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Por que Trump está estremecendo a ordem global mais do que qualquer outro presidente desde a 2ª Guerra

Por que Trump está estremecendo a ordem global mais do que qualquer outro presidente desde a 2ª Guerra

As exigências de Trump em relação à Groenlândia representam um 'despertar brutal' em um momento repleto de riscos

Publicado em 21 de janeiro de 2026 às 14:11

Imagem BBC Brasil
null Crédito: Reuters

No primeiro dia, ele avisou o mundo.

"Nada ficará no nosso caminho", declarou Donald Trump, sob aplausos estrondosos, ao encerrar seu discurso de posse em Washington, no dia 20 de janeiro de 2025, quando teve início seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos.

Será que o mundo não prestou atenção suficiente?

Em seu discurso, ele mencionou a doutrina do século 19 do Destino Manifesto — a ideia de que os Estados Unidos foram divinamente ordenados a expandir seu território pelo continente, espalhando os ideais americanos.

Naquele momento, o Canal do Panamá estava em sua mira. "Vamos retomá-lo", Trump anunciou.

Agora, essa mesma declaração, dita com absoluta determinação, é direcionada à Groenlândia.

"Nós temos que tê-la", é o novo mantra. É um momento cheio de riscos graves.

A história dos EUA está repleta de controversas invasões, ocupações e operações secretas para derrubar governantes e regimes.

Mas, no último século, nenhum presidente americano ameaçou tomar um território de um aliado e governá-lo contra a vontade de seu povo.

Nenhum líder americano quebrou tão brutalmente as normas políticas e ameaçou alianças de longa data que sustentam a ordem mundial desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Não há dúvidas de que regras antigas estão sendo quebradas, com impunidade.

Trump agora está sendo descrito como possivelmente o presidente americano mais "transformador" — aplaudido por apoiadores internos e no exterior, causando alarme em outras capitais ao redor do mundo, e com um silêncio vigilante em Moscou e Pequim.

"É uma mudança em direção a um mundo sem regras, onde o direito internacional é pisoteado e onde a única lei que parece importar é a do mais forte, com ambições imperialistas ressurgindo", alertou de forma contundente o presidente francês, Emmanuel Macron, no palco do Fórum Econômico de Davos, sem mencionar Trump diretamente pelo nome.

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Macron chamou atenção para perigos de um 'mundo sem regras' Crédito: EPA/Shutterstock

Anexação da Groenlândia

Há uma preocupação crescente com uma possível guerra comercial, e até mesmo receio, em alguns círculos, de que a aliança militar da Otan, com 76 anos, possa estar em risco se, no pior dos cenários, o comandante dos EUA tente tomar a Groenlândia à força.

Os defensores de Trump estão redobrando o apoio à sua agenda America First, em oposição à ordem multilateral do pós-guerra.

Quando questionado no programa BBC Newshour se a tomada da Groenlândia violaria a Carta da ONU, o congressista republicano Randy Fine disse: "Acho que as Nações Unidas fracassaram completamente em ser uma entidade que apoia a paz no mundo e, francamente, seja qual for a opinião deles, provavelmente fazer o oposto é o certo".

Na semana passada, Fine apresentou no Congresso um projeto chamado "Lei de Anexação e Estadualização da Groenlândia".

Como os aliados apreensivos dos EUA respondem quando parece que nada vai ficar no caminho de Trump?

Muitas frases marcaram esse último ano de contorções diplomáticas sobre a melhor forma de lidar com o imprevisível presidente e comandante dos EUA.

"Precisamos levá-lo a sério, mas não literalmente", dizem aqueles que insistem que tudo isso pode ser resolvido por meio do diálogo.

Já funcionou, mas até um certo ponto, na tentativa de forjar uma resposta unida da Europa à devastadora guerra da Rússia na Ucrânia.

Trump frequentemente oscila, de uma semana para outra, entre adotar posições próximas às da Rússia, depois inclinar-se para a Ucrânia, e então voltar novamente para a órbita russa.

"Ele é um magnata do mercado imobiliário", dizem aqueles que veem nas posições maximalistas de Trump suas táticas de negociação dos tempos em que atuava no ramo imobiliário em Nova York.

Há um eco disso em suas repetidas ameaças de ação militar contra o Irã — embora esteja claro que opções militares ainda estejam em sua mesa, agora repleta de possibilidades.

"Ele não fala como um político tradicional", explica seu principal diplomata, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, quando questionado repetidamente sobre as táticas de Trump.

