Publicado em 20 de janeiro de 2026 às 08:11
"Escrevo romances queer sexualmente explícitos sobre jogadores de hóquei. Você provavelmente sabe disso, mas estou dizendo porque não me sinto confortável para contar isso para todos.">
Rachel Reid — cujo nome verdadeiro é Rachelle Goguen — escreveu estas palavras no seu blog quatro meses atrás. Agora, a adaptação do seu livro "obsceno", como ela descreve, é uma das séries mais comentadas da TV: Rivalidade Ardente (Heated Rivalry, no original, em inglês).>
Seus astros já apareceram no Globo de Ouro, nos principais podcasts e talk shows de fim de noite e em um fluxo aparentemente interminável de edições feitas por fãs nas redes sociais. Com isso, Reid ficou sem ter onde se esconder.>
Mas a autora canadense da província de Nova Escócia conta à BBC que não tem mais "por que ficar envergonhada".>
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"As pessoas falam abertamente que adoram a série", ela conta. "O constrangimento é não gostar dela.">
Sexo não falta em Heated Rivalry. A série acompanha o relacionamento entre dois astros rivais do hóquei sobre o gelo. Ela se baseia no livro Rivalidade Ardente, o segundo da série de romances de Reid intitulada Game Changers.>
Reid publicou seus livros inicialmente de forma anônima na internet, como se fossem fan fiction.>
"Achei que eles fossem inadaptáveis", confessa ela.>
Mas são poucas as diferenças entre o livro e a adaptação para a TV. "Acho que nunca vi uma adaptação tão fiel", segundo a autora.>
Apesar da sua ilustração sincera dos relacionamentos LGBT e sua representação no esporte, houve quem menosprezasse sua história e a rotulasse como "a série do hóquei gay". Mas Reid não se preocupa com isso.>
"Eu me sinto muito bem quanto a isso. Há uma grande comunidade envolvida — todos esses eventos, exibições em grupo, raves — a série tem essa ótima energia entre as pessoas.">
"Se você gosta dela, provavelmente está do lado certo em muitas questões.">
Uma dessas exibições em grupo em Londres gerou silêncio em um bar lotado, onde as pessoas aguardavam o início do primeiro episódio na sua noite de lançamento no Reino Unido, no início do janeiro.>
Um forte "psiu!" soou quando o novato canadense Shane Hollander (um dos protagonistas, agora com forte popularidade) apareceu pela primeira vez na tela. O público composto principalmente por espectadores mais jovens passou a ouvi-lo com atenção.>
Mais tarde, surgiram gritos e aplausos. Perto de Shane, em uma fileira de chuveiros coletivos, estava o confiante Ilya Rozanov, da Rússia. Os dois homens estavam nus, como mostra a câmera com algum detalhamento.>
Mas os espectadores rapidamente destacaram que o sexo era uma forma de ilustrar seu relacionamento conduzido em fogo brando, desenvolvido com encontros secretos e mensagens de texto sigilosas ao longo de oito anos de rivalidade pública no esporte.>
"Vim assistir esperando que fosse algo do tipo de Cinquenta Tons de Cinza", conta Joe Leonard, um dos organizadores do evento Projeto Queer do Oeste de Londres.>
"Você fica um pouco surpreso assistindo aos primeiros episódios", confessa ele. "Mas, no final, você se senta com lenços para enxugar as lágrimas... é uma história muito, muito bonita.">
Outra fã da série, Alana, de 21 anos, destaca que "Algumas pessoas estão focando apenas no aspecto íntimo... mas elas não dizem o mesmo sobre Bridgerton ou outras séries que mostram intimidade entre pessoas hétero. Qual a diferença?">
Em uma sala dividida quase igualmente entre homens e mulheres, chama atenção a popularidade da série entre as mulheres.>
Esta peculiaridade já gerou debates na internet, em plataformas como o Reddit e o TikTok.>
"Não acho novidade que as mulheres se interessem em ficção queer, mesmo mulheres heterossexuais", afirma Bethan Smith, de 26 anos.>
