O primeiro ano do governador Renato Casagrande (PSB) no comando do Espírito Santo, do ponto de vista da economia capixaba, não foi de grande entusiasmo, mas também o Estado não amargou problemas fiscais como muitos outros entes do país, que aos poucos tenta se reerguer da pior crise da sua história.
A economia local, como cheguei a abordar na coluna da semana passada, se mostrou estável ao longo do ano de 2019. Não vivemos uma montanha-russa, mas também não dá para dizer que passamos ilesos a altos e baixos.
Tivemos de tragédia de Brumadinho, em Minas Gerais, que trouxe reflexos negativos para a produção industrial do Espírito Santo, a acordo do Parque das Baleias, que garantiu recursos bilionários vindos do setor de petróleo e gás e que serão importantes para investimentos no Estado. Fora o fato de termos nos consolidado como uma referência Brasil afora no quesito responsabilidade fiscal.
O Espírito Santo foi o único ente da federação a conquistar a nota A do Tesouro Nacional, em 2019, assim como é o único a colher esse feito nos últimos oito anos.
Aliás, a necessidade de preservar o equilíbrio das contas públicas virou praticamente um mantra na administração de Casagrande, que repetiu incontáveis vezes esse compromisso em seus discursos, pronunciamentos e entrevistas ao longo do ano que se encerrou. Mas além da preocupação com as finanças, o que mais marcou a gestão do socialista, sob a ótica econômica, nos 365 dias do seu segundo mandato como chefe do Executivo capixaba?
Bom, não faltaram episódios, que foram de polêmicos e desgastantes a otimistas e inovadores. Logo nos primeiros dias de governo, a escolha de Renato Casagrande para o Banestes criou uma crise, já que no dia 29 de janeiro o então presidente da instituição bancária Vasco Cunha Gonçalves foi preso pela Polícia Federal na operação Circus Maximus, que apurava pagamento de propina a ex-integrantes do Banco de Brasília (BRB), que já havia sido presidido por Vasco.
As dificuldades com a formação da equipe também apareceram na busca por um secretário de Desenvolvimento. Em dezembro de 2018, Casagrande optou pelo engenheiro Heber Resende. Mas o profissional, que atuou por anos na Petrobras, não se adaptou tão bem à função e, sete meses depois de assumir o cargo, o governador o transferiu para a presidência da recém-criada ES Gás.
O desafio foi encontrar um novo nome para a pasta. Foram 29 dias sem um secretário efetivo. Somente em 21 de agosto é que Casagrande anunciou o advogado e ex-secretário de Desenvolvimento de Anchieta, Marcos Kneip. Antes dele, várias tentativas frustradas, como com o convite feito ao empresário Rogério Salume, da Wine, que recusou a proposta.
Em 2019, Casagrande também precisou lidar com temas impopulares como a reforma da Previdência. Como o projeto aprovado no Congresso não contemplou Estados e municípios, coube ao governador capitanear essa pauta. Na reta final do ano, o socialista conseguiu aprovar todos os projetos que propôs para mudar as regras de aposentadoria dos servidores estaduais.
O mérito do chefe do Palácio Anchieta foi ter tomado a iniciativa e não ficar esperando pela chamada PEC Paralela, mas o texto da reforma foi protocolar. Seguiu o que já havia sido aprovado no âmbito nacional.
Para evitar o desgaste político, Casagrande ousou pouco no projeto. A economia nos próximos 10 anos será de aproximadamente R$ 3 bilhões, ou seja, cerca de R$ 300 milhões por ano, um volume pequeno perto do rombo previdenciário de mais de R$ 2,5 bilhões anuais.
Na lista de projetos enviados pelo Executivo à Assembleia Legislativa, outros três foram mais inovadores, como os que criaram os fundos Soberano e da Infraestrutura, e o que permitiu a utilização de créditos de ICMS, por empresas exportadoras, em investimentos em terras capixabas.
No caso do Fundo Soberano, o Espírito Santo foi o primeiro Estado a criar um mecanismo com esse perfil, que prevê que o dinheiro do petróleo seja aplicado pensando no futuro das próximas gerações. A proposta é excelente, mas para ser exitosa é essencial que várias brechas que o texto original deixava sejam extintas durante a regulamentação do fundo, que deve ser concluída nos primeiros meses de 2020.
O ano de 2019 também testou as habilidades de Casagrande de fazer o meio de campo entre o segmento empresarial e político. Por várias ocasiões ao longo do ano passado, deputados estaduais foram bastante agressivos (verbalmente) com empresas e/ou representantes do setor produtivo. Conforme relatei, em outubro neste espaço, o discurso radical vindo de alguns parlamentares capixabas era visto com receio por investidores.
Em eventos, como o que Casagrande apresentou projeto de redução e extinção de multas por descumprimento de obrigações acessórias, o governador precisou afagar as duas partes, ressaltar o papel e a importância das instituições e fez questão de dizer que o Estado tinha um ambiente saudável para os investimentos. O incêndio foi contornado.
O saldo geral de 2019 na gestão de Casagrande é positivo, mas do ponto de vista prático para a economia e para a vida das pessoas, poucas mudanças foram sentidas.
É natural que o primeiro ano de um governo seja para tomar pé da situação e engatilhar projetos, ainda mais quando esse primeiro ano é de economia ainda fragilizada na esfera nacional. Agora, em 2020, isso será diferente. A sociedade capixaba vai esperar e cobrar mais do governo Casagrande. Ações que ajudem a retomada do emprego, a melhora da infraestrutura e a atração de negócios serão essenciais. O otimismo já voltou a existir entre a população, a entrega dos resultados é o que fará a diferença no novo ano.