Publicado em 3 de março de 2026 às 09:08
Com o Reino Unido permitindo que os Estados Unidos usem suas bases aéreas para ataques "defensivos" durante a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, a atenção se voltou para o tipo de apoio que o Irã poderia receber de países supostamente aliados.>
A Rússia e a China mantêm laços diplomáticos, comerciais e militares com a República Islâmica do Irã, mas o conflito atual deve deixar claro até que ponto esses países estão dispostos a apoiá-la.>
A resposta da Rússia aos ataques conjuntos dos EUA e de Israel contra o Irã foi ruidosa, mas limitada, sinalizando indignação e solidariedade ao Irã, ao mesmo tempo em que evitou medidas que pudessem colocar a Rússia diretamente no confronto, analisou Sergei Goryashko, da BBC News Rússia.>
O porta-voz do governo da Rússia, Dmitry Peskov, falou em "profunda decepção" com o fato de que, apesar das negociações entre os EUA e o Irã, a situação tenha "degenerado em agressão aberta".>
>
Segundo Peskov, a Rússia mantém contato constante com a liderança iraniana e com os países do Golfo afetados pela escalada do conflito.>
O Ministério das Relações Exteriores da Rússia condenou o que chamou de "agressão não provocada" contra o Irã por parte dos EUA e de Israel e denunciou o que considera assassinatos políticos e a "caça" aos líderes de Estados soberanos.>
No domingo, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, enviou condolências ao presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, pela morte do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, chamando o episódio de "violação cínica da moralidade humana e do direito internacional".>
Ainda assim, a Rússia evitou críticas pessoais ao presidente dos EUA, Donald Trump, e continua a expressar gratidão pelos esforços de mediação americanos em relação à Ucrânia.>
Questionado na segunda-feira (2/3) sobre como a Rússia poderia agora confiar nos EUA, Peskov respondeu que a Rússia "antes de mais nada confia apenas em si mesma" e defende seus próprios interesses.>
Esses interesses ajudam a explicar por que o apoio russo ao Irã permanece em grande parte retórico, embora o Irã tenha se tornado um dos aliados mais próximos da Rússia desde a invasão em larga escala da Ucrânia, fornecendo drones e auxiliando a Rússia a desenvolver formas de contornar as sanções ocidentais, afirmou Goryashko.>
O Irã também se encaixa na visão da Rússia de uma ordem multipolar, na qual os direitos dos Estados são mais importantes do que os direitos humanos, e os governos exercem amplo controle interno. A queda de um regime desse tipo representaria um golpe para esse modelo.>
Ao mesmo tempo, a Rússia já demonstrou não estar disposta a assumir riscos excessivos por seus parceiros, seja na Venezuela, na Síria ou durante a guerra de 12 dias entre Israel e Irã em 2025.>
Além de estar profundamente envolvida na Ucrânia e parecer não estar disposta e possivelmente nem apta a oferecer mais do que apoio diplomático e cooperação técnico-militar.>
O tratado de parceria estratégica entre Rússia e Irã, assinado em (17/1/25), não chega a configurar um pacto de defesa mútua.>
A Rússia e o Irã se comprometeram a compartilhar informações, realizar exercícios conjuntos e "garantir a segurança regional", mas não prometeram defender um ao outro em caso de ataque. Os laços econômicos entre os dois países também são modestos, e o comércio permanece na faixa de US$ 4 bilhões a US$ 5 bilhões (cerca de R$ 20 bilhões a R$ 25 bilhões).>
Já os vínculos militares e industriais estão em expansão. Em fevereiro, o jornal britânico Financial Times informou sobre um acordo de grande porte pelo qual a Rússia forneceria ao Irã sistemas portáteis de defesa aérea Verba no valor de € 500 milhões (cerca de R$ 2,7 bilhões).>
O Irã recebeu aeronaves de treinamento Yak-130 e helicópteros de ataque Mi-28 e aguarda a entrega de caças Su-35, embora a Rússia ainda não tenha fornecido os sistemas Verba.>
O uso de drones Shahed, de fabricação iraniana, alterou significativamente as táticas das forças russas na frente ucraniana. No ano passado, contudo, a Rússia ampliou rapidamente sua própria produção de drones, reduzindo a dependência de armamentos iranianos.>
