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Dor generalizada

Fibromialgia: entenda a doença de Elisa em 'Quem ama cuida' e os sintomas da crise

A síndrome retratada na ficção atinge entre 2% e 3% da população no país, aproximadamente sete milhões de pessoas

Publicado em 07 de Julho de 2026 às 16:06

Guilherme Sillva

Publicado em 

07 jul 2026 às 16:06
Elisa (Isabela Garcia) em "Quem ama cuida" sofre com fibromialgia
Elisa (Isabela Garcia) em "Quem ama cuida" sofre com fibromialgia Divulgação Globo/ Manoella Mello

No capítulo da última segunda-feira (6) de "Quem ama cuida", a personagem Elisa (Isabela Garcia) foi diagnosticada com a doença com fibromialgia, doença que afeta milhões de brasileiros. 


Segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), a fibromialgia afeta cerca de 3% da população brasileira, o equivalente a aproximadamente 6 milhões de pessoas. No mundo, estima-se que entre 2% e 5% da população conviva com a doença. Embora possa atingir homens e mulheres de diferentes idades, a condição é mais frequente no sexo feminino, representando cerca de 80% a 90% dos casos diagnosticadosA personagem, que vive a mãe da protagonista Adriana (Letícia Colin), deve começar a ver o quadro melhorar nos próximos capítulos, após o diagnóstico da doença.


A fibromialgia é uma síndrome crônica caracterizada principalmente por dor generalizada em diferentes regiões do corpo, acompanhada por uma série de outros sintomas que podem comprometer significativamente a qualidade de vida. Segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia, a condição está relacionada a alterações na forma como o sistema nervoso processa os estímulos dolorosos, tornando o organismo mais sensível à dor.


De acordo com a reumatologista Luiza Vallory Alochio, da Unimed Sul Capixaba, os sinais mais comuns da fibromialgia incluem dor musculoesquelética por todo o corpo, cansaço persistente, sono não reparador, dificuldade de concentração, alterações de memória e sensibilidade aumentada ao toque. Também podem ocorrer sintomas como ansiedade, depressão, dores de cabeça frequentes, síndrome do intestino irritável e sensação de rigidez corporal, especialmente ao despertar.


“O paciente costuma apresentar uma combinação de sintomas que vai muito além da dor. A fadiga intensa, os distúrbios do sono e as alterações cognitivas fazem parte do quadro e muitas vezes são tão incapacitantes quanto a própria dor”, explica Luiza Vallory Alochio.


Embora os sintomas possam estar presentes de forma contínua, muitos pacientes relatam períodos de agravamento conhecidos popularmente como crises de fibromialgia.

Luíza Vallory Alochio é reumatologista
Luíza Vallory Alochio explica o que é a doença Divulgação

Nesses momentos, a intensidade da dor costuma aumentar, podendo ser acompanhada por exaustão física, sensação de peso no corpo, piora da qualidade do sono, maior sensibilidade a estímulos, dificuldade de concentração e episódios de esquecimento, fenômeno frequentemente chamado de 'névoa mental'.

 Luiza Vallory Alochio Reumatologista

Diversos fatores podem contribuir para o desencadeamento dessas crises. Entre os mais comuns estão situações de estresse emocional, ansiedade, alterações do sono, excesso de atividades físicas, sedentarismo prolongado, infecções, mudanças climáticas e períodos de sobrecarga física ou mental. Segundo a especialista, identificar os gatilhos individuais é uma das estratégias importantes para o controle da doença.


reumatologista Érica Serrano, da Reuma, diz que a principal característica da fibromialgia é a dor generalizada, que pode atingir músculos, tendões e diversas regiões do corpo simultaneamente. "No entanto, os sintomas vão muito além disso. Fadiga intensa, sensação constante de cansaço, alterações de memória e concentração, dores de cabeça, sensibilidade aumentada ao toque e dificuldades para dormir fazem parte da rotina de muitos pacientes".


Além desses sintomas, a fibromialgia costuma apresentar períodos de intensificação, conhecidos pelos pacientes como crises. Nessas fases, a dor se torna mais intensa e pode vir acompanhada de fadiga extrema, piora da qualidade do sono, aumento da sensibilidade ao toque, rigidez muscular, dores de cabeça e maior dificuldade de concentração. A intensidade e a duração dessas crises variam de uma pessoa para outra, podendo comprometer significativamente as atividades do dia a dia.


“A fibromialgia é uma síndrome de dor crônica que envolve alterações na forma como o cérebro e o sistema nervoso processam os estímulos dolorosos. Por isso, o paciente pode sentir dores intensas mesmo sem apresentar sinais de inflamação ou lesões nos exames convencionais”, explica Érica Serrano.


