Publicado em 30 de março de 2026 às 18:13
Seja no esporte de alto rendimento ou na prática regular de exercícios, treinar com dor ainda é frequentemente visto como sinal de heroísmo e disciplina — ou até como prova de evolução e resultados. No entanto, o incômodo é o primeiro aviso de que algo não vai bem com o corpo, e ignorar esse alerta pode transformar um desconforto passageiro em uma lesão permanente. >
Abaixo, Sebastião J. Rodrigues Junior, médico do esporte e professor da Faculdade de Medicina de Assis (Fema), mestre em interações estruturais e funcionais na reabilitação, membro da comissão médica da seleção feminina de futebol sub-17, explica sobre os riscos de se exercitar lesionado e quando é seguro voltar a treinar. Confira! >
Quando o retorno ao treino acontece antes do tempo ideal, o processo de cicatrização é interrompido. O tecido lesionado não se reorganiza corretamente, tornando-se mais frágil e suscetível a novos danos. Ao mesmo tempo, a continuidade da atividade mantém o corpo em um estado inflamatório constante, dificultando a regeneração adequada. >
As compensações biomecânicas e as alterações no controle motor agravam ainda mais o quadro, criando um efeito em cadeia. Com o tempo, esse conjunto de fatores pode transformar um problema simples em uma condição crônica, mais difícil de tratar e com impacto duradouro. >
>
O corpo costuma dar sinais claros de que a recuperação ainda não foi concluída. Dor durante ou após a atividade, inchaço recorrente, sensação de instabilidade, perda de força e limitação de movimento são alguns dos principais alertas. Mesmo fatores menos óbvios, como rigidez persistente ou insegurança ao realizar determinados movimentos, indicam que o organismo ainda não está pronto. É importante destacar: a ausência de dor não significa necessariamente que houve recuperação completa. >
Quando um atleta entra em campo sem estar totalmente recuperado, o corpo passa a funcionar em condições desfavoráveis. Uma lesão leve pode evoluir rapidamente para algo mais grave, como uma ruptura muscular ou ligamentar. Além disso, o organismo tende a criar compensações: para evitar dor em uma região, outras partes do corpo são sobrecarregadas. Esse mecanismo aumenta significativamente o risco de novas lesões e pode comprometer o desempenho, reduzindo força, mobilidade e precisão. >
Outro ponto crítico é a possibilidade de a lesão se tornar crônica. Sem o tempo adequado de recuperação, o processo inflamatório persiste e pode causar danos permanentes a estruturas como tendões, cartilagens e ligamentos. >
Embora o risco exista para todos, ele é gerenciado de formas muito diferentes. Atletas profissionais contam com uma equipe multidisciplinar, que inclui médicos, fisioterapeutas e preparadores físicos. Isso permite que o retorno às atividades seja baseado em critérios objetivos, como testes de força, mobilidade e desempenho funcional. Ainda assim, muitas vezes esses atletas enfrentam grande pressão para voltar rapidamente às competições. >
Os praticantes recreativos, em geral, não possuem esse suporte. Por isso, quando decidem retornar antes da recuperação completa, muitas vezes guiados apenas pela diminuição da dor, acabam se expondo a riscos ainda maiores. Em termos práticos, o que pode ser um “risco calculado” para um profissional tende a ser uma decisão pouco segura para quem pratica esporte apenas por lazer. >
No nível profissional, equilibrar a urgência competitiva com a preservação da saúde é um dos maiores desafios. Para isso, são adotadas estratégias como o uso de critérios objetivos para liberação, controle rigoroso da carga de treino e monitoramento constante do atleta. >
Além disso, a comunicação entre a equipe técnica e o departamento médico é fundamental para evitar decisões precipitadas. Cada vez mais, também se busca uma mudança cultural no esporte, valorizando não apenas o desempenho imediato, mas a longevidade da carreira. >
Por Adriano Ferreira >
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta