Eles estão na mochila da academia, na lancheira e até na geladeira de quem quer levar uma vida mais saudável. Mas o isotônico, frequentemente associado à hidratação e ao universo fitness, pode fazer mais mal do que bem quando consumido sem necessidade. Desenvolvidas para atletas e situações de desgaste físico intenso, essas bebidas concentram sódio e carboidratos em quantidades que, no dia a dia, podem favorecer retenção de líquidos, ganho de peso, aumento da pressão arterial e piora do risco cardiovascular.
O alerta chama atenção porque o isotônico deixou de ser um produto restrito ao esporte e passou a ser visto como uma escolha “saudável” para qualquer pessoa. Impulsionado pelo marketing e pelas redes sociais, o consumo se popularizou entre sedentários, adolescentes e até crianças, muitas vezes como substituto da água.
Segundo o médico Rafael Reis, esse hábito pode trazer consequências silenciosas ao organismo. “O consumo frequente sem necessidade pode aumentar ingestão de sódio e açúcar de forma desnecessária. Dependendo da quantidade e da frequência, isso pode contribuir para retenção de líquido, aumento calórico e piora metabólica ao longo do tempo”, explica.
A preocupação é respaldada por recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que orienta um consumo máximo de 2 gramas de sódio por dia, o equivalente a cerca de 5 gramas de sal. Dependendo da marca e da quantidade ingerida, os isotônicos podem representar uma parcela importante desse limite, especialmente quando consumidos rotineiramente.
Quando o isotônico realmente é indicado?
Os isotônicos foram desenvolvidos para repor água, eletrólitos, como sódio e potássio, e carboidratos após exercícios prolongados ou de alta intensidade, especialmente quando há grande perda de suor. Corridas de longa distância, treinos extenuantes em dias muito quentes e atividades com duração superior a uma hora são exemplos de situações em que a bebida pode ser útil.
Para quem faz caminhadas, musculação moderada ou exercícios leves, a água costuma ser suficiente para manter a hidratação.
Segundo a nutricionista Cintya Bassi, da São Cristóvão Saúde, os isotônicos são indicados para atletas que realizam exercícios de performance moderada a intensa, pois esses precisam repor eletrólitos perdidos durante a prática esportiva. “As bebidas isotônicas são compostas por carboidratos, numa proporção de 6 a 8%, além de vitaminas e sais minerais, como sódio e potássio”, explica. Elas desempenham um papel importante na hidratação, reposição de eletrólitos e manutenção do equilíbrio eletrolítico, especialmente durante atividades físicas prolongadas e de alta intensidade.
Contudo, a especialista adverte sobre o consumo inadequado dessas bebidas. “Para quem não é atleta, ingerir isotônicos pode ser uma perda de tempo e dinheiro. Se a bebida não for zero, além dos sais minerais, consumirá um açúcar do qual não estava precisando”. Ou seja, o consumo excessivo pode até contribuir para um aumento desnecessário de calorias.
Uma alternativa mais saudável e natural, segundo a nutricionista, é a água de coco, que também atua como um isotônico natural, oferecendo os mesmos benefícios de hidratação e reposição de eletrólitos, sem o excesso de açúcares e aditivos presentes nas versões industrializadas. “Os isotônicos são uma ferramenta eficaz, mas apenas quando usados com moderação e de acordo com a necessidade. Para a maioria das pessoas, especialmente aquelas que não praticam atividades físicas intensas, a água continua sendo a melhor opção de hidratação”, finaliza a especialista.
Isotônico pode substituir a água?
Embora tenham sido incorporados ao estilo de vida fitness, isotônicos não devem ser encarados como bebidas de uso livre no dia a dia. “Pode aumentar retenção hídrica, pressão arterial e ingestão calórica. Em pessoas predispostas, o consumo excessivo também pode contribuir para pior controle glicêmico e aumento do risco cardiovascular”, alerta Rafael Reis.
Pessoas com hipertensão, diabetes, doença renal, retenção de líquidos ou histórico de problemas cardiovasculares devem ter atenção redobrada.
O isotônico não pode substituir a água. “A água continua sendo a principal e mais importante forma de hidratação cotidiana. O isotônico deve ser usado de maneira estratégica e não como substituto habitual da água”, reforça o médico. A orientação ganha ainda mais relevância em um cenário de aumento do consumo de produtos ultraprocessados no Brasil. Com a nova rotulagem nutricional, alimentos e bebidas com excesso de açúcar e sódio passaram a exibir alertas mais visíveis ao consumidor.
Nem sempre o excesso é percebido de imediato, mas alguns sinais podem indicar que o consumo está acima do ideal. “Retenção de líquido, aumento de sede, inchaço, piora da pressão arterial, ganho de peso e aumento do consumo calórico diário podem ser sinais indiretos de excesso”, afirma Rafael Reis.
Apesar da imagem de bebida saudável, o isotônico não deve fazer parte da rotina sem uma necessidade real. Para a maioria das pessoas, água, alimentação equilibrada e hidratação adequada ao longo do dia são suficientes. Se você não está perdendo grandes quantidades de suor em treinos intensos e prolongados, a melhor escolha continua sendo a mais básica e eficiente: água.