Publicado em 20 de janeiro de 2026 às 10:11
É uma história impressionante a de São Sebastião (256-286), como convém às hagiologias, sobretudo as do princípio do cristianismo, quando os registros históricos eram parcos e, assim, as lendas sedimentadas com o passar dos séculos contribuíram para consolidar um imaginário ainda mais milagroso.>
Cristão que se tornou soldado com a ideia de ser uma espécie de agente-duplo, ou seja, para ajudar outros cristãos condenados pelo Império Romano, acredita-se que ele tenha sido desmascarado e martirizado — não uma, mas duas vezes.>
Da primeira, com as tais flechadas que acabaram se tornando características de suas representações sacras, acabaria sobrevivendo.>
Recuperado, teria decidido tomar satisfações com o imperador. Que, novamente, determinou sua execução, operação esta que então se realizaria de forma exitosa.>
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Eternizado por relatos hagiológicos antigos, logo passou a ser venerado pelos cristãos. Acredita-se que populações se livraram de epidemias pelo menos três vezes graças a intercessão dele.>
Em 1567, foi num dia de São Sebastião, 20 de janeiro, que portugueses expulsaram os franceses que dominavam a região do Rio de Janeiro. Daí o santo ter se tornado padroeiro do lugar.>
Mais recentemente, o santo foi apropriado por comunidades LGBT, que o transformaram em uma espécie de ícone gay.>
Autor do livro São Sebastião: o Mártir Que Desafio o Imperador Ao Se Declarar Soldado de Cristo, o padre Jeferson Mengali explica que Sebastião foi "um dos muitos soldados romanos" que acabaram "martirizados por sua fé em Jesus".>
"É uma pena que tudo o que temos sobre esse santo é o que está nas atas de seu martírio, escritas dois séculos mais tarde", lamenta ele.>
"Conta-se que os escribas tinham ordens de colocarem nessas atas detalhes do martírio, dando pouca ênfase a história do martirizado. E isso acontecia para assustar os cristãos, pois essas atas eram colocadas na cidade onde ocorria o martírio, para que todos pudessem conhecer as histórias e, assim, fosse desestimulada a adesão ao cristianismo", explica o sacerdote.>
Mengali conta que há três documentos antigos que fundamentam o que se sabe a respeito da vida de Sebastião: a Legenda Aurea, o Martirologio— em registro que teria sido feito no ano de 354 — e as Acta Santorum.>
Nesses textos, afirma-se que Sebastião teria nascido no ano de 250 em Narbonne, cidade do império romano situada no atual sul da França. "[Diz-se também que ele] tinha feito muitos atos de amor e caridade para com os irmãos cristãos", enfatiza o padre biógrafo.>
Conforme pontua Mengali, "os detalhes do martírio de Sebastião foram elaborados" posteriormente. A primazia do relato é atribuída a Aurélio Ambrósio (340-397), influente religioso que foi arcebispo de Mediolano, atual Milão.>
Atribui-se a Ambrósio a autoria de um texto registrado como sermão de número 20, em que ele analisa o Salmo 118 e inclui a narrativa da morte de Sebastião.>
"Sebastião foi um dos soldados romanos mártires e santos, cujo culto nasceu no século 4 e atingiu seu auge por volta dos séculos 14 e 15", afirma Mengali. "Embora os seus martírios possam provocar algum ceticismo junto aos estudiosos atuais, certos detalhes são consistentes com atitudes de mártires cristãos seus contemporâneos.">
Ele teria se alistado ao exército romano no ano de 283, quando vivia no local onde hoje é MIlão. "Ascendeu na carreira militar até se tornar capitão da guarda do imperador", conta o estudioso de hagiografias Thiago Maerki, pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e associado da Hagiography Society, dos Estados Unidos.>
Segundo Maerki, a "finalidade do ingresso no exército era justamente ajudar os cristãos que vinham sendo aprisionados". "Ele trabalhava para auxiliar os perseguidos que estavam presos e se tornariam mártires", comenta o pesquisador. "A fama de santidade de Sebastião começou a partir disso.">
Era um período em que ser soldado significava muito em termos de status social. >
"Ele se tornou uma espécie de modelo de soldado cristão, com uma ética, uma moral verdadeira no auxílio aos perseguidos e, numa atualização contemporânea, auxílio àqueles que sofrem", analisa Maerki.>
