Publicado em 30 de março de 2025 às 09:44
O forte terremoto de magnitude 7,7 em Mianmar que aconteceu na sexta-feira (28/3) deixou milhares de mortos e feridos, além de causar o colapso de inúmeras casas e prédios.>
Embora o país do Sudeste Asiático seja uma região de alto risco para abalos sísmicos, os países vizinhos, como Tailândia e China — que também foram afetados pelo terremoto — não são.>
A capital tailandesa, Bangkok, fica a mais de mil km do epicentro do terremoto de sexta-feira, mas um edifício alto em construção naquela cidade desabou após o tremor.>
Nesta reportagem, explicamos o que causou esse poderoso terremoto e como ele teve desdobramentos sérios tão longe do epicentro.>
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A camada superior da Terra é dividida em diferentes seções chamadas placas tectônicas, que estão em constante movimento. >
Algumas delas se movem lateralmente, enquanto outras se mexem uma em cima da outra (ou abaixo).>
E é justamente esse movimento que causa os terremotos e a formação de vulcões.>
Mianmar é considerada uma das áreas geologicamente mais ativas do mundo porque fica na convergência de quatro dessas placas: as microplacas Eurasiática, Indiana, Sonda e Birmânia.>
O Himalaia foi formado pela colisão da placa Indiana com a placa Eurasiática. >
O tsunami de 2004 foi uma consequência do movimento da placa Indiana sob a microplaca da Birmânia.>
Rebecca Bell, que pesquisa placas tectônicas no Imperial College London, no Reino Unido, explica que, para acomodar todo esse movimento, falhas (ou rachaduras na rocha) se formam, o que permite o deslizamento das placas tectônicas para os lados.>
Há uma grande falha chamada Falha de Sagaing, que se estende de norte a sul em Mianmar e tem mais de 1,2 mil km de extensão.>
Dados preliminares sugerem que o movimento que causou o terremoto de sexta-feira foi do tipo "deslizamento lateral", em que dois blocos se movem horizontalmente um ao lado do outro.>
Isso está de acordo com o tipo de movimento característico da Falha de Sagaing.>
Quando as placas deslizam umas sobre as outras, elas podem ficar presas, o que aumenta o atrito até que ele seja repentinamente liberado. Isso faz com que o solo se mova e aconteça um terremoto.>
Terremotos podem ocorrer até 700 km abaixo da superfície.>
Mas o terremoto de sexta-feira aconteceu a uma profundidade de apenas 10 km, o que o torna um terremoto muito superficial. >
Isso, por sua vez, aumenta a quantidade de tremores na superfície do solo.>
Além disso, esse terremoto foi muito grande, com magnitude de 7,7 na escala de movimento sísmico. >
De acordo com o Serviço Geológico dos EUA (USGS), ele liberou mais energia do que a bomba atômica lançada sobre Hiroshima.>
O tamanho do terremoto está relacionado ao tipo de falha onde ele aconteceu, ensina Bell.>
"A natureza reta da Falha de Sagaing permite que os terremotos se propaguem por grandes áreas e, quanto maior a área da falha que desliza, maior o terremoto", diz ela.>
"Houve seis terremotos de magnitude 7 ou maior nesta região no último século", lembra a pesquisadora.>
Essa falha reta também significa que grande parte da energia pode ser transmitida ao longo de sua extensão, que se estende 1,2 mil km ao sul, em direção à Tailândia.>
A forma como os terremotos são sentidos também depende do tipo de solo em que eles acontecem.>
Em solos macios — como aqueles sob os quais Bangkok foi construída — as ondas sísmicas (as vibrações da Terra) desaceleram e se acumulam, o que aumenta o tamanho do problema.>
Portanto, a geologia de Bangkok teria intensificado o tremor do solo.>
Embora tenham surgido imagens chocantes de prédios altos em Bangkok que balançaram durante o terremoto — e até mesmo tiveram o vazamento de água de piscinas localizadas no terraço — a sede inacabada do Gabinete do Auditor Geral no distrito de Chatuchak, em Bangkok, parece ser o único arranha-céu a ter desabado completamente.>
