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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Escola sem Partido e os três erros do projeto

Educadores brasileiros comprometidos com a causa da educação pública de qualidade não podem assistir que o país marche para o atraso intelectual

Publicado em 03/03/2019 às 00h08
Atualizado em 06/04/2020 às 09h55

O Escola sem Partido é um grave erro. Mais que isso, é um equívoco histórico. Educadores brasileiros realmente comprometidos com a causa da educação pública de qualidade, plural, generosa e democrática não podem assistir passivamente que o país marche para esse abismo do atraso intelectual. Eis por quê:

Primeiro erro

O primeiro grande equívoco do projeto é que ele parte de uma premissa perversa que cria antagonismos inexistentes: escola versus família, escola versus igreja, professores versus pais e alunos, moral familiar versus ensino escolar, valores religiosos versus educação científica.

Essa premissa estimula tais dicotomias no ambiente escolar, quando, na realidade, toda experiência bem-sucedida no campo da educação básica depende de um pressuposto fundamental: a união fraterna de esforços e envolvimento de todos esses atores que fazem parte da comunidade escolar, em comunhão construtiva, visando a um só objetivo em comum: a melhoria da aprendizagem dos alunos.

Segundo erro

O projeto também é um equívoco porque, embora atravessado por uma ideologia própria, propõe-se “combater a doutrinação ideológica em sala de aula”. É um equívoco porque, a pretexto de acabar com a alegada “doutrinação esquerdista, comunista, marxista etc.”, implanta uma ideologia própria, distópica, que em tudo enxerga “esquerdismo, comunismo, marxismo cultural etc.”.

É um equívoco porque é um projeto ideologicamente enviesado que, a pretexto de limpar as nossas salas de aula e qualquer traço de ideologia, está fazendo com que o debate sobre a educação no Brasil se torne, gradual e paradoxalmente, um debate crivado por ideologias.

E aí perdemos tempo demais discutindo abstrações e combatendo moinhos de vento em vez de focar no que realmente importa (ou deveria importar) a todos os envolvidos no debate sobre educação. O que nos leva ao próximo item.

Terceiro e pior erro

O Escola sem Partido é um erro porque parte de um diagnóstico profundamente distorcido sobre as verdadeiras causas das mazelas educacionais brasileiras.

Trata-se de um diagnóstico produzido não com base em estudos, estatísticas e dados confiáveis sobre a educação no país, mas com base em doses delirantes de paranoia olavista (ou doses olavistas de delírio paranoico, você escolhe).

Por favor, alguém aí pode apresentar qual pesquisa séria, feita com método e rigor científicos, embasa a conclusão de que a educação pública brasileira é ruim porque “os professores estão preocupados em formar militantes esquerdistas, em vez de ensinar Matemática e Português”?

Que a educação brasileira é ruim, é ponto pacífico. Da mesma forma, é consenso que os alunos brasileiros apresentam desempenho médio muito abaixo dos níveis minimamente satisfatórios. Os índices internacionais de desempenho estão aí para prová-lo.

O diagnóstico do problema, enfim, está claro para todos os lados desta discussão. O problema todo está no diagnóstico da causa da doença e no tratamento prescrito. Há um abismo entre o mundo real, aquele do dia a dia das unidades escolares do país onde a educação de fato é ruim, e o delírio olavo-bolsonarista (encampado pelo ministro da Educação) sobre por que essa educação é ruim.

A educação brasileira não vai mal porque os professores se desviam de seus deveres docentes (ensinar e educar) e se comportam como doutrinadores e agentes do “marxismo cultural”. Não. Ela vai mal porque, em primeiro lugar, esse professor agora tratado como ameaça e inimigo a ser vigiado, punido e combatido, é extremamente desvalorizado e desestimulado na sua prática docente.

A educação brasileira é ruim porque esse professor, em geral, é muito pouco qualificado, pois não recebe formação continuada.

A educação brasileira é ruim porque há problemas sérios de currículo e grade de disciplinas, que precisam ser revistos de modo a torná-los mais atuais, mais atraentes para o aluno e mais condizentes com a realidade em que se insere esse jovem já nascido no século 21.

