Publicado em 3 de março de 2026 às 09:08
Antes de mais nada, um esclarecimento necessário: aiatolá, por si só, não implica em cargo político. Dentro da vertente xiita do islã — ramo da religião seguido por cerca de 16% dos muçulmanos —, a denominação é um título honorífico reservado aos religiosos vistos como os mais sábios, os mais qualificados.>
"É atribuído aos estudiosos que alcançam um dos mais altos níveis de autoridade em conhecimento islâmico", explica a antropóloga Francirosy Campos Barbosa, professora na Universidade de São Paulo e autora de, entre outros livros, Islã: Entre Arabescos, Luas e Tâmaras.>
"São os estudiosos que alcançam o nível máximo de estudo", define o orientador religioso e tradutor Nasser Khazraji, diretor do Centro Islâmico no Brasil - Arresala.>
"Para os xiitas, eles são o extrato mais sábio, nutrem de uma sabedoria em torno do Alcorão, das leis de Deus a partir do ponto de vista islâmico", pontua o cientista político Paulo Nicolli Ramirez, professor na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. "Na concepção xiita, são eles quem detêm as diretrizes do governo e como deve ser elaborada a Constituição.">
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A palavra vem da expressão árabe āyat Allāh, que significa "sinal de Deus". Segundo Barbosa, recebem essa designação os "especialistas altamente qualificados na sharia".>
Sharia é o sistema de lei islâmica, que se baseia tanto no Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, como nos hádices, que são os relatos de vida do profeta fundador da religião, Maomé (c, 570-632), e na suna, o conjunto de ensinamentos e práticas deixados por ele.>
Os aiatolás são, portanto, reconhecidos pelo "domínio profundo do Alcorão, dos ditos e ensinamentos do profeta e da jurisprudência ja'farita, a escola jurídica predominante no xiismo", pontua a professora.>
Barbosa contextualiza que, embora o prestígio, a relevância e a atuação desses grandes estudiosos remonte aos primeiros tempos do islã, o uso do título aiatolá se consolidou a partir do século 19. "A denominação se firmou especialmente no Irã e no Iraque, regiões que se tornaram importantes centros históricos, religiosos e acadêmicos do xiismo", diz.>
Segundo Khazraji, os aiatolás começaram a "liderar a nação islâmica" a partir do século 8º, depois da morte do décimo-segundo sucessor do profeta Maomé. "Foi quando surgiram esses grandes estudiosos dentro do islã xiita", esclarece ele. "De lá para cá, a nação foi sendo agraciada com milhares de estudiosos.">
O especialista calcula que hoje existam centenas de aiatolás. A maior parte deles está concentrada no Iraque e no Irã, mas também há em outros países do Oriente Médio, como o Líbano. Contudo, o aiatolá é o chefe de Estado apenas no Irã — em outros países com populações xiitas significativas, eles exercem forte influência religiosa e sociais mas não detêm o comando do poder político.>
"São líderes religiosos dos muçulmanos. Lideram a nação em várias questões: religiosas, sociais, políticas", explica Khazraji. Ele conta que o aiatolá é o responsável pelo fiel, orientando-o no que precisar.>
E há pequenas diferenças entre eles. Cada muçulmano escolhe um para seguir. Alguns se dedicam mais a aspectos sociais, outros mais a temas religiosos. "Em um contexto geral, todos são muito bem informados sobre o que um muçulmano necessita para a sua vida", diz.>
"Eles são a fonte do saber e do manual do muçulmano. Assim, cada muçulmano escolhe quem ele segue, para obedecer aos pareceres religiosos do seu dia a dia com base nas opiniões dele", conta Khazraji. Para alguns, por exemplo, há impedimento em ingerir frutos do mar. Outros não veem problema nisso.>
"Existem diferentes opiniões, pequenas diferenças entre seus pareceres a partir do que interpretam [dos textos sagrados], mas de maneira geral todos têm a mesma base, a mesma estrutura, concordam na grande maioria das coisas", comenta Khazraji.>
Não há uma nomeação formal ou uma cerimônia própria em que alguém recebe o título de aiatolá. A designação, conta Francirosy Campos Barbosa, "resulta de um longo processo de formação intelectual e reconhecimento religioso".>