As hagiografias antigas atribuem ao imperador Diocleciano (244-311) a descoberta da fé de Sebastião e sua condenação à morte.>
"Segundo a ata do martírio do santo, escrita entre os século 4 e 5, Diocleciano teria afirmado algo como 'eu o tive entre os grandes no meu palácio e você agia contra mim'", relata Maerki. "Sebastião escondia isso, que era cristão, do imperador. Ele ajudava os cristãos prisioneiros às escondidas.">
Os documentos antigos narram que a sua condenação teria sido morrer por flechadas.>
"A história é que o imperador mandou que ele fosse pendurado em um poste de madeira para ser torturado com flechadas até a morte", diz o vaticanista Filipe Domingues, doutor pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.>
"Daí vem a imagem popular até hoje, de um santo com as flechas pelo corpo", acrescenta ele.>
"A imagem de São Sebastião, tão conhecida de todos nós, revela um momento importante do martírio deste grande santo", complementa Mengali. "A reprodução do martírio de São Sebastião, amarrado a uma árvore e atravessado por flechas, é uma imagem milhares de vezes retratada em quadros, pinturas e esculturas por artistas de todos os tempos.">
É possível traçar uma analogia, portanto, com a própria crucificação de Jesus. Nesse sentido, Sebastião teria sofrido também uma "paixão", como se diz no meio religioso — isto é, um sofrimento que deveria resultar em morte.>
"Mas ele não morreu nessa tortura", conta Domingues.>
"O suplício das flechas não lhe tirou a vida, resguardada pela fé em Cristo. As flechas de São Sebastião nos revelam a primeira fase das torturas que o santo enfrentou. Tendo como carrasco seus companheiros de exército, São Sebastião suportou várias flechadas em seu corpo sem renegar a fé", diz ainda o padre Mengali.>
"Quando todos pensaram que ele estivesse morto, deixaram-no amarrado para ser devorado pelos animais e aves de rapina.">
Mas, fato ou lenda consolidada pelo cristianismo, o soldado teria sobrevivido.>
"Irene de Roma [uma mulher cristã que depois também se tornaria santa] acabou recolhendo seu corpo com a finalidade de sepultá-lo. Mas ela percebeu que ele ainda estava vivo", narra Maerki.>
"Ela o levou para a casa e começou a cuidar dele, tratando as feridas. E ele foi curado, uma cura considerada milagrosa", diz o pesquisador.>
Sebastião foi então aconselhado por seus amigos a fugir de Roma.>
"No entanto, ele decidiu procurar o imperador para reafirmar sua fé", relata. "Acabou condenado novamente, desta vez para ser açoitado até a morte. Foi um santo que sofreu muito, praticamente um duplo martírio.">
Isso teria ocorrido em 20 de janeiro de 286, daí a data que passou a ser celebrada pelo cristianismo.>
Domingues afirma que, para ter certeza de que desta vez ele seria morto, Diocleciano ordenou que o corpo dele fosse jogado na chamada cloaca máxima, o sistema de esgoto de Roma.>
"A tradição diz que isso foi feito mas que o corpo teria ficado preso numa parte específica e, depois, recuperado pelos cristãos, acabou enterrado nas catacumbas fora do centro da cidade, onde costumavam sepultar alguns cristãos", conta o vaticanista.>
"Pouco antes do martírio, São Sebastião teria dito que 'antes de ser oficial do imperador, sou um soldado de Cristo'", diz Maerki. "A frase revela coragem, bravura. Mas é importante ressaltar que assim como a história de muitos mártires dessa época, sua vida está repleta de lendas que se misturam com os fatos e dados verídicos.">
"Há toda uma construção [de sua biografia]. Há quem diga, por exemplo, que ele nunca sofreu flechadas, mas sim que a morte teria ocorrido por espancamento. Outras versões atestam que ele morreu já na primeira das condenações. É muito difícil afirmar o que é verdade e o que é lenda", prossegue o hagiólogo. "Há muitas controvérsias.">
O vaticanista Domingues vê uma importância no simbolismo do ocorrido frente à própria evolução urbanística de Roma.>
"Segundo a tradição, ele foi martirizado no Palatino, que naquela época era o centro de Roma, a colina onde ficava o palácio do imperador", comenta. "Hoje ali estão as ruínas do império e uma igreja dedicada a São Sebastião, ainda em pé.">