Hoje, a ciência sabe que a fibromialgia é uma condição real e reconhecida por entidades médicas em todo o mundo. Estudos indicam que o sistema nervoso desses pacientes apresenta uma espécie de amplificação dos sinais dolorosos, fazendo com que estímulos normalmente toleráveis sejam percebidos de forma mais intensa.

O preconceito

Apesar de ser reconhecida pela medicina e por organizações de saúde internacionais, a fibromialgia ainda enfrenta preconceitos. Isso acontece porque a doença não provoca alterações visíveis em exames de imagem ou laboratoriais tradicionais. Muitas vezes, o paciente sente dor intensa, mas os exames apresentam resultados normais.


Essa característica faz com que algumas pessoas tenham seus sintomas minimizados por familiares, colegas de trabalho e até profissionais de saúde menos familiarizados com a condição. Não raramente, pacientes relatam ter ouvido que a dor é exagero, preguiça ou consequência exclusiva de fatores emocionais.


“A dor da fibromialgia é real. Como ela não aparece em exames ou não é visível aos olhos, muitas pessoas acabam desacreditadas. O acolhimento e a informação são fundamentais para que esses pacientes recebam o tratamento adequado e tenham qualidade de vida”, destaca Érica.

Quando a dor afeta também a memória

Além da dor e do cansaço, muitos pacientes convivem com dificuldades de concentração, lapsos de memória e sensação de lentidão mental, quadro conhecido como “névoa cerebral” ou fibro fog. Tarefas simples, como lembrar compromissos, encontrar palavras durante uma conversa ou manter o foco em uma atividade, podem se tornar mais difíceis.


Estudos internacionais apontam que essas alterações cognitivas estão entre os sintomas que mais impactam a rotina dos pacientes, afetando o desempenho profissional, acadêmico e até os relacionamentos pessoais.

Érica Serrano, reumatologista
Érica Serrano explica os sintomas da doença Divulgação

A chamada névoa cerebral é uma queixa muito frequente. Muitos pacientes relatam dificuldade para se concentrar, esquecer informações recentes e sensação constante de mente cansada

Érica Serrano Reumatologista

Novas diretrizes para o tratamento

O diagnóstico da fibromialgia ainda representa um desafio para muitos pacientes. Isso ocorre porque não existe um exame laboratorial ou de imagem capaz de confirmar a condição de forma isolada. Além disso, seus sintomas podem ser semelhantes aos de diversas outras doenças reumatológicas, neurológicas ou endócrinas. Estudos apontam que muitos pacientes convivem com os sintomas por anos antes de receberem o diagnóstico correto.


A confirmação é feita principalmente por avaliação clínica. O médico considera o histórico do paciente, a presença de dor generalizada por pelo menos três meses e a associação com outros sintomas característicos, como fadiga e distúrbios do sono. Exames complementares costumam ser solicitados para descartar outras doenças que possam apresentar manifestações semelhantes.


As diretrizes mais recentes para o tratamento destacam que o cuidado deve ser individualizado e multidisciplinar. A literatura científica e as recomendações internacionais apontam que medidas não medicamentosas ocupam papel central no controle da doença. Exercícios físicos regulares, especialmente atividades aeróbicas de baixo impacto, fortalecimento muscular, fisioterapia, educação em saúde, técnicas de manejo do estresse e acompanhamento psicológico estão entre as abordagens mais recomendadas.


“Hoje sabemos que o tratamento mais eficaz envolve a participação ativa do paciente. A prática regular de atividade física, a melhora da qualidade do sono e o controle dos fatores emocionais são pilares fundamentais para reduzir sintomas e melhorar a funcionalidade”, afirma Luiza Vallory Alochio.


Os medicamentos são indicados quando os sintomas persistem apesar das medidas não farmacológicas ou quando a intensidade da dor, da fadiga e dos distúrbios do sono compromete significativamente a rotina. Entre as opções utilizadas estão medicamentos que atuam nos mecanismos de processamento da dor pelo sistema nervoso, além de fármacos direcionados para alterações do sono e do humor. A escolha depende das características individuais de cada paciente e deve ser feita sob acompanhamento médico especializado.


Embora ainda não exista cura definitiva, a fibromialgia pode ser controlada. As diretrizes mais recentes da Sociedade Brasileira de Reumatologia reforçam que a base do tratamento deve ser uma abordagem multidisciplinar, combinando atividade física regular, especialmente exercícios aeróbicos e de fortalecimento muscular, educação sobre a doença, melhora da qualidade do sono, controle do estresse e acompanhamento psicológico quando indicado.


Os medicamentos também têm papel importante, mas não são indicados para todos os pacientes nem representam a primeira estratégia de tratamento de forma isolada. Eles costumam ser recomendados quando a dor, os distúrbios do sono ou o comprometimento da qualidade de vida persistem mesmo após a adoção das medidas não medicamentosas. A escolha da medicação deve ser individualizada e considerar os sintomas predominantes e as características de cada paciente.

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