De acordo com Christian Málaga-Chuquitaype, professor-sênior de engenharia de terremotos do Imperial College London, antes de 2009 Bangkok não tinha regulamentações de segurança abrangentes para edifícios resistentes a terremotos.>
Isso significa que edifícios mais antigos seriam particularmente vulneráveis.>
Tal fato não é incomum, pois prédios resistentes a terremotos tendem a ser mais caros — e a Tailândia, diferentemente de Mianmar, não sofre terremotos com frequência.>
Emily So, professora de engenharia arquitetônica na Universidade de Cambridge, também no Reino Unido, observa que edifícios mais antigos podem ser reforçados, e que isso já foi feito em lugares como a Califórnia, nos EUA, o oeste do Canadá e a Nova Zelândia.>
O professor Amorn Pimarnmas, presidente da Associação de Engenheiros Estruturais da Tailândia, conta que, embora existam regulamentações de construção resistentes a terremotos em 43 províncias do país, estima-se que menos de 10% dos edifícios sejam realmente capazes de aguentar terremotos.>
Entretanto, o edifício que desabou era novo — na verdade, ainda estava em construção quando o terremoto ocorreu — e, portanto, as regulamentações atualizadas tiveram que ser aplicadas na obra.>
Pimarnmas avalia que o solo macio de Bangkok também pode ter desempenhado um papel no colapso, pois isso amplifica os movimentos sísmicos de três a quatro vezes.>
"No entanto, há outras variáveis a serem consideradas, como a qualidade dos materiais (concreto, vigas e colunas de metal) e quaisquer possíveis irregularidades no sistema estrutural. Tudo isso ainda precisa ser investigado em detalhes", acrescenta ele.>
Após analisar o vídeo do desabamento do edifício, Málaga-Chuquitaype entende que aparentemente a obra tinha um sistema de construção em "laje plana", um método que não é mais recomendado em áreas propensas a terremotos.>
"Um sistema de laje plana envolve a construção de edifícios onde os pisos repousam diretamente sobre colunas, sem o uso de vigas", explica ele.>
"É como uma mesa apoiada apenas nas pernas, sem nenhum suporte horizontal adicional por baixo.">
"Embora esse projeto tenha vantagens econômicas e arquitetônicas, seu desempenho durante terremotos é ruim e ele frequentemente falha de forma repentina, quase explosivamente", complementa o especialista.>
Mandalay, em Mianmar, ficava muito mais perto do epicentro do terremoto, então deve ter sofrido tremores consideravelmente mais fortes do que o registrado em Bangkok.>
Embora Mianmar sofra terremotos regularmente, Ian Watkinson, professor de ciências da terra na Royal Holloway University, no Reino Unido, acredita que é improvável que muitos edifícios sejam construídos de acordo com padrões de resistência a terremotos.>
"A pobreza generalizada, grandes convulsões políticas e outros desastres — por exemplo, o tsunami do Oceano Índico em 2004 — desviaram a atenção do país dos riscos imprevisíveis associados aos terremotos", lista ele.>
"Isso significa que, em muitos casos, os códigos de projeto estrutural não são aplicados e a construção é realizada em áreas que podem representar um risco sísmico maior, como planícies de inundação ou encostas íngremes.">
Alguns edifícios de Mandalay também estão localizados na planície de inundação do Rio Irauádi, o que os torna altamente vulneráveis a um fenômeno chamado liquefação.>
Isso ocorre quando o solo tem alto teor de água — e a agitação faz com que os sedimentos percam a firmeza e se comportem como um líquido. >
Esse fenômeno aumenta o risco de deslizamentos de terra e desabamentos de edifícios, pois o solo não consegue mais suportá-los.>
Emily So alerta que "sempre há a possibilidade" de mais danos a edifícios próximos a uma falha por causa de tremores secundários — os choques que ocorrem após o terremoto principal e que podem ser causados pela transferência repentina de energia para rochas próximas.>
"Na maioria das vezes, os tremores secundários são menores que o choque principal e tendem a diminuir em tamanho e frequência ao longo do tempo", alerta ela.>
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