"Ou seja: de um lado, o fim daquele poder romano, de outro, a Igreja que resiste por causa do sangue de seus mártires", compara o vaticanista.>
Por conta de sua hagiografia, Sebastião é visto hoje como "um defensor da Igreja, um proclamador da fé". "Justamente por ter sido insistente: teria sobrevivido à primeira tentativa de martírio, voltou e não fugiu, veio de novo defender aquilo em que acreditava", argumenta Domingues.>
Mais tarde, foi à devoção a São Sebastião que cristãos apelaram para sobreviver a epidemias.>
"Venerado pelos fiéis desde a Antiguidade, muitos milagres são atribuídos a ele, mesmo enquanto ele era vivo", pontua padre Mengali. "No ano de 680, quando suas relíquias [seus restos mortais] foram transportadas solenemente para uma basílica, construídas por Constantino [imperador romano], cidadãos romanos sofriam com uma peste. A epidemia teria desaparecido na hora da transladação das relíquias, e esta é a razão porque os cristãos veneram em São Sebastião o grande padroeiro contra a peste.">
Há relatos semelhantes ocorridos em Milão, em 1575, e em Lisboa, em 1599, momentos em que, segundo Mengali, "outras epidemias foram debeladas a partir de quando o povo suplicou por sua intercessão".>
"Ele tem essa marca. Talvez devêssemos pedir ajuda para ele para sair de nossa situação atual", comenta Domingues.>
O santo seria considerado padroeiro e protetor do Rio de Janeiro por conta de um episódio histórico do Brasil colonial. Quando franceses ocupavam a baía de Guanabara e se tornaram aliados dos índios tupinambás, colonizadores portugueses começaram a articular uma maneira de expulsá-los.>
"Em 1567, os portugueses e seus aliados, o grupo indígena rival dos tupinambás, os temiminós, destruíram a colônia francesa", diz Mengali.>
"Segundo a lenda espalhada oralmente, já que não existe nenhum registro a respeito, São Sebastião foi visto de espada na mão entre os portugueses, mamelucos e índios temiminós, lutando contra os franceses calvinistas e indígenas tupinambás, durante a batalha final que expulsou os franceses que ocupavam o Rio", conta o padre.>
Batalha esta, vale frisar, que ocorreu no dia dedicado ao santo, 20 de janeiro de 1567.>
A devoção, então, cresceria por lá. No mesmo ano, o militar e governador-geral Estácio de Sá (1520-1567), considerado o fundador da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, mandou erguer uma igrejinha a ele, junto ao Morro Cara de Cão, atual bairro da Urca. Era pequena e simples. De taipa, coberta de sapé.>
A igreja dedicada ao padroeiro seria feita entre 1578 e 1598.>
"Em 1922 a Igreja de São Sebastião foi transferida para uma nova Igreja na Tijuca, a Igreja de São Sebastião dos Frades Capuchinhos", conta padre Mengali. "Para lá também foram transferidos em 1931 os restos mortais de Estácio de Sá, o marco de fundação da cidade, além do relicário com um fragmento do osso do mártir São Sebastião, juntamente com a imagem do santo trazida de Portugal.">
O biógrafo do santo explica que São Sebastião "sempre foi o padroeiro do Rio" e isso justifica seu "culto carinhoso por parte dos cariocas".>
"Nos tempos coloniais e nos da monarquia, a festa de São Sebastião era celebrada com muito entusiasmo. Havia salva de tiros das fortalezas e dos navios, parada de tropas em grande gala, cerimônias religiosas com missa solene, repiques de sinos, foguetórios, danças populares em plena rua", conta.>
"Atualmente, o povo do Rio comemora com missas e procissões a data que às vezes é confundida com a criação da cidade, em 1º de março.">
O vaticanista Domingues comenta que essa ligação entre o mártir cristão e a cidade brasileira é visível inclusive em Roma. "Existe uma tradição de o arcebispo do Rio de Janeiro [atualmente, d. Orani Tempesta] celebrar na basílica de São Sebastião [em Roma] em ocasiões especiais", recorda. "É uma coisa bonita, porque um lanço concreto e visível com o santo romano, com a igreja romana.">
Publicado em livro, o ensaio Losing His Religion: San Sebastian As A Contemporary Gay Martyr (Perdendo a sua religião: São Sebastião como um mártir gay contemporâneo, em tradução literal para o português) apresenta o santo como um ícone LGBT.>
