Publicado em 24 de fevereiro de 2026 às 16:09
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terminou nesta terça-feira (24/2) sua viagem à Coreia do Sul e à Índia. >
As visitas começaram na semana passada, mas foram atravessadas por um acontecimento a milhares de quilômetros de Seul ou Nova Déli: a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos que derrubou o chamado "tarifaço" imposto pelo presidente americano Donald Trump às exportações de diversos países, inclusive o Brasil.>
A derrubada do tarifaço e a reação de Trump, que anunciou novas tarifas de 15% nos últimos dias, vêm sendo tratadas com cautela pelo governo brasileiro. Membros do primeiro e segundo escalão evitaram reações efusivas à decisão que, segundo estudos, teve o Brasil como um dos países mais beneficiados.>
"Tivemos a decisão da Justiça americana contrariando aquilo que era a tese do presidente Trump. Obviamente que eu não posso julgar a decisão de uma Suprema Corte de um país. Não julgo as do meu (país), muito menos de outro país. Mas o que quero conversar com Trump é a relação entre Brasil e Estados Unidos", disse Lula durante uma entrevista coletiva na Índia, no domingo (20/2).>
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Mas a queda, ainda que parcial, do "tarifaço" de Trump aconteceu em um momento que sintetizou parte do que tem sido a reação brasileira à política comercial de Trump.>
Lula e membros do seu primeiro escalão estavam na Ásia dando seguimento à estratégia de expandir mercados para diminuir o impacto da queda das exportações brasileiras aos Estados Unidos.>
Uma estratégia que, segundo dados oficiais, parece ter dado algum resultado. >
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), apesar de as exportações para os Estados Unidos terem caído 6,6% entre 2024 e 2025, as exportações totais do Brasil aumentaram 3%.>
A Índia, primeira parada da viagem de Lula, aumentou em 30% as exportações de produtos brasileiros no período. Um crescimento puxado pelo aumento expressivo da exportação de petróleo.>
Quase um ano depois das primeiras tarifas a produtos brasileiros terem sido impostas e em meio a esse cenário internacional incerto, especialistas já começam a apontar os principais impactos que o tarifaço americano teve sobre a economia brasileira.>
A BBC News Brasil analisou estudos divulgados pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil (AMCHAM), dados do governo federal e conversou com especialistas sobre o assunto.>
Os dados apontam que, nos últimos meses, o tarifaço de Trump aprofundou ainda mais o déficit comercial entre Brasil e Estados Unidos, aumentando a diferença entre o que o Brasil exporta e o que ele importa dos americanos e colocando em riscos empresas e empregos brasileiros.>
Por outro lado, o tarifaço fez com que o governo brasileiro acelerasse os trâmites de acordos comerciais, tentasse abrir novos mercados e, junto com as empresas privadas, aumentasse as exportações para outros países.>
Um estudo divulgado pela AMCHAM em dezembro apontou que, em 2025, sob o tarifaço de Trump, o déficit do Brasil na balança comercial com os Estados Unidos se ampliou.>
Em 2024, o Brasil teve um saldo negativo entre exportações e importações de US$ 300 milhões. Em 2025, com os produtos brasileiros mais caros por conta do tarifaço, esse saldo negativo aumentou 2.500%, chegando a US$ 7,5 bilhões.>
Esse aumento se deu porque as exportações do Brasil para os EUA caíram 6,6%, saindo de US$ 40,4 bilhões em 2024 para US$ 37,7 bilhões, em 2025.>
Por outro lado, as importações do Brasil de produtos norte-americanos aumentaram 11,3%, saindo de US$ 40,7 bilhões para US$ 45,2 bilhões.>
Esse foi o pior resultado para o Brasil desde 2022, quando o déficit foi de US$ 13,9 bilhões.>
Entre os produtos que tiveram maior redução no volume exportado estão: produtos semi-acabados de ferro ou aço (-5,1%), equipamentos de engenharia civil (-5,8%), e celulose (-21,1%).>
De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em meio à duração do tarifaço, a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras caiu 1,3 ponto percentual.>
Em 2024, o país comprou 11,9% de tudo o que o Brasil exportou. Em 2025, esse número caiu para 10,6%. Mesmo assim, os Estados Unidos ainda são o segundo maior importador de produtos brasileiros, atrás da China e na frente da Argentina.>
O superintendente de Relações Internacionais da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Frederico Lamego, diz que o tarifaço foi especialmente duro com alguns setores da economia brasileira.>
"O tarifaço trouxe um impacto grave para alguns setores. O setor de cerâmica, por exemplo, nos disse que se a situação continuasse como estava, haveria o fechamento de fábricas ao longo do segundo semestre porque o custo estava muito alto. Houve várias empresas que tiveram que abrir fábricas nos Estados Unidos. O mesmo aconteceu com o setor de máquinas e equipamentos", diz Lamego à BBC News Brasil.>
Por outro lado, especialistas e diplomatas ouvidos pela BBC News Brasil nas últimas semanas apontam que um dos efeitos positivos do tarifaço para o país foi a tentativa de empresários e do governo de abrir novos mercados diante das incertezas em relação aos Estados Unidos.>