"Ele diz e depois faz", é o maior elogio que ele faz ao seu presidente, em contraste com o que considera o histórico lamentável dos antecessores.

Rubio tem sido uma das principais vozes tentando amenizar as ameaças de Trump sobre a Groenlândia, ressaltando que ele quer comprar essa vasta camada de gelo estratégica, não invadi-la.

Ele destacou que Trump vem explorando opções para comprar a maior ilha do mundo, como forma de neutralizar as ameaças da China e da Rússia, desde seu primeiro mandato.

Mas não se pode negar as táticas de intimidação de Trump, seu desprezo pela ação coletiva e sua crença de que pode estar certo.

"Ele é um homem de transações e poder bruto, poder ao estilo da máfia", diz Zanny Minton Beddoes, editora-chefe da revista The Economist.

"Ele não vê o benefício de alianças, não vê a ideia da América como uma ideia, um conjunto de valores; ele não dá a mínima para isso."

E ele não esconde isso.

"A Otan não é temida pela Rússia ou pela China. Nem mesmo um pouquinho", disse Trump ao jornal New York Times em uma entrevista abrangente no início deste mês.

"Nós temos um medo tremendo."

Se a questão fosse segurança, os EUA já têm forças em solo groenlandês e, de acordo com um acordo de 1951, poderiam enviar mais tropas e abrir mais bases.

"Preciso possuir isso", é como Trump coloca a questão.

E ele frequentemente deixa claro: "Eu gosto de vencer". Há um número crescente de evidências de que é disso que se trata.

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Bonés com propagandas de oposição à anexação da Groenlândia pelos EUA têm sido vendidos na Dinamarca Crédito: Reuters

'Lavagem de sanidade'

Suas mudanças repentinas de política no último ano têm sido desconcertantes.

Em maio, na capital saudita Riad, vimos como seu principal discurso em sua primeira viagem ao exterior do segundo mandato foi recebido com entusiasmo.

Trump atacou os "intervencionistas" americanos, a quem criticou duramente por terem "destruído muito mais nações do que construíram... em sociedades complexas que nem eles mesmos compreendiam".

Em junho, quando Israel atacou o Irã, Trump supostamente alertou o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, para não colocar sua diplomacia em risco com ameaças militares contra Teerã.

No final da semana, ao ver o sucesso de Israel na execução de cientistas nucleares e chefes de segurança, Trump exclamou: "Acho que foi excelente."

"Lavagem de sanidade" foi a expressão cunhada meses atrás por Edward Luce, do Financial Times, para descrever as representações polidas de Trump ao redor do mundo, a sucessão de líderes batendo à sua porta com presentes brilhantes e elogios exagerados, na tentativa de conquistá-lo.

"Os apologistas de Trump — um grupo mais numeroso do que os verdadeiros crentes — trabalham dia e noite para 'lavar de sanidade' suas políticas e transformá-las em algo coerente", escreveu Luce em sua última coluna.

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Trump se encontrou com o príncipe herdeiro saudita Mohammed Bin Salman em Riad, em maio de 2025 Crédito: Reuters

Isso ficou evidente em outubro passado, quando líderes do mundo todo foram convidados a se juntar a ele no resort egípcio de Sharm El-Sheikh, no Mar Vermelho, para celebrar sua histórica declaração de que "finalmente temos paz no Oriente Médio" pela primeira vez em "3.000 anos".

A primeira fase significativa de seu plano de paz havia resultado em um cessar-fogo desesperadamente necessário em Gaza e na libertação urgente de reféns israelenses.

Foi a diplomacia vigorosa de Trump que forçou Netanyahu, assim como o Hamas, a concordar com isso. Foi um avanço importante que apenas Trump poderia alcançar.

Mas, infelizmente, não foi — infelizmente — a aurora da paz. Ninguém disse ali o que pensava em voz alta.

No ano passado, a abordagem de Trump foi enquadrada como "destino manifesto". Este ano, é a Doutrina Monroe do início do século 19 agora atualizada, desde a invasão da Venezuela, como a "Doutrina Donroe".

O presidente Trump agora é o dono, apoiado por seus fervorosos aliados em sua equipe, com a crença de que os Estados Unidos podem agir livremente em seu quintal — e além dele — para proteger os interesses americanos.

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Benjamin Netanyahu chamou Trump de 'o maior amigo' que Israel já teve na Casa Branca Crédito: Reuters

Às vezes, ele é chamado de isolacionista, às vezes de intervencionista. Mas sempre há aquele slogan que o reconduziu ao poder: Make America Great Again (Faça a América Grande Novamente, na tradução livre para o português).

