Nesta semana dos professores, a Assembleia votou e arquivou o projeto do deputado Vandinho Leite (PSDB) que proíbe a “ideologia de gênero” nas escolas públicas estaduais. O projeto é uma espécie de anexo de outro do deputado: o “Escola sem Doutrinação” (retirado de pauta a pedido do próprio Vandinho), por sua vez um requentado do “Escola sem Partido”.
O projeto acabou sepultado, mas o debate de nível sofrível, na sessão da última quarta-feira, serviu para algo: mostrou o quanto a discussão sobre educação pública em nossa Assembleia Legislativa está atravessada por interesses eleitorais de uma bancada dita “conservadora” e dominada pela polarização ideológica que tomou de assalto este país – ecoando no Espírito Santo.
Muitas confusões conceituais, muitas acusações de “eu sou direita, você é extrema esquerda”, “Vossa Excelência é contra a família capixaba” e daí para outros “argumentos” na mesma vala comum. Argumentos técnicos passaram longe do plenário, assim como uma reflexão sincera sobre os reais desafios da nossa educação.
Mas a semana, o pretenso debate na Assembleia e as “soluções” que estão se propondo para a educação capixaba e brasileira exigem uma reflexão sobre o tema. É o que faremos hoje, em duas colunas.
O primeiro ponto é reconhecer o problema, bem como sua gravidade: nenhum país pode crescer social e economicamente se não tiver, antes de mais nada, uma educação pública de qualidade. Mas estamos na contramão desse caminho.
Nas principais provas e avaliações internacionais de desempenho escolar, os resultados do Brasil são pífios. Na mais importante delas, o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), o Brasil fracassou miseravelmente.
No último teste com resultados já conhecidos, realizado em 2015, alunos de 15 anos de idade, espalhados por 70 países, tiveram os conhecimentos testados em três modalidades: ciências, matemática e leitura. Entre as 70 nações, o Brasil ficou na 59ª posição do ranking em leitura e na 66ª colocação em matemática.
E o mais grave: pela primeira vez desde que o Pisa passou a ser aplicado, a nota do Brasil piorou nas três disciplinas avaliadas, no comparativo com o exame anterior, de 2012.
Quando se isola o Espírito Santo, a situação é até melhor do que a dos demais Estados brasileiros. Mas isso não significa que estejamos bem. Somos os “campeões morais”, os “menos ruins”, mas o desempenho de nossos alunos está aquém das metas estabelecidas pelo MEC.
No Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2018, a nota do Espírito Santo, considerando todas as redes (particular e pública) foi 4,4 , o que nos deu o 1º lugar no Brasil. Mas a meta era 5,1.
Considerando só a rede estadual, a nota do Espírito Santo foi 4,1 (2º lugar do país). Mas a meta, neste caso, era 4,4.
Ou seja: tanto em âmbito estadual como nacional, temos muito o que evoluir.
O QUE FAZER ENTÃO?
Quando conversamos com especialistas de verdade em educação (não supostos entendedores que levam a discussão para o lado político-ideológico), eles são unânimes ao listar as medidas emergenciais que deveriam ser tomadas como prioritárias pelo poder público, nas três esferas (União, Estados e municípios):
Investimento em quem ensina
Isso é o básico do básico: antes de mais nada, a escola tem que ser um ambiente, fisicamente, convidativo para se estar, se conviver e se aprender;
Nos 30 países com melhor desempenho no Pisa 2015, os estudantes têm, em média, sete horas de jornada escolar, enquanto no Brasil são apenas quatro;
O aluno em idade escolar precisa estar na escola; para tanto, precisa querer estar ali; e, para isso, a escola precisa ter não só um ambiente como uma grade curricular e uma metodologia de ensino atraentes para essa criança ou adolescente;
O mais importante de tudo: investimento maciço em formação, capacitação e valorização (inclusive salarial) dos professores do ensino básico (aqueles a quem confiamos a responsabilidade de ensinar as nossas crianças a pensar e a aprender). Precisamos nos deter neste ponto.
QUALIFICAR E VALORIZAR QUEM ENSINA
Não há como qualificar o ensino sem qualificar quem ensina e as condições de trabalho de quem ensina. Não há solução possível para a educação brasileira que não passe pelo professor. A resposta está neles, e só neles, nos profissionais do magistério, que precisam ser encarados e tratados pelo poder público e por todos nós como solução, não como O problema.
Se alguns deles estão mal preparados, de quem é a culpa por terem chegado despreparados a uma sala de aula? E de quem é a culpa se, uma vez graduados e na ativa, não encontram tempo e incentivo para se reciclarem e se aprimorarem continuamente? Será que a responsabilidade é exclusivamente desses indivíduos que, por vezes, precisam acumular uma tripla jornada de trabalho para, na soma das remunerações, retirar um salário minimamente digno no fim do mês?
Em todos os países do mundo cuja educação pública era muito mal avaliada e que, após algum tempo, viraram "casos de sucesso e excelência", sendo o exemplo mais notório o da Coreia do Sul, encontramos um ponto em comum: em todos eles, o governo tomou a decisão política de investir pesadamente na formação e na qualificação dos professores do ensino básico.
Na Coreia do Sul, os melhores alunos do ensino superior querem, após formados, tornar-se professores em escolas de ensino básico. Não se trata meramente de vocação, abnegação e senso de responsabilidade social (dar à sociedade um retorno pelo que o Estado investiu ao longo de sua formação). Isso tudo também tem algum peso. Mas é, para além disso, uma questão de incentivos, inclusive, mas não apenas, financeiros.
O DESRESPEITO VEM DE CIMA
A Tia Toninha da escolinha que aqui precisa seguir aquela tripla jornada encontraria, se fosse norte-americana ou sul-coreana, valorização profissional, dedicação exclusiva a uma escola (talvez a uma turma). Mais importante ainda: seria extremamente RESPEITADA pelos pais, pela sociedade como um todo e pelo ESTADO. No Brasil, os melhores alunos da academia fazem o caminho contrário: por motivos óbvios, a última coisa que querem é se tornarem professores de ensino fundamental.
Fala-se muito, ultimamente, que os mestres hoje não são respeitados pelos alunos em sala de aula. Infelizmente, isso não raro é uma assertiva verdadeira. Porém o problema vai além: no Brasil, o desrespeito ao professor começa pelo Estado. E, no Brasil de Bolsonaro, é um desrespeito que tem sido emanado diretamente do próprio Palácio do Planalto.
Enquanto perdemos tempo e energias discutindo perfumaria, ideologizando um debate que deveria ser estritamente técnico, perseguindo fantasmas imaginários e vilanizando professores em vez de valorizá-los, ficamos estagnados – se é que não involuímos ainda mais – enquanto passa, no resto do mundo, a caravana da educação de ponta, que atingiu a excelência porque ataca os problemas reais. É o tema de nossa próxima coluna.