"As exportações do Brasil para os Estados Unidos caíram, mas em termos globais, elas aumentaram. Houve muito mais exportação para a China, para outros países da Ásia e países como a Argentina", diz o ex-secretário de Comércio Exterior do governo brasileiro e consultor Welber Barral.>
Os dados do governo corroboram a afirmação de Barral.>
Entre 2024 e 2025, as exportações brasileiras saíram de US$ 337 bilhões para US$ 348 bilhões, um crescimento de aproximadamente 3%.>
No período, o principal comprador de produtos brasileiros, a China, aumentou sua fatia das exportações do país de 28% para 28,7%, comprando um total de US$ 99,9 bilhões.>
O Brasil também viu um aumento expressivo das exportações para outros países como a Argentina (31,4%), Índia (30%), Reino Unido (30,5%) e Paquistão (132%).>
"Os exportadores viram que tinham que procurar novos mercados", conclui Barral.>
Parte desse aumento das exportações se deveu à ampliação das vendas de petróleo e derivados, mas também ao aumento das vendas externas de produtos do agronegócio e commodities minerais.>
A Índia, por exemplo, aumentou em 59% suas importações de petróleo brasileiro, mas também aumentou em 31% suas importações de óleo de soja e, em 124% as de algodão bruto.>
Um outro produto que praticamente não constava da pauta de exportações brasileiras à Índia em 2024 era o minério de ferro. Naquele ano, o Brasil exportou apenas US$ 240 do produto, contra US$ 441 milhões no ano seguinte.>
Segundo o governo federal, desde 2023, o Brasil abriu 500 novos mercados para produtos brasileiros em todo o mundo.>
Essa conta é feita por produto e por país. Cada novo produto autorizado em um determinado país conta como um novo mercado.>
"Foi um movimento positivo em meio aos problemas do tarifaço. Vimos o Brasil adotar uma postura pragmática e ir atrás de novos acordos comerciais", diz Lamego.>
Nos últimos meses, o Brasil, junto com os demais países do Mercosul (Uruguai, Paraguai e Argentina) finalizaram a etapa de assinatura do acordo comercial com a União Europeia que vinha sendo negociado há 26 anos.>
No final de 2025, o Mercosul também ficou um acordo de livre-comércio com a EFTA, grupo de países composto por Noruega, Suíça, Liechtenstein e Islândia.>
Nos últimos meses, o governo brasileiro também reativou negociações como o Canadá para tentar um acordo de livre comércio nos moldes do assinado com a União Europeia. Nesta semana, durante a passagem de Lula pela Coreia do Sul, o governo do país asiático também mencionou a possibilidade de acelerar negociações para um acordo comercial do Mercosul.>
Um diplomata ouvido pela BBC News Brasil há uma semana afirmou que a tentativa de diversificar parceiros não foi disparada pelo tarifaço de Trump, mas que ela ganhou mais tração a partir das medidas adotadas pelo presidente norte-americano.>
A derrubada de parte do tarifaço de Donald Trump ainda é avaliada pela equipe mais próxima do presidente Lula, mas deverá, como disse um diplomata brasileiro ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado, ajudar a "limpar" a pauta da reunião que deverá acontecer entre Lula e Trump em Washington.>
Nesta terça-feira, Lula disse que a reunião deverá acontecer no dia 16 de março, embora a data ainda não tenha sido confirmada oficialmente.>
Se ocorrer, este deverá ser o terceiro encontro pessoal entre os dois líderes. A relação entre Trump e Lula começou turbulenta e chegou ao pior ponto em julho de 2025 quando o norte-americano impôs tarifas adicionais de 50% sobre exportações brasileiras como resposta ao processo criminal que levou à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado. >
Lula, por sua vez, disse à época que o Brasil não cederia à pressão dos Estados Unidos. A relação começou a distensionar em meados de setembro, quando os dois se encontraram, brevemente, durante a passagem de Lula pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Desde então, os dois tiveram um novo encontro na Malásia e passaram a trocar telefonemas com alguma regularidade. >
Neste período, o governo norte-americano retirou sanções que haviam sido impostas ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, e derrubou tarifas sobre alguns dos produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos. >
Segundo esse diplomata, um dos objetivos da reunião entre Lula e Trump era "resolver" a situação dos produtos brasileiros que ainda estavam afetados pelas tarifas impostas por Trump.>
Apesar de o governo americano ter retirado, gradualmente, as tarifas sobre alguns produtos brasileiros, principalmente produtos do agronegócio, o setor de maquinários ainda sofria com a imposição das sobretaxas.>
Com a pauta "limpa" ou menos tensionada por conta do tarifaço, o governo Lula deverá focar sua reunião com Trump em pautas que foram alçadas à condição de prioridade da relação com os Estados Unidos: o combate ao crime organizado e a cooperação em projetos de exploração e beneficiamento de terras raras e outros minerais críticos.>
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