Passadas as festas de final de ano, todos nós, por mais céticos e pragmáticos que sejamos, e por mais que tenhamos a clareza de que não há uma efetiva interrupção no curso de nossas vidas no dia 31 de dezembro , utilizamos os primeiros dias do mês de janeiro para fazer planos para o ano que se inicia.
Fazemos listas dos hábitos ruins que desejamos abandonar e dos projetos que intentamos realizar. São listas normalmente enormes que encerram parte das nossas frustrações, sentimentos de impotências por aquilo que não fomos capazes de concretizar e desejos, sonhos que nos acompanham que queremos tornar realidade.
Firmar compromissos conosco mesmos, em uma tentativa de não nos deixarmos levar pelo tempo, que a tudo consome, faz parte daquilo que nos mantém vivos, esperançosos de nossa capacidade de realizar e construir a história.
Planejar ajuda a nos sentirmos parte do projeto humano de construção de um mundo melhor, no qual a existência faça sentido e não seja um mero passar do tempo, até que a morte se achegue de forma definitiva, depois de convivermos com as diversas mortes com as quais todos os dias vamos nos encontrando em um aparente aprendizado do que é, de fato, partir.
Para 2020 quero propor um exercício diferente, no qual, no topo de nossa lista individual de compromissos para o ano em curso, coloquemos como prioridade máxima um item pactuado coletivamente, acordado com todos aqueles que sonham os mesmos sonhos de uma nação democrática, soberana e com capacidade de impor-se como espaços de resistência aos projetos de colonialidade ainda hoje presentes em governantes de nações de tradição imperialista e governantes de nações que, seja por ignorância, seja por interesses os mais diversos e escusos, se posicionam com as mesmas estratégias entreguistas, típicas de países colonizados que continuam a amar e admirar aqueles que os colonizam, roubando suas oportunidades de desenvolvimento.
Que no topo de nossa lista, prioridade número 1 da nação, esteja nosso projeto de construir estratégias de resistência ao projeto de destruição da Educação brasileira. No ano de 2019 diversas foram as tentativas encetadas de desconstruir o ideal de uma educação libertária, emancipadora e libertadora, capaz de colocar o pais no lugar que lhe é por direito, considerando suas potencialidades e capacidade dos brasileiros.
Em um projeto de nação livre e soberana, a educação ocupa o lugar de maior relevância. É a consciência crítica e reflexiva que permite compreender o mundo e as estratégias de dominação adotadas por aqueles que têm como meta se apropriarem das riquezas que deveriam ser compartilhadas por todos.
É na academia, no encontro com o outro, no diálogo e no confronto de ideias que se lançam luzes sobre a escuridão. É na relação dialógica, quando se estabelece o enfrentamento das ideias, que nossa compreensão vai se alargando, nossas fichas vão caindo e vamos entendendo a real dimensão dos fenômenos sociais e dos interesses envolvidos em cada um dos projetos que nos são apresentados, com discursos bonitos, enfeitados de propostas de melhorias sociais mas que, de fato, ensejam projetos de interesses econômicos daqueles que os pagam, financiando políticos que vendem suas consciências no “toma lá da política” que a muitos corrompe.
A ignorância é desejada por todos que querem continuar no controle de uma massa sem o senso crítico necessário para discordar e fazer enfrentamentos. Criticar o ensino da filosofia, da sociologia e de todas as disciplinas de matriz propedêutica é estratégia conhecida e utilizada por muitos em projetos autoritários. A história pode nos ajudar. Um passeio pela história do nazismo poderá nos mostrar que esse mesmo projeto estava lá a sustentar o que de mais torpe podemos nos lembrar.
Foram muitos e impactantes os projetos de desconstrução da educação brasileira em 2019.
Escondido no discurso da necessidade de construir uma Escola sem Partido vendeu-se a ideia de que professores precisam ter suas ideias censuradas e controladas pelos donos do discurso . Nesse momento, o discurso da ultradireita, conservadora, religiosa, que deseja destruir o Estado laico e impor um Estado teocrático. Voltamos na história sem avaliar os riscos desse discurso.
A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em um balanço sobre o ano 2019 aponta haver um verdadeiro “desmonte do Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia” que causará impactos negativos no desenvolvimento social e econômico brasileiro, com consequências graves à sociedade como um todo.
A tentativa de desmoralização das universidades públicas, com um viés claramente direcionado para a redução do Estado e ampliação dos espaços para o privado, encetada por gestores públicos a serviço dos grandes grupos educacionais demonstra que o conflito de interesses comanda os ministérios e as instituições públicas.
A convivência salutar e respeitosa entre o público e o privado na educação superior, que poderia trazer grandes conquistas para a ciência e tecnologia, é ignorada. Campus de disputas são naturais e possíveis de serem suportadas nas democracias. O autoritarismo e o militarismo não combinam com a educação.
A autonomia universitária foi atacada e a comunidade acadêmica ainda não se movimentou como deveria. Muitos continuam apegados às disputas politico-partidárias que impedem a adoção de pautas comuns aos defensores da democracia e da luta por uma educação inclusiva e libertadora.
Não há neutralidade na educação e na ciência . Elas são campos de disputas e necessitam, por isso, de espaços de liberdade e de um rigoroso controle ético, no qual a sociedade tem papel relevante.
A educação e a ciência precisam ser nossa pauta comum. Prioridade número 1 para 2020. Não pode ser uma pauta apenas das esquerdas. Elas precisam aglutinar em torno de si pessoas conscientes de que o livre pensar é condição essencial à construção de um Estado livre e democrático, no qual as disputas de poder sejam compreendidas para além do campo religioso e dos interesses de uma minoria que continua a comandar os destinos da nação, tal qual o fazia desde tempos de sua descoberta e colonização.
Prioridade número 1 de nossa lista de compromisso para 2020. Uma pauta a unir aqueles que pensam projetos de liberdade e que não tem medo dela, nem de conviver com pessoas que pensam, tem projetos e fazem a história acontecer. Projeto de resistência e luta.