Para a Rússia, o Irã é importante demais para ser abandonado, mas não importante o suficiente para que a Rússia entre em guerra por ele. Esse cálculo pode mudar, mas, por ora, a intervenção russa tende a permanecer, em grande medida, restrita ao discurso.>
A China condenou com veemência a morte do aiatolá iraniano Ali Khamenei, e historicamente se opõe à estratégia dos EUA de promover mudanças de regime em diferentes partes do mundo.>
No centro do vínculo entre China e Irã está uma parceria econômica mutuamente benéfica, explica Shawn Yuan, do Global China Unit, do serviço mundial da BBC. A China é o maior parceiro comercial do Irã e seu principal comprador de petróleo.>
Apesar de anos de duras sanções impostas pelos EUA ao Irã, a China se manteve como a principal tábua de salvação econômica do governo iraniano, adquirindo grandes volumes de petróleo iraniano a preços com desconto por meio de uma rede das chamadas "frotas fantasmas", embarcações registradas de forma fraudulenta para contornar sanções e transportar petróleo.>
Em 2025, por exemplo, a China comprou mais de 80% do petróleo exportado pelo Irã, e as receitas obtidas com essas compras ajudaram o país a estabilizar sua economia e a financiar gastos com defesa, mesmo com o fechamento dos mercados ocidentais.>
Um acordo estratégico de 25 anos assinado em 2021 consolidou a relação, com a promessa de centenas de bilhões de dólares em investimentos chineses em infraestrutura e telecomunicações no Irã.>
Historicamente, a abordagem da China diante das tensões entre Irã e Israel e entre Irã e EUA tem sido de contenção estratégica.>
Durante escaladas anteriores, incluindo a guerra de 12 dias entre Israel e Irã em 2025, a China defendeu reiteradamente "moderação", ao mesmo tempo em que atribuiu a responsabilidade à "interferência externa", uma referência pouco disfarçada à política dos EUA, afirma Yuan, da BBC.>
Em confrontos anteriores entre Irã e Israel, a China atuou como escudo diplomático do Irã, usando seu poder de veto, ou a ameaça de usá-lo, para atenuar resoluções da Organização das Nações Unidas (ONU). No entanto, nunca ofereceu intervenção militar direta.>
Segundo Yuan, a estratégia da China sempre foi deixar os EUA interferirem no Oriente Médio desde que não provoquem um colapso regional total que impulsione os preços globais do petróleo.>
Mas um regime pró-Ocidente no Irã representaria uma derrota geopolítica catastrófica para a China, já que o Irã não apenas fornece energia, como também atua como contrapeso político relevante à influência americana na região.>
O Irã é membro do Brics (agrupamento formado por 11 países, incluindo o Brasil) e da Organização para a Cooperação de Xangai (SCO, na sigla em inglês) e funciona como elo geográfico fundamental entre a Ásia Central, o Cáucaso e o Oriente Médio.>
Enquanto o Brasil, a China e a Rússia condenaram oficialmente, a ação conjunta entre norte-americanos e israelenses, outros integrantes do Brics, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Índia, não condenaram os bombardeios de Israel e dos EUA, mas condenaram, por sua vez, os ataques com mísseis realizados pelo Irã contra bases norte-americanas localizadas nos países do Golfo Pérsico.>
Um interlocutor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por sua vez, disse à BBC News Brasil não acreditar que o bloco vá adotar algum tipo de posição conjunta sobre o assunto. Segundo ele, fatores como as atuais dimensões da crise e a liderança indiana do bloco, neste ano, inviabilizariam um posicionamento semelhante ao do ano anterior.>
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que a atual crise no Irã expõe contradições do processo de expansão do grupo e coloca em xeque a capacidade de ação coletiva de um grupo de países com interesses geopolíticos tão distintos.>
Um colapso da República Islâmica poderia enfraquecer a credibilidade dos mecanismos multilaterais que a Rússia e a China vêm tentando fortalecer.>
Sem uma invasão em larga escala do Irã por EUA e Israel, as estruturas políticas e militares do país tendem a permanecer.>
A China deve adotar sua habitual "estratégia de longo prazo", buscando estabelecer relações com quem vier a assumir o posto de Khamenei na liderança do Irã, enquanto a Rússia procurará suas próprias oportunidades.>
Reportagem adicional de Leandro Prazeres, da BBC News Brasil>
>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta