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Vitor Vogas

Escola sem partido, a menos que seja do governo

A leitura do slogan eleitoral de Bolsonaro para os alunos fere o princípio da impessoalidade e a laicidade do Estado. Trata-se de descarada "apropriação" do espaço escolar para fins de propaganda político-partidária (por conseguinte, ideológica).

Publicado em 28 de Fevereiro de 2019 às 01:31

Públicado em 

28 fev 2019 às 01:31
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Como cantaria Shakira, a carta enviada pelo ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, a diretores de escolas do país inteiro, é nada menos que “loca, loca, loca”. Louca e irresponsável, acrescentamos à letra.
O ministro demonstra desconhecer ou, o que é pior, ignorar deliberadamente preceitos básicos da Constituição Federal e do Estatuto da Criança e do Adolescente (Ecriad) – algo inaceitável para alguém no cargo que ele ocupa.
A filmagem de alunos e o envio dos vídeos para o governo, sem autorização dos pais, ferem o Ecriad. Já a leitura do slogan eleitoral de Bolsonaro para os alunos fere o princípio da impessoalidade e a laicidade do Estado. Trata-se de descarada “apropriação” do espaço escolar para fins de propaganda político-partidária (por conseguinte, ideológica).
É terrível contrassenso para um governo que está o tempo todo a denunciar supostos abusos praticados por professores, que se aproveitariam da “audiência cativa” dos alunos para promover doutrinação ideológica em sala de aula, isto é, para incutir-lhes suas próprias convicções morais, políticas e religiosas.
Ora, no caso concreto, a “sugestão” do ministro significaria o próprio governo a praticar exatamente o mesmo abuso de que acusa docentes, porém em larga escala e como política de Estado: aproveitar-se da audiência cativa (e massiva) de estudantes do país inteiro, perfilados diante da bandeira, para realizar a tão falada “doutrinação ideológica”, mas com “viés ideológico contrário” (pró-governo), transformando um momento de civismo em um ato de propaganda política em louvor ao presidente da República.
Na mesma linha, o ministro não especificou o objetivo das filmagens e do envio do material para o governo, mas, na segunda versão da carta, o MEC tratou de esclarecer: os vídeos serão selecionados “para eventual uso institucional”. Ou seja, para fins de propaganda.
Notem que o viés doutrinário-ideológico contido no texto da carta e no conjunto das “sugestões” de Rodríguez dispensam sutileza. No açodamento do ministro, a propaganda é explícita. Afoito em “mostrar serviço”, o professor parece muito mais preocupado em servir como garoto-propaganda da “nova ordem” (como diria Damares), ou dos “novos tempos” (como ele próprio escreveu na missiva), do que em formular e propor um plano nacional coerente, concreto, objetivo e realista para desatar os verdadeiros nós que travam o desenvolvimento da nossa educação. Isso até agora não se viu. Só entrevistas, discursos e falas desastradas, além de pedidos de desculpas em série.
Para ilustrar o absurdo da situação, imaginem se fosse o contrário. Se, digamos, Lula estivesse no poder e o ministro da Educação da ocasião (Tarso Genro, Mercadante ou Haddad) enviasse uma circular aos diretores de escolas de todo o país “orientando-os” para que, antes da execução do Hino Nacional, lessem aos alunos uma carta encerrada com o slogan “PT, trabalhadores no poder”, “Brasil: brilha uma estrela” ou “É Lula de novo com a força do povo”. Realizaram? O que Rodríguez pensaria da sugestão? Mais uma vez, fica claro: escola sem partido, a menos que seja o meu partido. Aí, “tá tudo certo”...
Não há mal algum, pelo contrário, em incentivar estudantes a cantar o Hino Nacional e a valorizar os símbolos pátrios. Até aí tudo normal, tudo bacana. Quanto ao resto das “orientações” do ministro, soam como uma canção bem diferente: aquela da mais famosa cantante da sua terra natal, a qual dá título a esta coluna.
CONSTATAÇÃO
Desde o discurso de posse de Vélez Rodríguez, o MEC parece ter virado o Ministério da Propaganda.
PREVISÃO
Daqui a pouco o ministro vai sugerir que os diretores pendurem um retrato de Bolsonaro nas paredes das salas de aula, ao lado do cartaz delimitando o que o professor pode e o que não pode abordar (defendido pelo Escola sem Partido).
CABE TUDO, VALE TUDO
Imaginem se, na mesma coluna, resolvo escrever sobre irregularidades nos contratos de guincho e guarda/depósito de veículos; sobre contratação e operação de radares de velocidade em vias públicas; sobre procedimentos de licenciamento ambiental; sobre a existência de “ardil criminoso” e deficiência na prestação de serviços de telefonia e energia elétrica; sobre poluição do meio ambiente; e sobre contratos de terceirização de lixo e sonegação fiscal em detrimento do Estado. Seria uma coluna? Não. Seria meia-dúzia.
CPI DO FIM DO MUNDO
Mas esse é, precisamente, o escopo da “CPI do Fim do Mundo”, como foi apelidada a CPI proposta por Enivaldo dos Anjos (PSD) e criada ontem na Assembleia. A propósito, qual é o fato determinado para criação da comissão?
ANISTIA PARA OS DOIS LADOS
De Capitão Assumção para as tropas: “Com a anistia, passa-se a borracha tanto pra um lado como pro outro. O policial que se sentiu ofendido por algum administrador não poderá fazer nada contra ele”. Gente, o que é que o “ofendido” poderia fazer contra o administrador?!?

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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