E sua mensagem ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, destacou sua irritação obsessiva por não ter ganhado o Prêmio Nobel da Paz deste ano.

Trump informou Støre: "Não me sinto mais obrigado a pensar puramente na paz, embora ela sempre seja predominante, mas agora posso pensar no que é bom e apropriado para os Estados Unidos da América."

"É um bom dia para ter um temperamento nórdico", comentou diplomaticamente à reportagem o ministro das Relações Exteriores da Noruega, Espen Barth Eide, quando questionado sobre esse momento.

A Noruega tem se mantido calma, com firmeza inabalável, na defesa da Groenlândia e da Dinamarca, assim como da segurança coletiva no Ártico.

As respostas europeias ainda se espalham por esse terreno político escorregadio.

Macron prometeu lançar a "bazuca comercial" da União Europeia, com contratarifas e restrições ao acesso ao lucrativo mercado europeu.

A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, uma das aliadas europeias mais próximas do presidente americano, falou vagamente sobre um "problema de compreensão e falhas de comunicação".

Já o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, defendeu de forma firme e pública a integridade territorial da Groenlândia, mas quer proteger o forte vínculo pessoal que construiu ao longo do último ano, evitando tarifas retaliatórias.

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Keir Starmer tem mantido uma relação amplamente cordial com Trump desde o início do segundo mandato do presidente americano Crédito: Reuters

Trump não está mais se preocupando em manter aparências diplomáticas ao divulgar mensagens privadas que tem recebido de líderes que recorrem às velhas ferramentas da diplomacia para tentar mantê-lo ao seu lado.

"Vamos jantar juntos em Paris na quinta-feira, antes de você voltar para os EUA", sugeriu o presidente francês, que também questionou, em meio a elogios a outros sucessos na política externa: "Não entendo o que você está fazendo na Groenlândia".

"Mal posso esperar para te ver", escreveu o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, que certa vez chamou Trump de "papai" por sua condução enérgica da guerra de 12 dias entre Irã e Israel no ano passado.

Rutte e outros têm atribuído as ameaças diretas de Trump ao fato de os membros da Otan terem sido forçados a aumentar significativamente seus gastos com defesa nos últimos anos.

Os alertas de Trump, que remontam ao seu primeiro mandato, aceleraram uma tendência já defendida por presidentes americanos anteriores e iniciada pelos próprios membros da Otan, sob a sombra das ameaças russas.

Do outro lado do Atlântico, o país que há muito tempo viveu à sombra dos Estados Unidos tem tentado trilhar um caminho diferente, embora com seus próprios desafios.

"Temos que encarar o mundo como ele é, não como gostaríamos que fosse", foi a reflexão sincera do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, em sua viagem à China na semana passada.

Foi a primeira visita de um líder canadense a Pequim desde 2017, após anos de forte tensão, e enviou um sinal claro deste mundo em rápida transformação.

A surpreendente ameaça de Trump de anexar seu vizinho ao norte voltou a surgir nesta semana em uma publicação nas redes sociais que mostrava o hemisfério ocidental — incluindo o Canadá e a Groenlândia — coberto por estrelas e listras (da bandeira americana).

Os canadenses sabem que ainda correm risco de serem os próximos.

Carney, ex-banqueiro central, chegou ao cargo mais alto do Canadá no ano passado impulsionado pela crença dos canadenses de que ele era o mais preparado para enfrentar Trump.

Ele respondeu "dólar por dólar" desde o início, impondo tarifas retaliatórias — até que isso se tornou doloroso demais para a economia canadense, muito menor, que envia mais de 70% de seu comércio para o sul da fronteira.

Quando Carney subiu ao palco em Davos na terça-feira, ele também se concentrou nessa conjuntura perturbadora.

"A hegemonia americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos, rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a estruturas para a resolução de disputas", disse ele, acrescentando categoricamente:

"Estamos em meio a uma ruptura, não a uma transição."

Nesta quarta-feira (20/1), Trump discursará no mesmo pódio, com o mundo inteiro assistindo.

Questionado pelo New York Times neste mês sobre o que poderia impedi-lo, Trump respondeu: "Minha própria moralidade. Minha própria mente. É a única coisa que pode me deter."

É isso que está por trás de uma legião de aliados que agora buscam persuadi-lo, bajulá-lo, forçá-lo a mudar de ideia.

Desta vez, não há certeza de que eles terão sucesso.

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