Publicado em 12 de março de 2026 às 17:36
Israel e os Estados Unidos realizaram uma operação conjunta com mais de 200 aviões de combate e embarcações militares, atacando cerca de 5.000 alvos no Irã com a ideia de enfraquecer o regime islâmico que governa o país desde 1979.>
Os ataques deixaram mais de mil pessoas mortas, incluindo pelo menos 100 meninas dentro de uma escola em Minab, no sul do Irã, bombardeada quando assistiam às aulas, em 28/2.>
A ofensiva também causou graves danos em Teerã e em outras cidades importantes como Qom, Tabriz e Minab.>
Mas há um fato que chamou a atenção de analistas do conflito.>
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Apesar da intenção de Israel e dos EUA de atingir o regime iraniano, um local estratégico sob controle iraniano permanece intacto: a ilha de Kharg, situada a cerca de 28 quilômetros da costa do país.>
Nessa área de apenas 24 quilômetros quadrados, está concentrado, em tanques e outros depósitos, 90% do petróleo que o Irã exporta para o mundo.>
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"É um ponto vital para a sobrevivência do Irã, mas acredito que tanto os EUA quanto Israel sabem que, se o atacarem ou causarem algum dano ali, o prejuízo em termos energéticos seria irreversível", explicou Neil Quilliam, especialista em Oriente Médio do centro de estudos britânico Chatham House, à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.>
Quilliam também diz que, com o fechamento do Estreito de Ormuz, um ataque a um ponto tão vital para a economia global seria complexo e pouco eficaz em termos estratégicos.>
Até o momento, os EUA têm se abstido de avançar contra a infraestrutura petrolífera do Irã, afirma o especialista, e, embora Israel tenha atacado alguns pontos, o certo é que esse setor permaneceu em grande parte à margem do atual conflito.>
"O Irã é o 4º produtor de petróleo do mundo. Os preços do petróleo já estão atingindo níveis recordes, um resultado inesperado para os EUA quando iniciaram esse conflito", acrescenta o analista.>
Desde os tempos do Império Persa, há mais de 2 mil anos, essa pequena ilha desempenha um papel estratégico no Golfo.>
Durante algum tempo, por possuir fontes de água, virou um porto importante para o intercâmbio comercial de alimentos e outros produtos na região.>
A ilha de Kharg esteve sob domínio português e holandês nos séculos 16 e 17, quando consolidou sua reputação como porto de trocas comerciais impulsionado pela administração da Holanda.>
No século 20, foi sede de uma prisão de segurança máxima e foi ali que se descobriu uma de suas principais vantagens: próxima à costa iraniana, a ilha possui águas profundas perfeitas para a navegação de petroleiros, ao contrário das águas rasas da costa.>
Então, na década de 1950, durante o reinado do xá Mohammad Reza Pahlavi, começou a construção de um centro de armazenamento e distribuição de hidrocarbonetos, que logo se tornou o principal ponto de exportação do país.>
De fato, parte da infraestrutura da ilha pertenceu a empresas americanas, que operaram ali até a Revolução Islâmica de 1979.>
De acordo com relatórios do Ministério do Petróleo do Irã, as instalações na ilha de Kharg funcionam como parte fundamental da indústria nacional.>
O terminal recebe petróleo bruto dos três principais campos marítimos do Irã — Aboozar, Forouzan e Dorood — transportado por meio de uma complexa rede de tubulações e dutos submarinos. Na ilha, o petróleo é processado para exportação.>
Estima-se que por esse terminal circulem cerca de 1,3 milhão de barris de petróleo por dia. E o local tem capacidade de armazenamento de 18 milhões de barris.>
Devido à sua importância no mercado energético, não foi declarada alvo militar durante as incursões tanto dos EUA quanto de Israel. Ainda assim, foi alvo de ataques durante o conflito com o Iraque nos anos 1980.>
Desde a sua criação como terminal de exportação de hidrocarbonetos, Kharg se tornou um ponto estratégico para Teerã, que continua sendo importante em meio ao conflito com Israel e os EUA.>
"Há algo que, neste momento, parece claro para os EUA: não podem retirar o petróleo iraniano do mercado nem causar um dano irreversível à sua infraestrutura", diz Quilliam, do Chatham House.>
O analista afirma que atualmente o preço do barril gira em torno de US$ 120 (cerca de R$ 620) e que um possível ataque à ilha de Kharg poderia elevá-lo para cerca de US$ 150 (aproximadamente R$ 775).>
"E não seria um preço que depois cairia rapidamente", observa o especialista.>
Mas essa possibilidade não foi descartada.>
O jornal britânico The Guardian informou que os assessores do Pentágono sugeriram não atacar a ilha, mas tomá-la com um objetivo claro: "Se não puderem vender o petróleo, [o Irã] não tem como financiar o regime", afirmou um dos assessores.>
No entanto, para Quilliam, há vários fatores a considerar antes disso. Não apenas o uso de uma força terrestre para fazê-lo, mas também o impacto sobre o futuro do projeto que se pretende desenvolver ali.>
"O que os EUA disseram é que querem o fim do regime e a instalação da democracia; pois bem, para que esse projeto tenha algum tipo de sucesso, é necessário que a ilha de Kharg funcione adequadamente", explica Quilliam.>
Mas, com todos os antecedentes, nessa nova ordem mundial, os analistas também não se atrevem a descartar totalmente um possível ataque à ilha.>
"Até agora, nenhum presidente dos EUA se atreveu a atacar a ilha de Kharg. Ainda que careça de toda lógica, é algo que, infelizmente, não podemos descartar em meio a tudo o que vimos nos últimos meses", conclui o especialista.>
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