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Saúde

Se a medicina está em crise, toda a sociedade está correndo riscos

Pesquisa mostrou que 70% dos médicos avaliados não souberam fazer a aferição da pressão arterial e nem diagnosticar um infarto. A sociedade precisa saber disso pois é a vida e a saúde das pessoas que estão em jogo

Publicado em 20 de Janeiro de 2020 às 04:00

Públicado em 

20 jan 2020 às 04:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Médicos Crédito: Divulgação
O resultado da avaliação de médicos realizada pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo e divulgada esta semana nos dá a dimensão da grave crise que se abateu sobre a educação médica brasileira e, por consequência, sobre a medicina.
Ao afirmar que 70% dos médicos avaliados não souberam fazer a aferição da pressão arterial e nem diagnosticar um infarto, o presidente do CRM-SP assume os riscos de um pronunciamento que desvela a condição de precariedade do atendimento médico no Brasil e dos riscos aos quais a população está submetida, ao ser atendida por profissionais com essa fragilidade na formação.
A questão se agrava quando lembramos que estamos falando do Estado de São Paulo, localizado na Região Sudeste, onde se propaga haver uma qualidade superior ao restante do Brasil, tanto quanto se fala em formação quanto de atendimento médico. São Paulo é considerado, por todos, o lugar onde se pratica a melhor medicina do Brasil. Imaginemos, a partir, dessa informação, como anda o restante do país.
A pressão arterial é o que há de mais elementar no conhecimento médico. São como as vogais que são ensinadas para um menino de 4 ou 5 anos que está iniciando seu processo de alfabetização. São como as notas musicais que são ensinadas para alguém que está em sua primeira aula de musicalização. Não é possível passar para a fase seguinte sem que a primeira esteja dominada.
A pressão arterial é o procedimento médico inicial de qualquer consulta. Ela é determinante na construção do raciocínio médico para a formulação das hipóteses diagnósticas, qualquer que seja a especialidade médica. Não ser capaz de aferir uma pressão arterial corretamente significa que falta ao médico o elemento mais simples que compõe a chamada anamnese.
A perspectiva que se projeta para o futuro é ainda mais preocupante. Não se está aqui a adentrar na eterna polêmica existente entre o Conselho Federal de Medicina, que defende a não abertura de novas vagas, e a Associação Brasileira de Mantenedoras de do Ensino Superior, que defende que as regras do mercado definam acerca do assunto relativo à abertura de novas vagas para cursos de medicina.
Esse assunto, à despeito de importantíssimo, e talvez essencial, núcleo central para a compreensão da problemática, suscitada pelo resultado divulgado pelo CFM-SP, não é, entretanto, objeto do debate nesse momento. Isso será feito em artigo sem separado.
O que queremos trazer ao debate são questões mais simples. Primeiro é que a sociedade precisa tomar conhecimento dessa situação pois é a vida e a saúde das pessoas que estão em jogo. As classes mais abastadas e que possuem planos de saúde mais exigentes no processo de contratação de profissionais, ficam, em alguns casos, mais resguardadas. Vão procurar profissionais de ponta, com reconhecida capacidade técnica em grandes centros.
São Paulo, por exemplo, como já dissemos, tem a melhor e a pior medicina do pais. Tem os três ou quatro hospitais reconhecidos no mundo inteiro como de excelência, mas tem, também, esse 70% de profissionais que não são capazes de aferir uma pressão arterial e nem diagnosticar um infarto, deixando morrer uma pessoa com possibilidade concreta de viver, caso seja corretamente diagnosticada e tratada. Eles estarão espalhados pelas Unidades de Saúde e pelos Pronto-Atendimentos e Socorros das periferias, deixando morrer milhares de pessoas por incompetência profissionais.
As residências médicas, espaços de possível correção dessas falhas do processo educacional, são disponíveis a poucos. Milhares passarão suas vidas profissionais exercendo uma medicina sofrível, com precariedade técnica e ética.
O certo é que o processo de formação médica no Brasil não se submete aos critérios mínimos para a formação de um profissional capaz de atender às necessidades básicas das pessoas.
As habilidades e competências necessárias e que deveriam ser objeto do processo educacional médico, não são conhecidas nem mesmo por muitos professores dos cursos de medicina que são capturados dentre os profissionais que estão no mercado, sem que se exija deles preparação mínima para a docência com planejamento de aulas que possibilitem um aprendizado rico de oportunidades de desenvolvimento dessas habilidades e competências que, como dissemos, não indispensáveis a formação do profissional.
Médicos que se desdobram em quatro ou cinco empregos, dão aulas apressadas, nas quais priorizam divulgar o seu saber em detrimento do saber necessário aquela etapa educacional, incentivam jovens alunos a se dedicarem cada vez mais precocemente à especialidades nas quais começam a se sentir empoderados, importantes seguidores de mestres pouco dedicados à docência e ao investimento acadêmico exigido de um professor.
Planejar é um exercício docente trabalhoso e que consome tempo e expertise na docência. Quem sabe muito, nem sempre ensina bem. Avaliar corretamente, com todos os riscos que advém dela, faz parte do doloroso mister do docente. Frustrar estudantes que não se dedicaram suficientemente ao estudo é condição necessária à uma formação de qualidade.
O certo é que o problema é complexo e de muitas faces. O docente, médico antes de professor, peça chave no processo educativo e no resultado a que chegamos, não é o único responsável por essa situação de crise. Ele é apenas mais uma vítima de um sistema direcionado para o lucro, para o glamour ainda presente na profissão médica e envolvido pelos interesses de um mercado altamente lucrativo e descompromissado com os custos necessários à formação médica.
Estejamos alertas . A situação se agrava. Precisamos nos perguntar: como serão os médicos do futuro, formados em cursos de EAD, nos quais terão, cada vez mais, menos contato com aqueles que intitulamos equivocadamente de “pacientes” e, cada vez mais, menos contato com seus professores, que estarão distantes, ocupados em operar máquinas sofisticadas, onde o olho no olho, ainda permite um mínimo de dignidade e aprendizado tanto à um quando a outro?

Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitária

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