Publicado em 14 de março de 2026 às 12:36
Kaley ficava no Instagram até pegar no sono. Ela acordava no meio da noite para checar as notificações. Abria o aplicativo assim que acordava. Um dia, passou 16 horas nessa rede social.>
"Parei de interagir com minha família porque passava todo o meu tempo nas redes sociais", relatou Kaley a um júri em Los Angeles, nos EUA, durante um processo histórico contra a Meta e o Google, duas das maiores empresas do mundo.>
O TikTok e o Snapchat, que também foram citados no processo original, fizeram um acordo extrajudicial.>
Conhecida apenas por seu primeiro nome, ou as iniciais KGM, para proteger sua privacidade, a história de Kaley se tornou o caso exemplar para mais de 2 mil processos semelhantes que buscam responsabilizar as empresas de redes sociais pelos supostos danos à saúde mental de seus usuários mais jovens.>
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Esse é o primeiro julgamento do tipo, e ele é acompanhado de perto por especialistas jurídicos e pais que acreditam que seus filhos foram prejudicados, até mesmo levados ao suicídio, por causa das redes sociais.>
Lori Schott passou vários dias de olho no julgamento em Los Angeles, apesar de não ter participado do processo. >
Sua filha Annalee tirou a própria vida aos 18 anos, uma tragédia que Schott atribui à forma como o Instagram a expôs a conteúdos psicologicamente prejudiciais, apesar de a empresa supostamente saber o que essas postagens poderiam causar aos jovens.>
"Eles esconderam as evidências que tinham. Sabiam que era viciante. Nos deram uma falsa sensação de segurança", disse Schott, descrevendo à BBC o que aprendeu com o julgamento. >
"A equipe de relações públicas deles parecia apenas tentar nos convencer de que o mundo era um mar de rosas.">
O cerne desse caso reside em saber se Kaley era viciada em redes sociais — e se as empresas de redes sociais projetaram as plataformas justamente para serem viciantes. >
Caso isso se confirme, o júri precisará decidir o que as empresas devem a jovens como Kaley, que podem ter sido prejudicadas por causa disso.>
O que está em jogo neste julgamento, para a Meta, o Google e outras plataformas de redes sociais, é muito importante.>
A maioria das questões legais do caso, principalmente a de que as plataformas de redes sociais são viciantes para jovens usuários e foram projetadas intencionalmente para serem assim, são "completamente inéditas", como afirmou a juíza Carolyn Kuhl diversas vezes ao longo do julgamento.>
O resultado pode ser tão potencialmente controverso que o próprio Mark Zuckerberg, bilionário cofundador e CEO da Meta, proprietária do Instagram, Facebook e WhatsApp, compareceu pessoalmente para defender as suas plataformas. >
Foi a primeira vez que ele prestou um depoimento do tipo diante de um tribunal, apesar de sua empresa ter sido processada centenas de vezes no passado.>
Se o júri decidir a favor de Kaley, isso abalaria décadas de precedentes legais e culturais que trataram as plataformas como meros repositórios da natureza humana. >
Isso também abriria caminho para possíveis acordos históricos a serem pagos por empresas como a Meta.>
Milhares de outros casos semelhantes ao de Kaley, que atualmente tramitam no sistema judicial dos EUA, serão inevitavelmente influenciados pelo resultado deste julgamento inédito.>
Mesmo que o júri de Los Angeles não considere a Meta ou o Google culpados no caso de Kaley, a pressão pública e política contra as grandes empresas de tecnologia tem aumentado nos últimos anos.>
Essas empresas, em geral, não têm responsabilidade legal em relação aos seus usuários, mas uma onda de adolescentes diagnosticados com sérios problemas de saúde mental e um aumento nos episódios de suicídios entre crianças levaram pais e governos a começar a proibir o uso de mídias sociais para os mais jovens.>
Eles dizem que as plataformas expõem as crianças a tudo, desde padrões de beleza inatingíveis até predadores sexuais.>
Aaron Ping também tem acompanhado o julgamento de perto. >
Seu filho, Avery, tirou a própria vida aos 16 anos. Ele descreveu à BBC a história de um menino que passou de um "companheiro de aventuras" a alguém com quem frequentemente brigava por causa do uso excessivo do YouTube.>
"Elaboramos um acordo sobre o tempo de tela com os orientadores da escola, e definimos o que ele precisava fazer para obter a quantidade de tempo de tela permitida", disse Ping.>
A Meta e o YouTube não responderam a um pedido da BBC por um posicionamento a respeito das experiências de Schott e Ping.>