Segundo ela, para alguém se tornar um aiatolá são necessários "muitos anos, décadas de estudos em seminários islâmicos, chamados de hawza, como os de Qom, no Irã, e Najaf, no Iraque".>
"Qualquer pessoa pode seguir a jornada dos estudos religiosos", afirma Khazraji. "São várias disciplinas que devem ser adquiridas.">
"Quando ele chega a um nível muito alto de conhecimento, ele pode extrair as regras religiosas por si só", explica Khazraji.>
São estudos dos textos sagrados do Alcorão, da jurisprudência islâmica e de teologia. E também de ética e filosofia, a partir do ponto de vista islâmico. Khazraji acrescenta que o postulante a aiatolá precisa também estudar história, língua árabe, "dezenas de ciências, das sociais às espirituais".>
"Consequentemente, se tornam amplos conhecedores da jurisprudência teocrática religiosa do islã", completa Ramirez.>
O cientista político explica que, como eles são "os grandes estudiosos" dos textos sagrados, a sociedade xiita automaticamente lhes confere "uma posição de destaque".>
"Além disso, o candidato precisa demonstrar capacidade de interpretação independente, produzindo textos e análises próprias sobre a lei e a doutrina islâmica", acrescenta a professora Barbosa. "O reconhecimento como aiatolá ocorre quando outros estudiosos e a própria comunidade religiosa passam a aceitar sua autoridade intelectual.">
Por conta disso, no meio islâmico, é comum a publicação de livros e obras de referência escritas por aiatolás, materiais estes que englobam os mais diversos temas sob a ótica da religião.>
Khazraji explica que, como a jornada de estudos para se tornar um aiatolá é muito longa, o ambiente familiar é importante. Em geral, são pessoas que já começaram a se dedicar a essa formação desde os 7 ou 8 anos de idade.>
"Não é uma formação acadêmica em que a pessoa vai lá, faz as matérias, tira a nota e recebe o diploma. É um estudo diferenciado. São de 10 a 15 horas de estudos por dia, entre ciências dos homens e ciências daqueles que transmitiram a mensagem do profeta, e uma grande quantidade de disciplinas que os estudiosos precisam dominar", contextualiza.>
Por fim, é necessária a aprovação de um superior. "Quando ele alcança um nível em que as pessoas passam a vê-lo como sábio em suas decisões, em suas palavras, ele começa a procurar seus mestres e perguntar qual o nível se encontra. A aprovação de um mestre é importante para que ele possa se formar aiatolá", pontua Khazraji.>
Barbosa destaca que há subdivisões internas que destacam a proeminência de alguns aiatolás. "Alguns alcançam ainda maior prestígio e recebem o título de grande aiatolá", conta. "Dentro desse grupo, certos estudiosos se tornam marja' al-taqlid, ou seja, referências religiosas seguidas pelos fiéis em questões de fé, prática religiosa e vida cotidiana.">
Há ainda uma especificidade das vestes. "Aiatolá que usa turbante preto é sinal de descendência do profeta Muhammad", pontua ela. A grafia Muhammad é a preferida pelos seguidores para se referir a Maomé, termo mais amplamente utilizado no Brasil após aportuguesamento.>
Segundo a professora Barbosa, isso não significa necessariamente autoridade. É um sinal de conhecimento. "Só chega a aiatolá quem estudou muito a religião islâmica na vertente xiita", diz.>
Não necessariamente, portanto, eles detêm o poder. "A Revolução Iraniana fez esta junção entre religião e política mais claramente", contextualiza Barbosa.>
Ocorrido em 1979, esse movimento político transformou o Irã de monarquia autocrática — alinhada ao Ocidente — em uma república islâmica teocrática. Foi a gênese do formato em que o poder passou a ser ocupado por um aiatolá. O primeiro foi Ruholah Musavi Khomeini (1902-1989), sucedido por Ali Hosseini Khamenei (1939-2026) — executado no último sábado.>
Khamenei nasceu em uma família de clérigos xiitas e começou seus estudos religiosos ainda na infância. Ele estudou no famoso Seminário de Qom. Era reconhecido como marja'.>
No Irã pós-1979, além do chefe de Estado ser um aiatolá, há um grupo de seus pares no entorno, atuando como conselheiros, como explica o cientista político Ramirez.>
"São líderes políticos e religiosos, porque nessa concepção de mundo a teologia islâmica se confunde com a organização política", explica ele.>
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