Publicado em 24 de fevereiro de 2026 às 16:29
Em meio à rotina acelerada, às mudanças nos hábitos de consumo e à busca crescente por qualidade de vida, a relação das pessoas com a comida vai muito além do sabor ou do valor nutricional. O que chega ao prato envolve uma cadeia de cuidados que começa na escolha dos ingredientes e passa pelo preparo, armazenamento e forma de consumo. >
Em um cenário em que cada vez mais brasileiros optam por cozinhar em casa e repensar seus hábitos, falar sobre os bastidores daquilo que comemos se torna essencial — especialmente quando o assunto é saúde e a prevenção de intoxicações alimentares. >
Dados da Food Safety Brasil indicam que intercorrências de saúde de origem alimentar praticamente dobraram entre 2020 e 2024 no mundo. No Brasil, entre 2018 e 2023, foram registrados 6.874 surtos de Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar (DTHA) que afetaram cerca de 110 mil pessoas. A possibilidade de uma doença ser causada por um alimento não ocorre apenas em restaurantes. A contaminação também pode ocorrer em casa, devido às práticas de preparo e armazenamento inadequados. >
Em 2025, a realização de refeições em casa teve um aumento entre os brasileiros, de acordo com levantamento da Worldpanel by Numerator . Entre as tendências de consumo para 2026, a mesma instituição observou que há uma procura por melhor qualidade de vida e saúde. >
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O preparo em casa é uma das alternativas para consumir refeições mais saudáveis. Entretanto, além dos benefícios nutricionais, na relação entre saúde e alimento há também riscos, pois ingredientes contaminados podem causar infecções gastrointestinais diversas. De acordo com o Ministério da Saúde, existem mais de 250 tipos de doenças que podem ser transmitidas por alimentos ou água. >
Rochele Boneti, professora de Nutrição na FADERGS — Faculdade de Desenvolvimento do Rio Grande do Sul —, aponta que um alimento é seguro para consumo quando está íntegro, o que significa estar dentro da validade, sem ter partes estragadas e que tenha sido armazenado corretamente. >
“A qualidade de armazenamento do alimento normalmente é uma das principais relações com as doenças transmitidas por eles”, explica. Isto porque quando, de forma prolongada, o alimento está exposto a um ambiente entre 5 °C e 60 °C, a chamada “zona crítica de temperatura”, há mais risco de microrganismos se proliferarem. >
Os principais microrganismos que contaminam os alimentos são bactérias, mas também podem ser fungos, vírus ou parasitas. “Normalmente essa infestação bacteriana causa dor abdominal, náusea, vômito. A famosa gastrointerite”, explica Rochele Boneti. >
Ela ainda aponta que uma das mais preocupantes é a salmonelose, causada pela bactéria salmonella , que é de difícil controle e apresenta sintomas fortes. Esta bactéria é encontrada comumente em ovos crus, mas também pode estar em carnes pouco cozidas ou na contaminação cruzada. >
Existem diversos mitos e práticas que prejudicam a segurança dos alimentos no dia a dia. Um desses mitos é o de que não se pode guardar alimentos quentes na geladeira. A indicação da professora é que tanto produtos cozidos quanto crus fiquem no máximo uma hora fora da geladeira. Além disso, o descongelamento de refeições e carnes deve ser feito em refrigerador, e não em temperatura ambiente. >
Outras práticas comuns que podem prejudicar a segurança do alimento envolvem a má higienização das mãos antes do preparo ou consumo, o mau cozimento e limpeza incorreta dos ingredientes. Rochele Boneti reforça que frutas , verduras e legumes a serem consumidos crus devem ser deixados de molho por 15 minutos em cloro diluído em água, sendo que a proporção é uma colher de cloro para cada litro de água, e após devem ser lavados em água corrente. As carnes, por outro lado, nunca devem ser lavadas, pois podem contaminar utensílios próximos. >
Além da higienização das mãos e alimentos, é preciso manter a limpeza de utensílios como talheres, panelas e pratos. Manusear um alimento cru e um cozido com a mesma colher, por exemplo, pode causar a contaminação cruzada de microrganismos. >
O cuidado com a validade é outro ponto fundamental. Alimentos fora da validade podem ter sofrido alterações por causa de bactérias, fungos ou mudanças químicas, o que os torna perigosos para a saúde. A docente da FADERGS chama a atenção para a compra de alimentos a granel, estes devem sempre conter a etiqueta de validade, pois, caso contrário, se torna difícil distinguir o período adequado para consumo. >
Situações que envolvem produção de alimentos em grandes quantidades, como restaurantes e eventos, representam um risco maior de contaminação. “Se não tem um nutricionista, alguém que cuide dessa qualidade do preparo e da organização que vai desde a compra ao armazenamento e do cuidado nesse momento de grande distribuição, a situação é de grande perigo”, ressalta Rochele Boneti. >
Nestas situações, ela indica que o consumidor pode prestar atenção na higiene do local e na temperatura do buffet. Isso porque os alimentos frios precisam ser mantidos abaixo de 5 °C e os quentes, acima de 60 °C. Uma forma de perceber esse último é observando se está saindo “fumaça” do alimento ou, se na hora de consumir, ele de fato está quente, e não morno. >
A Organização das Nações Unidas (ONU) define que “existe segurança alimentar quando as pessoas têm acesso a alimentos seguros e nutritivos, em quantidade suficiente para um crescimento e desenvolvimento normais, levando uma vida ativa e saudável”. Este conceito está ligado à segurança do alimento, pois, ter um alimento de qualidade e que não trará prejuízos à saúde, também compõe a segurança alimentar. >
A insegurança alimentar moderada ou grave, que indica a ocorrência de restrição no acesso a alimento adequado durante o período de um ano, atingiu 2,3 bilhões de pessoas no mundo entre 2023 e 2024, conforme a ONU. A projeção é que 512 milhões de pessoas possam estar cronicamente subalimentadas até 2030. >
A dificuldade em adquirir alimentos de qualidade e a falta de acesso a saneamento básico são fatores que influenciam nas práticas de segurança alimentar. “Nem todas as pessoas, e principalmente as que vivem em uma situação mais vulnerável, têm acesso a alimentos de qualidade. Muito por causa do valor”, aponta Rochele Boneti. Neste sentido, o acesso ao saneamento e à alimentação adequada se trata também de uma questão de saúde pública e coletiva, pois a insegurança alimentar pode representar um risco maior de surtos de doenças de transmissão alimentar. >
Para reduzir os riscos no dia a dia, pequenas mudanças de hábito fazem toda a diferença e ajudam a tornar o preparo e o consumo de alimentos mais seguros. Confira algumas orientações práticas que podem ser incorporadas à rotina! >
Por Carol Passos >
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