
É importante que as mulheres denunciem. Quando elas procuram ajuda, a gente consegue muitas vezes tirá-las desse ciclo de violência e oferecer os serviços que o Estado disponibiliza
Michelle Meira, delegada da Gerência de Proteção à Mulher da Sesp
Segundo ela, mesmo quando a vítima ainda não se sente preparada para registrar um boletim de ocorrência, é importante procurar algum serviço da rede de atendimento. "Se ela ainda não deseja fazer uma denúncia policial, é importante buscar um serviço de atendimento para que ela se fortaleça e consiga romper esse ciclo."
Vinte anos de mudanças
Criada em agosto de 2006, a Lei Maria da Penha passou por diversas atualizações para acompanhar as transformações da sociedade e das formas de violência.
Além de fortalecer as medidas protetivas, a legislação passou a reconhecer novas modalidades de violência, como a psicológica, e foi ampliada para responder aos crimes praticados por meio das tecnologias, como perseguições virtuais, divulgação não autorizada de imagens íntimas e outras formas de violência digital. Veja a seguir a linha do tempo com a evolução da legislação:
Na avaliação de Michelle Meira, a evolução da lei é fundamental para acompanhar as mudanças na sociedade. "É importante que a legislação acompanhe a evolução da sociedade. Cada vez mais usamos meios tecnológicos para tudo, inclusive para cometer crimes. Isso ajuda tanto as instituições a entenderem esses novos casos quanto as mulheres a reconhecerem que aquilo que elas estão sofrendo também é um crime."
Ela cita como exemplo a violência psicológica, que ainda é pouco compreendida. "Muitas pessoas entendem a violência psicológica apenas como ameaça. Mas ela envolve comportamentos repetitivos que causam abalo emocional e comprometem a saúde psicológica da vítima", explica.
O desafio continua
Michelle Meira avalia que o maior desafio continua sendo cultural. "É um desafio nacional mudar a cultura do machismo, fazer com que o homem entenda que a mulher não é objeto de sua vontade e que o fim de um relacionamento precisa ser respeitado", analisou.
Rosely observa que romper uma relação abusiva depende não apenas da decisão da vítima, mas também de uma rede de apoio que acolha e oriente as mulheres. Segundo dados do DataSenado citados pela pesquisadora, apenas 32% das vítimas de violência doméstica ou familiar procuram inicialmente uma delegacia. O levantamento mostra que a maioria busca ajuda primeiro junto à família, amigos ou instituições religiosas, como mostra o gráfico abaixo.
Para a pesquisadora, isso indica que a primeira resposta à violência costuma acontecer fora das instituições públicas.
Se essas mulheres procuram primeiro a família, a igreja ou os amigos, elas estão pedindo socorro. O problema é que essa rede nem sempre consegue orientá-las ou oferecer condições para que rompam o relacionamento violento
Rosely Pires Coordenadora do projeto de extensão Fordan
Segundo Rosely, a dificuldade é ainda maior para mulheres negras, moradoras da periferia e com menor autonomia financeira, que muitas vezes não têm para onde ir nem com quem deixar os filhos caso decidam sair de casa.
Por fim, a delegada Michelle reforça que denunciar continua sendo a principal ferramenta para evitar que a violência evolua para o feminicídio. "Pode parecer um contrassenso, mas quanto mais mulheres denunciam, melhor. É assim que conseguimos protegê-las, interromper o ciclo da violência e evitar que esses casos terminem em feminicídio."