O autor, o pesquisador norte-americano Richard Kaye, PhD pela Universidade de Princeton e professor no Hunter College de Nova York, apresenta-o como um soldado "muito amado" pelos imperadores romanos de seu período, que o queriam sempre por perto.>
O autor insinua que o santo poderia ter sido, mais do que guarda pessoal, amante dos imperadores.>
A iconografia sacra, sobretudo a partir do Renascimento, passou a representá-lo como um jovem atlético — faz sentido, posto que ele era soldado e foi executado com apenas 30 anos. E, no imaginário, mostrado com as flechadas em seu corpo, retratado sempre praticamente nu.>
Kaye analisa que essa iconografia cristã "sustenta um ideal homoerótico", com o personagem "em êxtase", tal e qual um símbolo da "natureza supostamente sadomasoquista do erotismo masculino".>
Na contemporaneidade, ativistas LGBT também viram no santo a representação de um ideal de luta e persistência — ele era um cristão que não teve medo de se assumir, assim como homossexuais hoje muitas vezes precisam ter coragem para se assumir.>
O pesquisador Kaye chega a firmar que os "gays de hoje em dia viram imediatamente em São Sebastião tanto o anúncio cálido do desejo sexual como um exemplo de gay no armário que foi torturado".>
Para Maerki, é importante ainda pontuar que São Sebastião "é o santo masculino mais retratado na história da arte".>
"E a imagem clássica de seu corpo, seminu, resplandecendo beleza, se tornou símbolo. Historiadores e especialistas como Kaye veem nesse imaginário o corpo sendo retratado com um erotismo, uma espécie de propaganda do desejo homossexual", analisa.>
Segundo ele, os relatos de que Sebastião mantinha "uma espécie de vínculo emocional com seus oficiais" e textos que o apresentam como "muito amado pelos imperadores" reforçam essa interpretação.>
"Talvez tenha sido a junção de tudo isso que fez com que a comunidade LGBT acabasse o escolhendo como uma espécie de mártir gay. E uma analogia é possível: se São Sebastião foi defensor dos que eram perseguidos, os cristãos perseguidos daquele tempo, que eram torturados e mortos, ele também desponta na nossa sociedade como um símbolo de luta por outra causa", compara Maerki.>
"Sabemos que a comunidade LGBT muitas vezes é perseguida. Ele surge como um símbolo de defesa, de proteção.">
Padre Mengali lembra que a imagem do santo martirizado por flechas é uma construção posterior. "Diferente do que as pinturas mostram, São Sebastião não foi morto por flechas. Ele foi resgatado por Santa Irene e espancado até a morte a mando do imperador Diocleciano, que jogou seu corpo ferido nos esgotos de Roma", enfatiza. "A imagem de seu corpo seminu perfurado por flechas e aguardando o martírio foi estabelecida pelos pintores do Renascimento. A propagação dessa imagem despertou a imaginação de vários artistas, fazendo de São Sebastião o santo masculino mais retratado na história da arte.">
Para o biógrafo, contudo, a coragem que ele teve ao assumir frente ao imperador sua posição como cristão é o que permite um paralelo com os homossexuais de hoje em dia, que muitas vezes também enfrentam dificuldades semelhantes para declarar sua orientação sexual.>
Ele percebe, contudo, um curioso ponto consagrado pelo imaginário sacro. "Por que São Sebastião, tendo sido também soldado e guerreiro, não possui a mesma simbologia de virilidade e machismo que o Santo do Dragão?", pergunta ele.>
"Olhando para a imagem de Sebastião, vemos uma imagem de fragilidade, passividade; um homem forte, mas indefeso, amarrado a uma árvore e cheio de flechas", explica Mengali.>
"São Sebastião é aquele que ganha as pessoas com a palavra, aquele que convence com o diálogo, a conversa, não convence com a luta, como São Jorge. São Sebastião, se observarmos suas biografias antigas, tem poder de persuasão, para animar cristãos indecisos e converter pagãos. Nesses tempos de negação da fé e de valores espirituais, religiosos, humanos e sociais, São Sebastião torna-se um grande modelo de ajuda para todos nós.">
*Esta reportagem foi publicada originalmente em janeiro de 2022>
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