Kaley explicou no tribunal que começou a usar o YouTube aos seis anos. Aos nove, ela tinha uma conta no Instagram.>
A Meta afirma proibir o acesso de usuários menores de 13 anos a qualquer uma de suas plataformas, enquanto o YouTube oferece versões diferentes de sua plataforma para crianças, como o YouTube Kids.>
Kaley logo criou dezenas de contas em ambas as plataformas, numa tentativa de gerar curtidas e interações com o conteúdo que publicava — selfies no Instagram e vídeos cantando no YouTube. >
Ela queria se sentir querida e valorizada.>
Quando não publicava o próprio conteúdo, ela passava horas no Instagram e no YouTube consumindo vídeos e fotos de outras pessoas. >
Ela começou a sair menos de casa e a ter dificuldade para interagir com outras pessoas presencialmente.>
Quando tinha cerca de 10 anos, Kaley se lembra de ter os primeiros sentimentos de ansiedade e depressão, transtornos que seriam diagnosticados anos depois por um profissional da saúde.>
Ela também começou a ficar obcecada com a aparência física e passou a usar filtros do Instagram que alteravam o rosto e o corpo, em busca de um nariz menor, olhos maiores, maquiagem...>
Desde então, Kaley foi diagnosticada com dismorfia corporal, uma condição em que as pessoas se preocupam excessivamente com a aparência física e não se enxergam como os outros as veem.>
Questionada por seu advogado, Mark Lanier, se ela havia sofrido com esses sentimentos antes de estar nas redes sociais, Kaley relatou que "não, não sofria".>
A Meta defende que os problemas de saúde mental de Kaley decorrem de sua vida pessoal e criação, e não podem ser atribuídos ao uso do Instagram.>
Adam Mosseri, chefe do Instagram, testemunhou no tribunal que mesmo 16 horas de uso da rede social não pareceram a ele um vício ou uma dependência. >
Em vez disso, Mosseri referiu-se a alguém que passasse quase um dia inteiro nas redes sociais como algo "problemático".>
Quando Mark Zuckerberg testemunhou, após ser escoltado para o tribunal cercado por quatro seguranças pessoais, ele repetiu várias vezes que sua empresa sempre teve uma política que proibia usuários menores de 13 anos.>
Questionado sobre vários documentos internos da empresa fornecidos como parte do processo, nos quais executivos da Meta discutiam os milhões de crianças que usam o Instagram e o Facebook, e até elogiavam e planejavam aumentar o uso entre crianças, Zuckerberg pareceu ficar frustrado.>
"Não vejo por que isso é tão complicado", disse o bilionário em um dado momento.>
"Tem sido nossa política consistente que eles [menores de 13 anos] não são permitidos e tentamos removê-los. Não somos perfeitos", complementou ele. >
Os advogados de Kaley pressionaram Zuckerberg sobre a alegação de que o único objetivo da Meta era criar plataformas úteis — algo que, segundo eles, naturalmente leva a um maior uso das redes sociais.>
Lanier disse que a dependência também leva as pessoas a usarem algo com mais frequência, e Zuckerberg pareceu, por um momento, não saber o que dizer.>
"Não sei o que dizer sobre isso", disse o CEO da Meta. >
"Acho que pode ser verdade, mas não sei se se aplica. Estou tentando construir um serviço.">
O foco dos advogados de Kaley no vício em redes sociais pode ser um argumento difícil de sustentar, já que a condição não existe oficialmente nos manuais de Medicina.>
Quando os advogados da Meta conversaram com uma terapeuta que havia tratado Kaley, ela admitiu nunca ter diagnosticado sua paciente com dependência em redes sociais.>
Os argumentos da Meta se concentraram principalmente na vida familiar de Kaley, e às vezes fazem referência às próprias postagens dela no Instagram, ao mostrar uma garota que lidava com pais instáveis, críticos de sua aparência e, por vezes, abusivos emocional, verbal e fisicamente. >
A principal questão levantada pela empresa perante o júri foi que os problemas de saúde mental de Kaley não são claramente causados pelo uso das redes sociais, e muitos outros fatores também são responsáveis pela história de vida dela.>
Hoje, Kaley relata ter um relacionamento amoroso com a mãe e que trabalha enquanto segue os estudos.>
Ela ainda continua a usar as redes sociais — e até admitiu ao tribunal que estaria interessada em seguir uma carreira de gestão de mídias sociais.>
Porém, quando perguntada se sua vida seria melhor se ela nunca tivesse usado plataformas como o Instagram, a resposta de Kaley foi curta:>
"Sim.">
Katy Bailes, Peter Bowes e Regan Morris contribuíram para esta reportagem.>
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