Publicado em 24 de fevereiro de 2026 às 20:09
A chuva começou a cair no início da noite de segunda-feira (23/2) na Zona da Mata de Minas Gerais. >
Em poucas horas, a água já invadia casas e comércios, arrastava carros e provocava mortes em cidades da região.>
Em Juiz de Fora, o volume de chuva chegou a cerca de 80% da média esperada para todo o mês em apenas sete horas. >
Já em Ubá, choveu cerca de 170 mm em aproximadamente três horas e meia. O rio que corta a cidade atingiu 7,82 metros e transbordou, provocando inundações em diversos bairros. >
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Ao menos 28 pessoas morreram nas duas cidades e mais de 40 estão desaparecidas, segundo o Corpo de Bombeiros. >
Morador da região da Beira Rio, uma das avenidas mais atingidas em Ubá, o gerente de e-commerce Lucas Gandra recebeu o primeiro alerta de enchente pouco depois da meia-noite. >
Um amigo ligou para avisar que a água estava prestes a transbordar do rio Ubá. Minutos depois, o cenário já era de destruição.>
"Às 00h07 a água já estava transbordando e às 00h20 já estava fazendo um estrago enorme. Subiu muito rápido", relata.>
Gandra conta que a partir daí testemunhou cenas de angústia.>
"Vi pessoas que estavam presas dentro de casa pedindo por socorro e gente não tinha nada o que fazer. Teve uma casa em que eu sinceramente achei que ia ver as pessoas morrendo afogadas.">
Segundi ele, a cidade já tinha passado por outras enchentes, principalmente entre 2019 e 2020, mas nada comparado ao que aconteceu nas últimas 24 horas. >
"E é uma enchente que não se limitou a perdas materiais. Teve gente que morreu saindo para ajudar. É rezar para Deus dar força para a gente e seguir em frente. É desesperador.">
A dentista Carolina Magalhães, que também mora em Ubá, conta que foi acordada durante a madrugada por uma vizinha, avisando que a água estava subindo muito rápido e que iria entrar na garagem do prédio. >
Ela e o marido desceram para tirar o carro e estacionar um ponto mais alto do bairro. Segundo Carolina, em menos de cinco minutos a água já estava entrando no prédio e chegando ao primeiro andar. >
"A sensação na hora era que ia acontecer alguma coisa grave com a gente. Pensei até em pegar meus documentos e ir para o último andar. Foi desesperador. Graças a Deus minhas filhas não estavam em casa", contou.>
Assustada, ela passou a registrar pelo celular tudo que via sendo levado pela enchente. >
"Primeiro passou lixo, depois veio freezer, cadeira, carros, motos, muitos botijões de gás. Até que passou uma van e um caminhão carregados pela água. Uma cena de horror", lembra. >
"E no meio de tudo isso, a gente ainda recebia mensagens das pessoas que estavam desaparecidas, que tinham perdido tudo. É muito triste passar por tudo isso.">
Em Juiz de Fora, a gerente de vendas Isabela Lourenço ainda tenta dimensionar os estragos deixados pela chuva. >
"A cidade já teve alagamentos antes, mas em bairros específicos. E dessa vez o impacto foi em toda a cidade. Eu conheço diversas pessoas que estão desalojadas, tenho tios e primos que a Defesa Civil pediu para sair de casa porque estavam em risco. Foi a primeira vez que vivi isso vendo pessoas tão próximas nessa situação", destacou.>
Assim como em Ubá, a prefeitura de Juiz de Fora decretou estado de calamidade pública. Ao menos 20 imóveis foram soterrados na cidade, principalmente na região sudeste, e cerca de 440 pessoas ficaram desabrigadas, acolhidas provisoriamente em três escolas municipais.>
"É uma situação muito triste. As três avenidas principais de Juiz de Fora estão alagadas, vias fechadas, túneis. Uma situação caótica", destacou. >
Com a diminuição do nível da água, moradores começaram a limpar casas nesta terça-feira (24/2) e a contabilizar os prejuízos deixados pela chuva.>
"Hoje, quando sai de casa, vi um cenário de guerra, devastador", descreve Lucas Gandra, que mora em Ubá.>
No local onde trabalha, a enchente quebrou paredes, estourou vidraças e inundou toda a loja, destruindo boa parte do estoque. Por causa disso, eles tiveram que pausar as vendas e não tem perspectiva de retomar. >
"Eu trabalho em uma loja física com operação e-commerce. Não tem como trabalhar, pensar em faturar, em enviar pedido, porque a gente não tem infraestrutura. A cidade não comporta uma infraestrutura para coleta, despacho de pedidos. Uma sensação terrível de impotência", afirma. >
O sentimento é compartilhado pelos moradores. >
A médica Marcela Barbosa, que estava dando plantão em uma cidade vizinha quando as chuvas atingiram Ubá, conta que mal reconheceu as ruas ao retornar esta manhã. >
"Eu não consigo reconhecer Ubá. A cidade está completamente interditada. Eu estou tentando entender o que aconteceu. A gente olha para os lados e só vê pessoas na rua com as roupas sujas, saindo para limpar e ajudar", afirma.>
"Está tudo cheio de lama, uma destruição total.">
Apesar dos danos, Gandra diz que se apoia na segurança da família e na solidariedade dos moradores.>
"Agora é tentar olhar para um lado positivo. A nível pessoal, minha família está bem, mas materialmente vai ser um baque. E não é só a gente, os vizinhos estão na mesma situação, acordados desde cedo para limpar, arrumar a casa e seguir em frente assim que der.">
Uma combinação de três fenômenos climáticos resultou na tempestade histórica.>
Uma frente fria, impulsionada por um cavado e a formação de uma supercélula estão por trás da tragédia climática em Minas Gerais, explica Maria Clara Sassaki, porta-voz da Tempo OK Metereologia.>
"Nós tivemos a passagem de uma frente fria pelo sudeste do Brasil, que acabou trazendo bastante instabilidade desde o litoral do Estado de São Paulo, passando pelo Rio de Janeiro e também com acumulado significativo, ontem e hoje, na região da Zona da Mata Mineira", diz Sassaki.>
A frente fria que afetou a região provocou a formação de uma supercélula, uma nuvem gigante com uma corrente de ar ascendente e rotativa, conhecida como mesociclone.>
Segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), das quatro classificações de tempestade (supercélula, multicélula, unicélula e linha de instabilidade), as supercélulas são as menos comuns, e também as mais severas.>
Ainda conforme a agência, as supercélulas podem produzir ventos fortes, chuva intensa com granizo, tornados mortais, enchentes e descargas elétricas.>
Já o cavado foi um fenômeno que ajudou na formação dessa "super nuvem", diz a especialista.>
Trata-se de uma região alongada de baixa pressão, geralmente em médios níveis da atmosfera, que favorece a subida do ar e a formação de nuvens e tempestades.>
É como se fosse uma área onde o ar está "mais leve" e em altitudes elevadas, o que cria um efeito de sucção, puxando a umidade do solo para o alto.>
"Imagina que o cavado é um vento que vai jogar ar úmido da superfície para a atmosfera. Esse movimento vai levando umidade para a nuvem, alimentando essa nuvem e vai trazendo mais condições para que essa nuvem cresça na atmosfera", diz Sassaki.>
*Com reportagem de Thais Carrança>
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