Publicado em 6 de março de 2026 às 12:10
A segunda prisão de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e os detalhes que vieram à tona nos últimos dias sobre a rede de contatos do banqueiro com políticos e juízes e seu aparato para intimidar opositores repercutiram também na imprensa internacional.>
O jornal britânico Financial Times afirmou que a detenção representa "uma escalada significativa na investigação de suspeita de fraude e lavagem de dinheiro no Banco Master, que faliu no ano passado com prejuízos estimados em mais de R$ 40 bilhões, na maior falência bancária do Brasil em uma geração".>
Vorcaro havia sido detido em novembro do ano passado, no aeroporto internacional de São Paulo, em Guarulhos, e solto alguns dias depois, quando sua prisão preventiva foi substituída pelo monitoramento por tornozeleira eletrônica.>
Na última quarta-feira (4/4), ele foi preso novamente, levado a um centro de detenção provisório em Guarulhos e depois encaminhado à penitenciária de Potim, no interior de São Paulo, no âmbito da terceira fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que apura as suspeitas de fraude na instituição financeira.>
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Na quinta-feira (5/3), o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça autorizou sua transferência para uma penitenciária federal de segurança máxima em Brasília, o que deve acontecer nesta sexta.>
"A segunda prisão do CEO do banco adiciona um toque de violência ao escândalo no Brasil", diz o título da reportagem da plataforma de notícias financeiras Bloomberg referindo-se às suspeitas, reveladas pela terceira fase da operação da PF, de que o banqueiro dispunha de uma espécie de "milícia pessoal" para monitorar e ameaçar adversários, ex-funcionários e jornalistas.>
"A nova investigação também foi além dos crimes de colarinho branco pelos quais Vorcaro já havia sido acusado anteriormente", diz o texto da Bloomberg.>
Nesse sentido, a reportagem menciona o comentário feito por Vorcaro em um grupo de WhatsApp sobre o desejo de "quebrar todos os dentes" do jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo — episódio que também foi destacado pela cobertura da Associated Press sobre o caso. >
Segundo a investigação da PF, a mensagem — "Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto" — seria direcionada a Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, que lideraria a parte operacional do grupo apelidado de "a turma", que atuaria para o banqueiro vigiando e coagindo adversários e desafetos.>
Identificado nos documentos da PF pelo apelido de "Sicário", que significa "pistoleiro" em espanhol, Mourão teria tentado se suicidar após ter sido preso na quarta-feira (4/3). >
A Bloomberg também detalha as menções de Vorcaro a diversas figuras do alto escalão de Brasília, entre elas o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que o banqueiro chamou de "um dos meus grandes amigos de vida" em uma troca de mensagens com a namorada.>
As informações circularam depois do vazamento de uma série de mensagens do celular do empresário extraídas a partir da quebra do sigilo telefônico de Vorcaro e encaminhadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) à CPMI do INSS no Congresso. >
Na comunicação, o empresário também relatou encontros com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e com o juiz do Supremo Alexandre de Moraes.>
"As mensagens recém divulgadas dão uma noção mais clara do grau de familiaridade que ele mantinha com figuras do alto escalão", afirma a Bloomberg.>
A reportagem também chama atenção para outra frente do escândalo do Master descortinada no texto da decisão do ministro André Mendonça que autorizou a prisão de Mourão, Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, na nova fase da Operação Compliance Zero da PF.>
"O documento judicial ofereceu um dos primeiros indícios de como Vorcaro supostamente conseguiu exercer influência no principal órgão regulador financeiro do Brasil", afirma a reportagem, referindo-se ao Banco Central.>
"Segundo os investigadores, ele pagou ao ex-diretor do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza, e a Belline Santana, que chefiava a área de supervisão bancária da autoridade monetária, para assessorá-lo em assuntos regulatórios.">
Esse ponto também foi destacado na cobertura da agência de notícias Reuters, que pontuou que a notícia sobre o envolvimento dos dois servidores "causou grande comoção em Brasília, ameaçando empurrar a instituição ainda mais fundo em um escândalo que só cresce".>
Souza e Santana também foram alvos da operação da PF. Foram afastados dos respectivos cargos por determinação de Mendonça e passaram a ser monitorados por tornozeleira eletrônica.>
"As revelações ampliam o raio de impacto da explosão em torno de Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, cuja queda expôs uma rede de influência e conflitos de interesse que abalam a confiança em algumas das instituições mais poderosas do Brasil", diz o texto.>
A reportagem relembra as "intervenções incomuns" do Tribunal de Contas da União (TCU) e do STF questionando a liquidação do banco, que ocorreu em novembro de 2025, "apesar de nenhum dos dois órgãos ter autoridade de supervisão bancária".>
"Não conseguiram interromper a investigação, mas aumentaram as dúvidas sobre a influência desproporcional do banqueiro.">
A iniciativa do BC de liquidar o banco, ainda segundo a Reuters, "reforçou a visão do órgão regulador como um bastião de servidores públicos pragmáticos, resistentes à política brasileira".>
Essa impressão, contudo, "foi abalada na quarta-feira pela Polícia Federal, que alegou que Vorcaro provavelmente subornou" Souza e Santana "em troca de dicas e conselhos".>
Procurado pela Reuters, o BC afirmou que não comentaria sobre as implicações do caso para a sua reputação ou sobre decisões regulatórias envolvendo os dois funcionários. Em uma declaração pública, a autarquia afirmou que a investigação da Polícia Federal era fundamental para esclarecer os fatos e que quaisquer violações receberiam as sanções apropriadas de acordo com a lei.>
A defesa de Vorcaro questionou as acusações, enquanto a de Zettel disse que está à disposição das autoridades e que não conhece o teor do que foi imputado contra ele. A BBC News Brasil tentou, sem sucesso, contato com a defesa dos servidores do BC.>
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