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Quem foi Magnitsky, advogado morto após prisão e que batiza lei dos EUA

Quem foi Magnitsky, advogado morto após prisão e que batiza lei dos EUA

Aprovada em 2012, a Lei Magnitsky permite que os EUA apliquem sanções unilaterais contra estrangeiros acusados de corrupção grave ou violações sistemáticas de direitos humanos

Publicado em 30 de julho de 2025 às 15:10

SÃO PAULO - Sergei Magnitsky dá nome à lei aplicada contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. O advogado foi preso em 2008 após denunciar fraudes de autoridades russas e morreu quase um ano depois na prisão.

Quem foi Sergei Magnitsky

Advogado russo morto em 2009, Sergei Magnitsky dá nome à lei aplicada pelos Estados Unidos
Sergei Magnitsky morreu na prisão, na Rússia, em 2009, aos 37 anos, após 11 meses sob custódia Crédito: Reprodução

Magnitsky foi um advogado tributário que expôs uma fraude de membros do Ministério do Interior da Rússia. Ele trabalhava para um fundo de investimento estrangeiro: o Hermitage Capital Management, cujo proprietário, o britânico William F. Browder, entrou em conflito com autoridades russas.

Magnitsky trabalhava como advogado para Hermigate quando foi preso. As autoridades acusaram a companhia de não pagar cerca de US$ 17,4 milhões em impostos.

Browder foi o maior investidor estrangeiro da Rússia até 2005, quando teve sua entrada no país negada. Para se defender no caso, ele contratou Sergei. Na época, o governo russo alegou que o investidor era uma ameaça para segurança nacional.

Sergei denunciou um desvio de US$ 230 milhões das autoridades russas. Em seguida, foi preso em 2008, sob a acusação de evasão fiscal pelo governo.

Magnitsky morreu na prisão em 2009, aos 37 anos, após 11 meses sob custódia. Ele estava detido na prisão de Matrosskaya Tishina, em Moscou, e deixou esposa e dois filhos.

O governo russo disse, à época, que ele morreu de insuficiência cardíaca. Porém, o conselho de direitos humanos do Kremlin levantou suspeitas de que ele teria sido espancado até a morte.

Sergei não teria recebido cuidados médicos adequados na prisão, segundo relatos. As autoridades, no entanto, negaram que o advogado tivesse alertado sobre seus problemas de saúde.

Mesmo depois de morto, Magnitsky foi condenado junto com o seu ex-cliente, Browder. O empresário que tem cidadania britânica, mesmo tendo nascido nos EUA, buscou justiça fora da Rússia.

Browder pediu que governos estrangeiros aplicassem proibições de vistos e congelamento de ativos para violadores de diretos humanos e funcionários corruptos. Ele foi condenado a nove anos de prisão na Rússia e desde então tem sido um ativista no âmbito dos direitos humanos.

Lei Magnitsky: o que é e por que Moraes foi alvo?

Aprovada em 2012 e ampliada em 2016, a Lei Magnitsky permite que os EUA apliquem sanções unilaterais contra estrangeiros acusados de corrupção grave ou violações sistemáticas de direitos humanos. As punições incluem o bloqueio de bens em solo americano, o congelamento de contas e outras transações pelo sistema financeiro dos EUA, além de proibição de entrada no país. Não há necessidade de processo judicial – basta uma decisão do Executivo com base em relatórios ou documentos de organizações internacionais, imprensa e testemunhos.

O ato foi criado ainda no governo Obama em resposta à morte de Magnitsky. A legislação surgiu como instrumento para punir os envolvidos no caso.

A aplicação da lei contra o ministro Alexandre de Moraes ganhou corpo após a viagem de Eduardo Bolsonaro aos Estados Unidos. O deputado tentou convencer parlamentares republicanos a adotarem sanções contra o ministro com base na Lei Magnitsky. A atuação foi vista como parte de uma estratégia para internacionalizar o embate político e pressionar o Judiciário brasileiro com apoio externo.

Elon Musk, entre outros nomes conservadores, passaram a defender a aplicação da lei contra Moraes desde então. A sugestão, no entanto, é vista por especialistas em direito internacional como um desvirtuamento da legislação.

Na prática, o ministro corre o risco de perder cartões emitidos por bancos americanos, ter o acesso a pagamentos por Google Pay e Apple Pay bloqueados, além de ser monitorado por empresas americanas – como o Google – para garantir que ele não está contornando as sanções, segundo a legislação. Empresas e cidadãos americanos ficam impedidos de negociar com Moraes, mas não há previsão de sanção para pessoas ou entidades internacionais.

Segundo o texto da própria legislação americana, as sanções se aplicam a responsáveis por execuções extrajudiciais, tortura, detenções arbitrárias, desaparecimentos forçados e outras violações flagrantes dos direitos à vida, à liberdade e à segurança. A definição de "graves violações" está ancorada em tratados internacionais e exige conduta sistemática. Também podem ser punidos agentes que reprimem denúncias de corrupção ou impedem o trabalho de jornalistas e defensores de direitos.

As sanções podem ser impostas com base em provas não judiciais, mas precisam de fundamentação plausível. A medida é executiva e envolve o Departamento de Estado, o Departamento do Tesouro e a Ofac (Office of Foreign Assets Control), órgão responsável por incluir nomes na chamada SDN list, que bloqueia o acesso ao sistema financeiro americano.

Já houve precedentes contra membros do Judiciário, mas apenas em regimes autoritários. A lei foi usada contra magistrados russos e contra autoridades da Turquia e de Hong Kong, em casos que envolviam perseguições políticas, julgamentos fraudulentos ou repressão estatal institucionalizada.

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