Publicado em 17 de janeiro de 2026 às 17:11
Assim que Meri-Tuuli Auer viu o assunto do e-mail na pasta de spam, ela soube que aquele não era um spam comum. Ele continha seu nome completo e número de seguro social – o equivalente na Finlândia ao CPF brasileiro.>
O e-mail estava cheio de detalhes sobre ela que ninguém mais deveria saber.>
O remetente sabia que ela estava fazendo psicoterapia por meio de uma empresa chamada Vastaamo. Disseram que haviam invadido o banco de dados de pacientes da Vastaamo e que queriam que Auer pagasse 200 euros (R$ 1.248) em bitcoins em 24 horas, ou o preço subiria para 500 euros em 48 horas.>
Se ela não pagasse, escreveram, "suas informações serão publicadas para todos verem, incluindo seu nome, endereço, número de telefone, número do seguro social e registro detalhado de paciente contendo transcrições de suas conversas com os terapeutas da Vastaamo".>
>
"Foi aí que o medo começou", diz Auer, de 30 anos. "Tirei licença médica do trabalho, me tranquei em casa. Não queria sair. Não queria que as pessoas me vissem.">
Ela foi uma dos 33 mil pacientes da Vastaamo que tiveram seus registros terapêuticos roubados em outubro de 2020 por um hacker anônimo.>
Elas haviam compartilhado seus pensamentos mais íntimos com seus terapeutas, incluindo detalhes sobre tentativas de suicídio, casos extraconjugais e abuso sexual infantil.>
Na Finlândia, um país de 5,6 milhões de habitantes, parecia que todos conheciam alguém que teve seus registros terapêuticos roubados. >
O caso se tornou um escândalo nacional, o maior crime cibernético da história da Finlândia, e a então primeira-ministra Sanna Marin convocou uma reunião de emergência com ministros para discutir uma resposta.>
Mas já era tarde demais para deter o hacker.>
Antes de enviar os e-mails para as pacientes da Vastaamo, o hacker publicou todo o banco de dados com os registros roubados da empresa na dark web, e um número desconhecido de pessoas leu ou baixou uma cópia. Essas anotações circulam desde então.>
Auer havia contado à sua terapeuta coisas que nem mesmo seus familiares mais próximos sabiam — sobre seu consumo excessivo de álcool e um relacionamento secreto que manteve com um homem muito mais velho.>
Agora, seus piores medos haviam se tornado realidade.>
Mas, em vez de destruí-la, o ataque hacker a fez perceber que ela era muito mais resiliente do que jamais imaginara.>
O apartamento de Auer, nos arredores de Helsinque, a capital da Finlândia, parece um lugar alegre.>
Objetos da Barbie enchem suas prateleiras e há um poste de pole dance no centro da sala de estar. Mas não se deixe enganar pelas aparências, diz Auer. Ela tem lutado contra a depressão e a ansiedade por quase toda sua vida.>
"Sou extrovertida, muito confiante e adoro estar perto de pessoas", diz Auer. "Mas tenho a sensação de que todos me acham estúpida e feia, e que minha vida é uma sequência de erros.">
Auer procurou ajuda pela primeira vez em 2015. Ela contou à sua terapeuta da Vastaamo sobre seus problemas de saúde mental, seu consumo de álcool e um relacionamento que teve aos 18 anos com um homem mais velho, que manteve em segredo da família.>
Ela diz que confiava plenamente em sua terapeuta e, com a ajuda dela, fez progressos reais. Ela não fazia ideia do que ela havia escrito em suas anotações das conversas.>
Quando recebeu o e-mail com o pedido de resgate, a notícia do ataque hacker à Vastaamo já havia se espalhado. >
Três dias antes, o chantagista havia começado a divulgar as anotações das sessões de terapia na dark web em lotes de 100 por dia, na expectativa de pressionar a empresa a pagar um resgate muito maior — o equivalente a cerca de 400 mil euros (R$ 2,5 milhões) em bitcoins — que ele vinha exigindo havia semanas.>
Auer diz que se sentiu compelida a vasculhar as anotações vazadas.>
"Eu nunca tinha usado a dark web antes. Mas pensei: 'Preciso ver se meus registros estão lá'.">
Quando descobriu que não estavam, ela fechou o arquivo e não leu os registros de mais ninguém, conta. Mas viu como outras pessoas na dark web zombavam do sofrimento dos pacientes.>
"Uma criança de 10 anos tinha ido à terapia e as pessoas acharam engraçado.">
