Publicado em 16 de janeiro de 2026 às 17:11
Um pequeno espaço sobre o colchão, caminhos estreitos e sinuosos em meio à confusão e precárias pilhas de jornais. Este é apenas um vislumbre dos bastidores de uma pessoa que sofre com transtorno de acumulação.>
Jess (nome fictício) teve uma infância turbulenta que, segundo ela, se manifestou na idade adulta como uma "ansiedade paralisante" ao enfrentar situações difíceis.>
"Sentia que meu entorno estava sempre fora de controle e isso é parte do problema", explica ela. "É uma incapacidade de lidar com as coisas.">
Jess mora no norte de Bristol, no Reino Unido. Ela conta que seus problemas como acumuladora começaram inocentemente, quando ela passou a acumular livros. Era uma tentativa de se tornar mais "autoconfiante", depois de se mudar para a universidade para escapar da sua difícil vida doméstica.>
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Com o passar dos anos, sua coleção atingiu um volume "opressivo" e impossível de confrontar. Todos os quartos do seu apartamento estavam superlotados de caixas de papel, comida, embalagens e roupas.>
Certa vez, seus pais apareceram sem avisar na porta da casa de Jess para uma visita surpresa. Mas ela não conseguiu deixar que eles entrassem.>
"Fiquei completamente apavorada, eu estava muito constrangida", relembra ela. >
"Naquele momento, senti a dor de não conseguir ser quem eu gostaria de ser.">
Jess, agora, está na casa dos 70 anos de idade. Até hoje, quando toca a campainha, ela entra em "modo pânico" e não permite que ninguém entre na sua casa, por vergonha e medo de ser julgada.>
Ela descreve o "terror" de fazer novos amigos e eles esperarem ser convidados para visitar sua casa. E escolhe as palavras cuidadosamente, para evitar expor o "caos" que ela chama de lar.>
"É uma condição extremamente estressante e limitadora", explica Jess. "Tem um impacto imenso sobre todos os aspectos da minha vida.">
"Alguém que vem de fora e não tem conhecimento pode achar que sou preguiçosa, suja ou mesquinha. Mas não é uma escolha de estilo de vida, é um problema de saúde mental.">
A acumulação foi reconhecida como uma condição complexa de saúde mental em 2013.>
Estima-se que 2% a 5% da população do Reino Unido seja afetada pelo transtorno de acumulação, o que representa cerca de 1,2 milhão de pessoas.>
A condição é definida como o impulso de adquirir quantidades de objetos incomumente grandes e a incapacidade de se livrar deles, mesmo quando não têm mais uso prático ou valor financeiro.>
O NHS (serviço público de saúde do Reino Unido) afirma que a acumulação passa a ser um problema sério quando prejudica a qualidade de vida da pessoa, causa estresse significativo e interfere com a vida diária.>
O terapeuta cognitivo-comportamental James Hicks, do Serviço Nacional de Apoio à Ansiedade do Reino Unido (Nosa, na sigla em inglês) em Bristol, afirma que, muitas vezes, o transtorno se origina em uma "intensa conexão emocional" com os objetos.>
"Quando você examina mais profundamente o passado das pessoas, muitas vezes, irá descobrir que eles foram tratados de forma pouco desejável por pessoas importantes nas suas vidas", explica ele.>
"Como você se sentiria se tivesse valor e significado, mas alguém simplesmente o rechaçasse? Seria horrível, não seria?">
"Eles acreditam que são responsáveis pelo bem-estar dos seus pertences e, se os descartarem, estarão prestando um desserviço", prossegue Hicks.>
"Se, toda vez que levasse o lixo para a rua, você se sentisse como se estivesse se desfazendo de um familiar querido, poderia ter alguma ideia de como é sofrer do transtorno de acumulação.">
Horace (nome fictício) também tem transtorno de acumulação.>
Ele conta que sua "sensação de perda" se originou quando seu pai jogou fora sua coleção de discos dos anos 1920 sem consultá-lo, quando era adolescente.>
"Fiquei totalmente arrasado, muito zangado e perturbado", relembra ele. "A questão é que ele estava me impondo sua vontade. Aquilo permaneceu comigo, no meu subconsciente.">
"Não sei se aquilo se tornou um gatilho para guardar as coisas e ter certeza de que ninguém as jogasse fora, mas suspeito que, provavelmente, sim.">
Uma "sede de conhecimento" inata acabou levando Horace a empilhar livros e jornais, com a intenção de recortar trechos interessantes mais tarde.>
Ele chegava a examinar as caixas de material reciclável dos vizinhos, com a ideia de que desperdiçar informações valiosas era intolerável.>
"Eu tinha uma montanha de jornais, quase da minha altura, bloqueando meu hall de entrada e minha escada", ele conta.>
"Eu precisava escalar a pilha para chegar a outro cômodo. Havia sacos e sacos de livros e jornais empilhados que eu havia coletado por 20 anos.">
"É ridículo pensar em como entrei naquela situação, mas aconteceu", relembra ele.>
Horace afirma que reduziu drasticamente sua coleção ao longo do tempo, mas descreveu o ato de se desfazer das suas coisas como um "miniluto". Ele observava os objetos que ele adorava desaparecerem, sabendo que nunca mais iria vê-los de novo.>
Jess e Horace entraram para um grupo de voluntários chamado Making Space, financiado pelo Conselho Municipal de Bristol. A organização ajuda a fornecer apoio prático e emocional para as pessoas que sofrem da condição.>
Voluntários recebem treinamento sobre como trabalhar individualmente com os moradores e devem poder oferecer duas horas do seu tempo por semana.>
A gestora de casos Naomi Morgan descreve como é "imensamente recompensador" se tornar "parte integrante da transformação da vida das pessoas", aumentando sua confiança e seu bem-estar.>
Jess afirma que a experiência individualizada não só a ajudou a abrir espaço, mas a "construir um lar". Agora, ela está ansiosa em busca de "um futuro mais sociável e menos obstruído pela ansiedade".>
Jess, agora, compreende melhor as causas das suas tendências acumuladoras. Mas ela conta que "foi uma longa jornada".>
"É muito difícil para as pessoas com transtorno de acumulação compreender por que fazem o que fazem, por que vivem desta forma", explica ela. "Não faz sentido e é difícil desvendar as origens.">
Horace incentiva as pessoas a terem "gentileza, paciência, respeito e empatia" com pessoas que sofrem da condição, permitindo que elas mantenham o controle.>
"Mesmo se você não conseguir entender, não julgue", ele pede. "Tente apoiá-los incentivando, sem dizer simplesmente 'isso não é forma de se viver'.">
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