Publicado em 5 de fevereiro de 2026 às 16:09
O Departamento de Justiça dos Estados Unidos publicou, nos últimos dois meses, milhões de documentos relacionados à sua investigação sobre a rede de tráfico sexual de Jeffrey Epstein (1953-2019).>
Agora, o presidente Donald Trump quer que o país vire a página. Mas será que ele irá conseguir?>
O vice-procurador-geral dos Estados Unidos, Todd Blanche, declarou concluída a revisão governamental dos arquivos de Epstein, ordenada por uma lei aprovada pelo Congresso americano em novembro passado. Por isso, segundo ele, não existem motivos para novas acusações.>
"Existe muita correspondência. Há muitos e-mails. Há muitas fotografias", afirmou Blanche no domingo (1/2).>
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Mas "isso não nos permite necessariamente processar ninguém", destacou ele.>
Mesmo com o término da revisão pelo Departamento de Justiça, a Câmara dos Representantes prossegue com sua própria investigação sobre Epstein.>
O ex-presidente americano Bill Clinton (1993-2001) e a ex-secretária de Estado Hillary Clinton (2009-2013) devem testemunhar no final de fevereiro, depois das ameaças, por parte dos republicanos, de serem declarados em desacato perante o Congresso.>
Paralelamente, os congressistas americanos e as vítimas de Epstein continuam exigindo novas revelações. Eles afirmam que há documentos que não foram incluídos nos arquivos publicados.>
Este é mais um sinal de como se tornou difícil a situação para aqueles que, como o presidente, desejam claramente virar esta página.>
Até o momento, Trump está saindo ileso da tempestade, sem indicações de prejuízos de longo prazo.>
Mas não é o que acontece com outras figuras ricas e poderosas, que tiveram suas conexões com Epstein detalhadas com maior proeminência nos arquivos — e que continuaram mantendo contato com ele muito depois da sua condenação por crimes sexuais, em 2008.>
O ex-príncipe Andrew Mountbatten-Windsor; Peter Mandelson, ex-embaixador britânico nos Estados Unidos; e o ex-secretário do Tesouro americano Larry Summers são exemplos de pessoas que enfrentaram consequências pessoais e profissionais devido aos seus vínculos com Epstein.>
O fundador da Microsoft, Bill Gates, e o multibilionário da tecnologia Elon Musk, entre outros, precisaram dar explicações sobre e-mails e menções dos seus nomes nos documentos publicados.>
Na Casa Branca, Trump declarou na terça-feira (3/2) acreditar que "já está na hora do país se ocupar de outra coisa".>
"Não saiu nada sobre mim", sentenciou Trump. Ele havia negado sistematicamente ter cometido qualquer irregularidade em relação a Epstein.>
Mas isso não é totalmente correto. O nome do presidente aparece nos documentos mais de 6 mil vezes. Epstein e seus associados o mencionavam com frequência.>
Todos os indícios sugerem que Trump e Epstein, ambos com residência em Nova York e West Palm Beach, nos Estados Unidos, mantiveram relação amistosa durante grande parte da década de 1990, até terem se distanciado, segundo Trump, no início dos anos 2000.>
Uma das menções do nome de Trump, em um e-mail publicado em novembro, chamou especificamente a atenção.>
"Quero que você saiba que esse cão que não latiu é Trump", escreveu Epstein no seu e-mail, enviado em 2011 à sua cúmplice hoje condenada, Ghislaine Maxwell.>
"[A vítima] passou horas com ele na minha casa, ele nunca mencionou isso", diz o fragmento.>
No último lote de documentos, o Departamento de Justiça americano também publicou uma lista de denúncias não verificadas pelo FBI. Algumas delas são de 2016, quando Trump estava em plena campanha para seu primeiro mandato (2017-2021).>
As denúncias incluem diversas acusações de abuso sexual contra Trump, Epstein e outras figuras de alto perfil.>
Essas denúncias, muitas delas sem provas que as respaldassem, desapareceram temporariamente do website de documentos do Departamento de Justiça, no sábado passado.>
