Afirmei aqui mais cedo neste espaço: o Brasil e o Espírito Santo vão muito mal nas avaliações de qualidade de ensino. Isso é ponto pacífico e todas as estatísticas o confirmam. Mas não existe – repito: não existe – saída para os nossos gargalos educacionais que não passe pelos nossos professores no ensino básico. Para qualificar o ensino, é preciso, antes de tudo, valorizar e qualificar os nossos mestres – em muitos casos, heróis anônimos que se dedicam a uma causa, por vocação, ganhando um salário de fome e ataques em vez de reconhecimento.
Por isso, é absolutamente preocupante essa sanha de caça às bruxas no espaço escolar hoje espalhada pela sociedade brasileira e lamentavelmente estimulada pelo próprio governo central. Uma caça às bruxas que se traduz em projetos como o "Escola sem Partido" (na verdade, sem sentido) e todos os seus assemelhados que têm se proliferado país afora, por vezes sendo aprovados em Câmaras Municipais e Assembleias Legislativas – e, invariavelmente, derrubados pela Justiça, por serem inconstitucionais.
Como dissemos: não há saída para a educação brasileira que passe ao largo do professor. É preciso vê-lo como a solução, não como o problema. Mas partidários da Escola sem Partido fazem justamente o contrário: em vez de valorizarem o professor e de o enxergarem como a solução, tratam-no como o problema (pior: como “ameaça” aos alunos), vilanizam-no e demonizam-no.
Não que o diagnóstico dos partidários do Escola sem Partido esteja incorreto. Eles, de fato, identificam corretamente o problema: a nossa educação vai muito mal e tem andado para trás. O erro está na identificação da causa desse problema e, sobretudo, na “solução” apontada.
Partindo dessa constatação de que a nossa educação vai mal, a conclusão deveria ser: então vamos atacar os problemas reais e urgentes, como a evasão escolar, a grade curricular, a formação e a remuneração dos professores, o tempo do aluno em sala de aula, a metodologia de ensino, a infraestrutura de unidades ecolares que se encontram literalmente caindo aos pedaços.
Em vez disso, salta-se para a conclusão: então “a culpa é desses professores que não querem ensinar Português e Matemática, mas erotizar nossas crianças e promover doutrinação ideológica em sala de aula, aproveitando-se de seu público cativo e indefeso para impor suas próprias convicções políticas, morais e religiosas”. Desculpem, mas isso é um delírio, um diversionismo que só serve para desviar o foco do que efetivamente deveria ser combatido.
E, enquanto persistirmos nesse delírio, seguiremos nos fazendo o desfavor de camuflar as reais causas de nossos problemas educacionais. E não os atacaremos frontalmente.
Não que não haja esse ou aquele professor de ensino médio "ultra-esquerdista" que resolva fazer proselitismo político-partidário em sala de aula. Não que não haja aquela docente despreparada que resolva abordar de forma precoce e atabalhoada conteúdos relacionados a sexo, sexualidade e identidade sexual no ensino fundamental.
Mas casos pontuais precisam ser tratados como casos pontuais, não como se a regra fossem. E é isso que tem acontecido. Pega-se um caso isolado, bota-se a lupa sobre ele e propaga-se o episódio como se os professores fossem todos uma legião de agentes do "marxismo cultural", seja lá o que isso signifique – aliás, misturar Marx com sexo é algo completamente sem nexo.
Além disso, a própria escola já possui os próprios mecanismos internos para controlar e, se for o caso, punir eventuais excessos e desvios programáticos. Ponto.
MOULIN ROUGE DE VENTO
O Escola sem Partido parte da premissa equivocada, generalizante, de que boa parte dos professores não estão ali em sala de aula para ensinar, mas com o objetivo de praticar “doutrinação ideológica” de alunos. O mesmo professor que, sem jamais sequer ter lido Marx, sem jamais sonhar em um dia percorrer os tomos de "O Capital", tem preocupações muito mais urgentes, relacionadas, por exemplo, ao seu próprio capital, juntando os trocados para pagar as passagens no deslocamento entre uma escola e outra e pensando nas contas a pagar no fim do mês (será que a grana vai dar?)
O Escola sem Partido, assim, é um projeto cosmético, que mira problemas periféricos– em certa medida, artificiais –, em vez de focar no que realmente importa. Os defensores do projeto ficam a perseguir fantasmas, inventar inimigos e combater “moinhos vermelhos (moulins rouges) de vento”, em vez de concentrarem seus esforços para atacar as questões que realmente deveríamos estar priorizando para melhorar a qualidade do ensino no país, citadas acima, no quinto parágrafo deste artigo.
ANTAGONISMOS FALSOS
Além do mais, não há solução possível para se promover um ambiente favorável ao ensino que não envolva engajamento e esforços em harmonia de todos os agentes que fazem parte da comunidade escolar: pais, alunos, mestres, gestores etc.
O que o Escola sem Partido promove é exatamente o contrário, exacerbando conflitos às vezes já existentes ou criando, artificialmente, outros que nem sequer existiam, e colocando em polos antagônicos elementos que deveriam se somar (ou, no mínimo, conviver respeitosamente): alunos versus professores; pais versus educadores; escola versus família e igreja; ciência versus religião.
Quem é que ganha com a inflamação desses antagonismos artificiais?
A (IR)RESPONSABILIDADE DO MEC
O MEC, aliás, desde o início da atual gestão, só faz atacar alunos e, principalmente, professores, reforçando a todo instante essa ideia de que são eles o nosso maior problema. Isso passando por Vélez-Rodríguez, chegando a Abraham Weintraub, mas começando lá no programa de governo de Bolsonaro para a área (sete míseras páginas de Power Point onde propostas detalhadas são substituídas pela promessa de "expurgo da ideologia de Paulo Freire" e pela denúncia à “forte doutrinação” e à "sexualização precoce").
O atual ministro só faz distribuir ameaças: de cessar investimentos para cursos de Sociologia e Filosofia; de tirar o Bolsa Família de alunos indisciplinados; de impedir a diplomação de universitários que tirem nota baixa no Enade...
É o mesmo que já chamou professores universitários de “zebras gordas”. O mesmo que defende que a escola deve se focar em Português e Matemática, mas que já errou publicamente uma continha simples e cometeu erros grosseiros de grafia em ofício a outro ministério. Vai entender...
Enfim, caro(a) leitor(a): na opinião deste colunista, o Escola sem Partido e seus filhotes carecem de fundamentação técnica e se perdem em uma discussão inócua e essencialmente ideológica, alimentada por um governo cujo líder afirma não tomar decisões com viés ideológico. Pelo menos esse era o discurso de campanha.
Enquanto perdemos tempo com esse tipo de debate, ficamos ainda mais parados no tempo, isso se não regredimos, enquanto as Coreias do Sul da vida estão fazendo a coisa certa.
Em vez de combater professores, que tal combatermos as verdadeiras causas para o nosso fracasso educacional, começando pela desvalorização dos nossos mestres?