"Acho que, só porque se tornou tão popular, as pessoas se perguntam 'por que as mulheres gostam disso?' Onde será que elas estavam nos últimos tempos?'">
A autora tem uma opinião simples a este respeito: "Obviamente, os livros têm muitas mulheres leitoras porque são elas que leem romances, que leem ficção em geral.">
"Agora, com a série, ganhamos uma legião de fãs muito maior e mais diversificada. E, sim, muitos homens, o que é realmente estimulante.">
Combinar esporte e romance pode parecer incomum para quem não está acostumado com esse tipo de ficção. Mas, para alguns leitores, tudo faz sentido.>
Kayleb, de 23 anos, afirma ter lido diversos "romances no esporte" e que Heated Rivalry foi um deles. "Li alguns romances passados na Fórmula 1", ele conta.>
Kayleb se refere a um subgênero em crescimento, de romances ambientados no mundo esportivo, como no futebol, pugilismo e baseball.>
A agente literária Saskia Leach destaca que esse subgênero "disparou nos últimos quatro a cinco anos".>
"Certamente, é o subgênero de romance inovador dos anos 2020", segundo ela. Por isso, o sucesso de Heated Rivalry não é uma surpresa.>
Aimee Cummings dirige a livraria Love Stories em Cardiff, no Reino Unido. Ela concorda que existe "enorme demanda" para esses livros, "embora sejam um nicho dentro de um nicho".>
"Nosso primeiro pedido de cliente foi pelo romance ambientado no rugby Binding 13: Marcação Cerrada no Amor, da escritora Chloe Walsh [Ed. Bloom Brasil, 2025]. E, desde o primeiro dia, tivemos pessoas pedindo Rivalidade Ardente.">
Mas o hóquei sobre o gelo é mais do que um pano de fundo no mundo de Reid.>
A autora conta que escreveu seus livros "para trabalhar muitos dos meus sentimentos sobre a misoginia desenfreada, a homofobia e a violência" no esporte que ela admira.>
Não há jogadores abertamente gay em atividade na Liga Nacional de Hóquei norte-americana (NHL, na sigla em inglês), segundo a rede de rádio e TV pública canadense CBC. E a série reacendeu a discussão sobre a representatividade no esporte.>
Reid afirma que ninguém da NHL entrou em contato com ela desde a estreia da série nos EUA e no Canadá, no final de novembro, "mas muitas pessoas do mundo do hóquei fizeram contato... pessoas que amo e respeito e é tudo o que importa para mim".>
É claro que a série, criada pela plataforma de streaming canadense Crave, promoveu a venda dos livros de Rachel Reid.>
Nos EUA, Rivalidade Ardente, publicado pela primeira vez em 2019, e vários outros romances da autora chegaram à lista dos livros mais vendidos do jornal The New York Times no início de dezembro.>
Reid anunciou, em meados de janeiro, um novo romance Hollanov — com os personagens Shane Hollander e Ilya Rozanov — chamado Unrivaled ("Imbatíveis", em tradução livre).>
Seus outros títulos chegam pela primeira vez às livrarias do Reino Unido no dia 20 de janeiro. Até então, eles só eram vendidos como e-books no país. Recentemente, eles entraram na lista dos mais vendidos da Amazon.>
A maior cadeia de livrarias britânica, a Waterstones, declarou que os pedidos diários da série de livros impressa, em pré-venda, "aumentaram em cerca de 700%, semana após semana", desde o início de janeiro. Rivalidade Ardente concentra a maior parte dos pedidos.>
A editora HarperCollins afirma que precisou imprimir diversos lotes novos, além do originalmente planejado, para atender à demanda.>
Para Reid, a esperança é que seus livros inspirem histórias de amor LGBT mais positivas.>
"Simplesmente não há muitas séries com final feliz, com a alegria queer.">
"Talvez não precisemos matar um deles antes do fim", ela brinca. "Seria uma ótima mudança.">
A edição em português do livro Rivalidade Ardente tem lançamento previsto pela Editora Alt para 5 de fevereiro.>
A série Rivalidade Ardente está disponível no Brasil na HBO Max.>
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