O ocorrido só serviu para alimentar a suspeita entre alguns setores, de que o órgão do governo estaria trabalhando para proteger o presidente.>
"Alguns dos documentos contêm acusações falsas e sensacionalistas contra o presidente Trump, que foram apresentadas ao FBI pouco antes das eleições de 2020", declarou o Departamento de Justiça sobre estes arquivos específicos.>
O órgão destacou que "as acusações são infundadas e falsas e, se tivessem alguma credibilidade, sem dúvida já teriam sido utilizadas contra o presidente Trump".>
Foram publicadas novas fotografias de Trump, mas nenhuma delas trouxe mais revelações do que as imagens e vídeos que já são de domínio público. E o presidente, conhecido por não usar e-mail, não tem nenhum registro documentado de comunicação direta com Epstein.>
Nenhuma das informações novas contradiz substancialmente a afirmação do presidente de que sua amizade com Epstein terminou perto de 2004.>
O mais similar a uma bomba política (uma nota obscena e sugestiva, que Trump teria supostamente escrito para Epstein para inclusão em um livro de aniversário de 2002) foi publicada pelos administradores do espólio de Epstein, não pelo governo. E Trump negou veementemente sua autenticidade.>
Os democratas defendem que a falta de provas incriminatórias contra Trump poderia significar que o Departamento de Justiça teria retido documentos comprometedores.>
"Você diz que todos os documentos foram publicados", escreveu em comunicado o líder da minoria do Senado, Chuck Schumer.>
"Isso inclui todos os memorandos dos conspiradores, os memorandos de proteção corporativa, os relatórios originais do Departamento de Polícia de Palm Beach etc.? Foram publicados todos os documentos que mencionam a palavra 'Trump'?", questionou ele.>
Uma das vítimas de Epstein, Lisa Phillips, declarou à BBC que ela e outras sobreviventes não ficaram satisfeitas com as ações do Departamento de Justiça sobre o caso.>
"O Departamento violou todas as nossas três exigências", declarou ela.>
"Primeiro, muitos documentos ainda não foram publicados. Segundo, a data definida para a publicação já passou há muito tempo. E, terceiro, o Departamento publicou os nomes de muitas das sobreviventes, o que não está certo.">
"Nosso sentimento é que estão brincando conosco, mas não vamos deixar de lutar", concluiu Phillips.>
Mas a raiva e a frustração entre os partidários de Trump, pela aparente reticência do governo em publicar todos os arquivos de Epstein (talvez a mais forte ameaça à posição política do presidente) parecem ter sido aplacadas com este novo lote de documentos.>
Alguns críticos continuam condenando o presidente, como a ex-congressista republicana Marjorie Taylor Greene. Mas grande parte da base de apoio do presidente parece ter deixado para trás as notícias sobre Epstein.>
Eles dividem sua atenção entre os distúrbios em Minneapolis e a investigação do FBI sobre as acusações de fraude nas eleições presidenciais de 2020 (vencidas por Joe Biden), entre outras notícias de destaque.>
Isso não significa que a história tenha terminado.>
Os democratas alegam obrigações legais e exigem o acesso a versões não editadas de muitos dos documentos publicados. E o testemunho dos Clinton poderá gerar sérias repercussões políticas.>
Novas revelações, independentes das ações do Departamento de Justiça, também poderão reavivar o interesse público.>
Mas talvez o mais importante seja que os democratas no Congresso prometeram emitir citações similares para que Trump e outros republicanos venham a testemunhar, caso obtenham o controle da Câmara dos Representantes nas eleições de meio de mandato, em novembro deste ano.>
O presidente pode insistir que está na hora da nação virar a página. Mas, anos depois da morte de Epstein, esta saga demonstra que ainda tem vida própria.>
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