Publicado em 6 de março de 2026 às 15:10
A grande divisão do mundo muçulmano é entre sunitas e xiitas.>
A reação iraniana aos ataques de Israel e dos Estados Unidos, lançando mísseis e drones em direção aos seus vizinhos de maioria sunita aliados a Washington na região, evidenciou novamente que as tensões políticas e religiosas tradicionais no Oriente Médio continuam vigentes e marcam a postura de várias partes envolvidas.>
Para muitos analistas, as diferenças entre os dois ramos do Islamismo são uma clara recordação das complexas relações entre os principais rivais do Oriente Médio: a Arábia Saudita e o Irã.>
Antes que os ataques combinados dos Estados Unidos e Israel colocassem o regime islâmico na corda bamba, os dois países estavam envolvidos em uma feroz disputa pelo domínio regional. E esta disputa de décadas é agravada pela divisão religiosa.>
>
Cada um deles segue um ramo do Islamismo. O Irã, em grande parte, é muçulmano xiita, enquanto a Arábia Saudita se considera a principal potência muçulmana sunita.>
O enfrentamento entre as duas vertentes também foi observado no recente conflito entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza e, novamente, nas diferentes reações aos ataques de Israel e dos Estados Unidos, que puseram fim, entre muitas outras, à vida do ex-líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei (1939-2026).>
Após o ataque mortal a Khamenei, o Hezbollah lançou em represália mísseis e foguetes sobre a cidade israelense de Haifa, abrindo um novo foco de conflito. Israel respondeu atacando o Hezbollah no território libanês.>
O Hezbollah é uma milícia libanesa formada por xiitas. Eles são aliados do Irã dos aiatolás, que os apoiou e financiou por anos.>
Outro grupo xiita nesta região repleta de convulsões são os houthis do Iêmen, que também são aliados de Teerã.>
Os houthis ainda não reagiram ao ataque contra o Irã, mas estrategistas americanos e israelenses receiam que eles acabem se envolvendo com ataques aos navios que trafegam pelo estratégico Estreito de Ormuz, como já aconteceu no passado.>
Já os adversários do Irã são os curdos, sunitas considerados um povo sem Estado que vivem espalhados por países como o Iraque, a Turquia e o próprio Irã.>
Grupos de opositores curdos no exílio declararam à BBC que já têm planos para adentrar no território iraniano e apoiar a luta contra as forças do governo do país.>
A divisão entre sunitas e xiitas remonta a 632 d.C., ano da morte do profeta Maomé. Ela gerou uma disputa pelo direito de liderar os muçulmanos, que, de certa forma, persiste até os dias de hoje.>
As duas vertentes coexistiram por séculos, compartilhando muitas crenças e práticas. Mas sunitas e xiitas mantêm diferenças importantes, em termos de doutrina, rituais, leis, teologia e organização.>
Seus respectivos líderes também se acostumaram a competir por influência.>
Da Síria até o Líbano, passando pelo Iraque e pelo Paquistão, muitos dos conflitos recentes destacaram ou até agravaram esta divisão, rompendo comunidades inteiras.>
Aqui explicamos do que consistem estes dois ramos do Islã e suas principais diferenças.>
Os sunitas são maioria entre os muçulmanos. Estima-se que cerca de 90% deles pertençam a esta corrente. Eles se consideram o ramo mais tradicional e ortodoxo do Islã.>
De fato, o nome "sunita" provém da expressão árabe Ahl al-Sunnah — o povo da tradição. Trata-se, neste caso, de uma referência às práticas derivadas das ações do profeta Maomé e suas pessoas próximas.>
Os sunitas veneram todos os profetas mencionados no Corão, mas particularmente Maomé, considerado o profeta definitivo. E os líderes muçulmanos que se seguiram são considerados figuras temporárias.>
No mais, diferentemente dos xiitas, os mestres e líderes religiosos sunitas são historicamente controlados pelo Estado.>
A tradição sunita tem sua expressão máxima na Arábia Saudita e também defende um sistema jurídico islâmico claramente codificado, bem como a filiação a uma dentre quatro escolas legais.>
Os xiitas começaram como uma facção política. Literalmente, o nome significa Shiat Ali, o partido de Ali.>
Ali era o genro do profeta Maomé. Os xiitas reclamam seu direito e de seus descendentes de liderar os muçulmanos.>
Ali morreu assassinado em virtude das intrigas, violência e guerras civis que marcaram seu califado. Seus filhos Hassan e Hussein tiveram negado o que consideravam seu direito legítimo de sucedê-lo.>
Acredita-se que Hassan tenha sido envenenado por Muawiyah, que foi o primeiro califa (líder dos muçulmanos) da dinastia Umayyad. Já o seu irmão Hussein morreu no campo de batalha, ao lado de vários membros da família.>
Estes eventos geraram o conceito xiita de martírio e dos seus rituais de luto.>
A fé xiita também é caracterizada por um distinto elemento messiânico. E eles contam com uma hierarquia de clérigos que praticam uma interpretação aberta e constante dos textos islâmicos.>
Calcula-se que os xiitas somem atualmente 120 a 170 milhões de fiéis, o que representa cerca de 10% de todos os muçulmanos.>
Eles são a maioria da população no Irã, Iraque, Bahrein, Azerbaijão e, segundo algumas estimativas, no Iêmen.>
Mas também há importantes comunidades xiitas no Afeganistão, Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos, Índia, Kuwait, Líbano, Paquistão, Síria e Turquia.>
O líder supremo iraniano exercia notável influência espiritual sobre milhões de xiitas. Eles o consideravam o intermediário entre os fiéis e o mahdi, o imã oculto que, segundo acreditam, irá reaparecer no final dos tempos.>
Nos países governados por sunitas, os xiitas normalmente estão entre os mais pobres da sociedade. Eles se consideram vítimas de opressão e discriminação.>
Alguns extremistas sunitas também chegaram a pregar o ódio contra os xiitas.>
A Revolução Iraniana de 1979, por outro lado, introduziu uma agenda islamista radical de vertente xiita, que desafiou os governos sunitas conservadores, particularmente no Golfo Pérsico.>
Os Estados do Golfo contrabalançaram a política de Teerã, de apoiar partidos e milícias xiitas além das suas fronteiras, com maior apoio a governos e movimentos sunitas no exterior.>
Durante a guerra civil libanesa (1975-1990), por exemplo, os xiitas ganharam protagonismo graças às atividades militares do Hezbollah.>
Extremistas sunitas, como o Talebã, fizeram o mesmo no Paquistão e no Afeganistão, onde atacam frequentemente os locais de culto dos xiitas.>
Os recentes conflitos no Iraque e na Síria também adquiriram viés sectário. Muitos jovens sunitas se uniram aos grupos rebeldes para combater nesses países, reproduzindo a ideologia extremista da antiga al-Qaeda, um grupo de vertente sunita.>
>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta