Publicado em 6 de março de 2026 às 09:11
A postura militar do Irã em um conflito crescente com Israel e os Estados Unidos sugere que o país não está lutando por vitória em um sentido convencional. Está lutando pela sobrevivência — e por sobreviver em seus próprios termos.>
Os líderes e comandantes da república islâmica vêm se preparando para esse momento há anos.>
Eles sabiam que suas ambições regionais poderiam eventualmente provocar um confronto direto com Israel ou com os EUA, e que uma guerra com um provavelmente atrairia o outro. Esse padrão ficou evidente na Guerra de 12 Dias em junho de 2025, quando Israel atacou primeiro e os EUA se juntaram dias depois.>
Na atual rodada de combates, os dois lançaram ataques contra o Irã simultaneamente.>
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Dada a superioridade tecnológica, as capacidades de inteligência e o avançado equipamento militar dos EUA e de Israel, seria ingenuidade achar que os estrategistas iranianos estivessem planejando uma vitória direta no campo de batalha.>
Em vez disso, o Irã parece ter construído uma estratégia baseada em dissuasão e resistência. Na última década, o país investiu fortemente em mísseis balísticos, drones de longo alcance e em uma rede de grupos armados aliados em toda a região.>
O Irã também entende as suas próprias limitações: o território continental dos EUA está fora de alcance, mas as bases americanas espalhadas pela região — especialmente em países árabes vizinhos — não estão fora de alcance. Já Israel está bem dentro do alcance de mísseis e drones iranianos, e conflitos recentes demonstraram que os seus sistemas de defesa aérea podem ser penetrados. Cada projétil que atravessa esses sistemas carrega não apenas peso militar, mas também psicológico.>
O cálculo do Irã também se baseia, em parte, na economia da guerra. Os interceptadores usados por Israel e pelos EUA são muito mais caros do que muitos dos drones e mísseis empregados pelo Irã. Um conflito prolongado obriga os EUA e Israel a gastar recursos de alto custo para interceptar ameaças comparativamente baratas.>
A energia é outra alavanca na economia da guerra.>
O Estreito de Ormuz continua sendo um dos pontos de estrangulamento mais críticos do mundo para o transporte de petróleo e gás. O Irã não precisa fechar completamente essa estreita via marítima do Golfo. Mesmo ameaças críveis e interrupções limitadas já elevaram os preços e, se continuarem, podem aumentar a pressão internacional por uma desescalada do conflito.>
Nesse sentido, a escalada se torna uma ferramenta voltada não necessariamente para derrotar militarmente os adversários do Irã, mas para elevar o custo de continuar a guerra.>
Isso nos leva aos ataques contra países vizinhos.>
Ataques com mísseis e drones contra países como Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Omã e Iraque parecem ter sido concebidos para sinalizar que abrigar forças dos EUA traz riscos.>
O Irã pode esperar que esses governos pressionem os EUA a limitar ou interromper as operações, mas essa é uma aposta perigosa. Expandir ainda mais os ataques corre o risco de endurecer a hostilidade desses países e empurrá-los com mais firmeza para o campo EUA–Israel.>
As consequências de longo prazo podem durar mais que a própria guerra, remodelando os alinhamentos regionais de formas que deixariam o Irã mais isolado.>
Se a sobrevivência é o objetivo principal, então ampliar o círculo de inimigos é um passo de alto risco. Ainda assim, do ponto de vista do Irã, a contenção pode parecer igualmente arriscada se for interpretada como sinal de fraqueza.>
Relatos de que comandantes locais podem estar selecionando alvos ou lançando mísseis com relativa autonomia levantam novas questões.>
Se confirmada, essa situação não indicaria necessariamente o colapso das estruturas de comando. A doutrina militar iraniana, especialmente dentro da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, há muito incorpora elementos descentralizados para garantir continuidade sob ataques intensos.>
Redes de comunicação são vulneráveis à interceptação e ao bloqueio. Comandantes de alto escalão têm sido alvo de ataques. A superioridade aérea dos EUA e de Israel limita a supervisão central. Nessas condições, listas de alvos previamente autorizadas e delegação de autoridade para lançamentos podem ser medidas deliberadas contra uma "decapitação" da liderança.>
Essa estrutura pode explicar como as forças iranianas continuaram operando após a morte de figuras importantes da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã e mesmo após a morte do Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, nos ataques iniciais conduzidos por EUA e Israel no sábado (28/2).>
Mas a descentralização também traz riscos. Comandantes locais atuando com informações incompletas podem atingir alvos não intencionais, incluindo Estados vizinhos que buscavam manter neutralidade.>
A ausência de um quadro operacional unificado aumenta a probabilidade de erros de cálculo. Se isso se prolongar, também pode resultar na perda de comando e controle.>
Em última análise, a abordagem do Irã parece se basear na crença de que o país pode suportar punições por um tempo maior do que o tempo que seus adversários estariam dispostos a suportar os danos e custos da guerra.>
Se for esse o caso, trata-se de uma forma de escalada calculada: resistir, retaliar, evitar o colapso total e esperar que surjam fissuras políticas do outro lado.>
Ainda assim, a resistência tem limites. Os estoques de mísseis são limitados e as linhas de produção estão constantemente sob ataque. Os lançadores móveis são atingidos em movimento e substituí-los leva tempo.>
A mesma lógica se aplica aos adversários do Irã.>
Israel não conseguiu confiar completamente em seus sistemas de defesa aérea. Cada brecha amplia a ansiedade pública. Os EUA precisam pesar a escalada regional, a volatilidade do mercado de energia e o custo financeiro de operações prolongadas.>
Ambos os lados parecem supor que o tempo está a seu favor. Os dois não podem estar certos.>
Nesta guerra, a república islâmica não precisa de triunfo. Ela precisa permanecer de pé.>
Resta saber se esse objetivo é alcançável, sem alienar permanentemente seus vizinhos.>
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