A educação brasileira é ruim porque boa parte das unidades escolares oferece aos alunos uma infraestrutura precária, muito pouco convidativa para os estudos e para a permanência dos educandos na escola (muitas delas nem sequer possuem biblioteca, acesso a internet, equipamentos para a prática esportiva e atividades culturais; muitas estão caindo aos pedaços).

A educação brasileira é ruim porque, em consequência dessa somatória de fatores, o índice de evasão escolar é enorme, assim como o de reprovação.

Perguntem ao diretor ou diretora de uma só dessas escolas se o grande problema que enfrenta diariamente é a transformação do espaço escolar em terreno para a disseminação do “marxismo”. Aliás, perguntem-lhe se ele (a) e os seus colegas estão promovendo essa ideologia em sala de aula enquanto se revezam nos turnos e penam para transmitir algum mínimo conteúdo a esse aluno desprovido do menor estímulo para aprender.

Menos viagem não faria mal.

Soluções reais para problemas reais

No mundo real – o de pessoas de carne e osso, o do concreto do pátio esburacado, o do teto cheio de goteiras, o da sala de aula sem ar-condicionado, o do contracheque desestimulante –, o mau desempenho dos alunos está muito mais ligado a questões outras, muito mais objetivas e estruturais, as quais nada têm a ver com as teses e os escritos de Marx, Gramisci e outros pensadores marxistas.

Melhorar o nível da educação brasileira passa, antes de tudo, por atacar esses problemas reais: investir em educação em tempo integral, na qualificação do currículo, na infraestrutura das escolas, na formação continuada dos professores e na sua valorização salarial.

Em países muito mais desenvolvidos, as melhores mentes saem das universidades querendo trabalhar como professores para compartilhar seu conhecimento. E sentem orgulho disso. No Brasil, as mentes mais brilhantes fogem do magistério como marxistas fogem da cruz (perdoem a piada) e buscam qualquer outra carreira mais rentável. Nem sequer lhes ocorre voltar à escola para ensinar.

Escola é igual a professor(a). Ponto. Melhorar a educação do país passa, antes de tudo, por valorizar e dar dignidade a esse valoroso profissional que, contra tudo e contra todos, ainda dedica a sua vida à educação básica no Brasil. Não há solução possível para a educação brasileira que não passe pelos professores. Eles são a esperança de solução, não a causa do problema.

O ministro (ou 4º erro)

Por tudo isso, chega a ser estarrecedor que, neste momento tão crucial para o futuro do país, neste momento em que precisamos enfim dar o salto de qualidade educacional (para pararmos de perder o bonde da história enquanto outros países já pegaram o trem-bala), fiquemos a perder tanto tempo com perfumaria, com paranoias inócuas e desconstrutivas e com prioridades totalmente distorcidas e desfocadas.

E é por isso que estarrece ainda mais que o próprio ministro da Educação, em pessoa, prefira se comportar como um ministro da Propaganda em prol do Escola sem Partido, alimentando essa visão que trata o professor como inimigo em vez de enxergá-lo como solução, incentivando esse processo de caça às bruxas, perseguição e demonização dos docentes.

Que uma professora doidivanas lá de Santa Catarina queira conclamar os alunos do país a filmar os professores em sala de aula de modo a intimidá-los já era fato grave, mas de alcance limitado, de menor potencial ofensivo. Agora, quando o próprio ministro da Educação, desde a posse, só faz louvar o presidente e seu guru ideológico, agindo como garoto-propaganda do Escola sem Partido, aí a sirene do pátio precisa tocar no mais alto volume.

É preciso lutar por uma educação que acolha, não que afaste, aparte, amedronte; é preciso pugnar por uma escola baseada em pontes, não em muros; pela construção de um ambiente escolar que não seja dominado por um clima de medo, desconfiança e terror entre alunos, pais e professores, mas por um clima de fraternidade, pluralidade, diversidade e respeito mútuo; uma escola em que as diferenças sejam aceitas, acolhidas e respeitadas, não enterradas debaixo de um muro de silêncio, perseguição e intolerância.

Ninguém quer uma escola com partido, nem para um lado nem para o outro. Mas a lugar algum nos levará esse conjunto de errores compartidos (erros compartilhados, em espanhol).

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