E alguns dias depois, quando ficou claro que os registros de todos os pacientes da Vastaamo haviam sido publicados, a saúde mental de Auer começou a se deteriorar.>
Sem saber quem era o responsável, ou quem poderia ter lido seus pensamentos mais íntimos, ela ficou apavorada de usar transporte público, sair de casa ou até mesmo abrir a porta para o carteiro.>
Ela duvidava que o hacker fosse ser encontrado.>
Os detetives finlandeses também temiam não encontrar o suspeito, dado o volume de dados que precisavam analisar.>
"Eu nem conseguia imaginar a dimensão disso. Este não é um caso normal", diz Marko Lepponen, o detetive que liderou a investigação para a polícia finlandesa.>
Mas, após dois anos de investigação, em outubro de 2022, eles nomearam seu suspeito: Julius Kivimäki, um cibercriminoso conhecido.>
Em fevereiro de 2023, Kivimäki foi preso na França e transportado de volta à Finlândia para responder às acusações.>
Nenhuma sala de tribunal era grande o suficiente para acomodar os 21 mil ex-pacientes da Vastaamo que se registraram como parte no processo criminal, então exibições foram realizadas em espaços públicos, incluindo cinemas, para que eles pudessem assistir ao julgamento.>
Determinada a ver Kivimäki enfrentar a justiça, Auer compareceu a uma das exibições e ficou impressionada com a aparência comum do criminoso.>
"Ele parece um jovem finlandês comum", diz ela. "Isso me fez pensar que poderia ter sido qualquer um.">
Quando ele foi considerado culpado e sentenciado a seis anos e sete meses de prisão, ela disse que sentiu como se tivesse recebido uma confirmação.>
"Qualquer sentença que ele recebesse jamais compensaria tudo. O sofrimento das vítimas foi reconhecido pelo tribunal – e eu fiquei grata por isso.">
Kivimäki segue negando ser o responsável pelo ataque cibernético.>
Nos meses seguintes ao ocorrido, Auer solicitou uma cópia impressa de seus registros à Vastaamo.>
Suas anotações estão empilhadas em uma pilha grossa sobre a mesa enquanto ela conta o que aconteceu.>
Mesmo que seus registros tenham sido divulgados há mais de cinco anos, os pacientes da Vastaamo continuam sendo vítimas. Alguém chegou a criar um mecanismo de busca que permite aos usuários encontrar registros na dark web apenas digitando o nome de uma pessoa.>
Auer concorda em compartilhar comigo alguns de seus registros de terapia vazados.>
"A paciente é em grande medida raivosa, impulsiva e amargurada", diz ela, lendo algumas das primeiras anotações que sua terapeuta fez sobre as sessões.>
"A paciente relata seu passado de forma confusa. Há algumas dificuldades interpessoais decorrentes de seu temperamento frágil, típico para sua idade.">
Quando leu as anotações pela primeira vez, Auer conta que ficou com o coração partido. "Fiquei magoada com a forma como ela me descreveu. Isso me fez sentir pena da pessoa que eu era.">
Ela afirma que o vazamento de dados abalou a confiança dos pacientes.>
"Há muitas pessoas que eram clientes da Vastaamo, que faziam terapia há anos, mas agora nunca mais vão marcar uma sessão.">
A advogada que representa as vítimas da Vastaamo em um processo civil contra o hacker diz que sabe de pelo menos dois casos em que pessoas tiraram a própria vida depois de descobrirem que seus prontuários de terapia haviam sido roubados.>
Auer decidiu enfrentar seus medos de frente. Ela publicou nas redes sociais sobre o ataque, contando a todos que havia sido uma das vítimas.>
"Foi muito mais fácil para mim saber que todos que me conheciam já sabiam", diz ela. Ela conversou com sua família sobre o conteúdo dos seus registros vazados, incluindo o relacionamento secreto que nunca havia revelado. "As pessoas me apoiaram muito.">
Finalmente, ela decidiu retomar o controle de sua história publicando um livro sobre suas experiências. O título é "Todos Ficam Sabendo", em tradução livre.>
"Eu transformei tudo em uma narrativa. Pelo menos posso contar a minha versão da história – aquela que não está visível nos prontuários dos pacientes.">
Auer aceitou que seus segredos sempre estarão expostos.>
"Para o meu próprio bem-estar, é melhor simplesmente não pensar nisso.">
>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta