Publicado em 14 de março de 2026 às 15:36
O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, informou na sexta-feira (13/3) que seu país e os Estados Unidos iniciaram conversas em meio à grave crise econômica que atravessa a ilha, em um momento de pressão cada vez maior do governo Donald Trump sobre Havana.>
O anúncio confirma as recentes informações sobre possíveis contatos entre os dois países, que trouxeram a público uma figura até então pouco conhecida.>
Trata-se de Raúl Guillermo Rodríguez Castro, de 41 anos. Conhecido como "Raulito" e El Cangrejo ("O Caranguejo", em espanhol), ele é neto, braço direito e guarda-costas do ex-presidente cubano Raúl Castro, de 94 anos — e sobrinho-neto de Fidel Castro, líder da Revolução Cubana.>
"Raulito" não ocupa nenhum cargo no governo Díaz-Canel, mas alguns órgãos de imprensa indicam que ele seria o interlocutor de Cuba em reuniões confidenciais realizadas com assessores do secretário de Estado americano, Marco Rubio. Havana não desmentiu explicitamente esta informação.>
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Raúl Guillermo Rodríguez Castro aparece sentado atrás de Díaz-Canel, entre funcionários do Partido Comunista, no vídeo do pronunciamento de sexta-feira. O mandatário declarou que o objetivo das conversas é "buscar soluções pela via do diálogo para as diferenças bilaterais que temos entre as duas nações".>
Anteriormente, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que seu governo está "conversando" com autoridades cubanas e sugeriu a possibilidade de uma "tomada amistosa" do controle da ilha, que, segundo ele, "não tem energia, não tem dinheiro" e enfrenta sérios problemas humanitários.>
Os órgãos de imprensa que noticiaram supostos contatos antes da confirmação desta sexta-feira indicaram que um desses encontros teria ocorrido em fevereiro, à margem de uma reunião de líderes caribenhos em São Cristóvão e Névis, onde assessores de Marco Rubio teriam se reunido com o neto do histórico dirigente cubano.>
Do lado americano, o congressista republicano Mario Díaz-Balart declarou que o governo dos Estados Unidos conversou com "diversas pessoas do entorno de Raúl Castro", mas que não se tratava de negociações oficiais.>
A menção do nome de Raúl Guillermo como interlocutor pela parte cubana colocou em evidência o peso do sobrenome Castro em uma opaca elite política, na qual os equilíbrios internos de poder continuam sendo um mistério.>
Mas quem é Raúl Guillermo Rodríguez Castro? E qual é o seu papel na estrutura do regime comunista de Cuba?>
Fidel Castro (1926-2016) concentrou o poder em Cuba por décadas, como líder absoluto do sistema político comunista instaurado após a Revolução Cubana de 1959, que segue em vigor na ilha.>
Oito anos antes de morrer, Fidel passou o poder para seu irmão mais novo, Raúl Castro.>
"Fidel havia mantido a família bastante afastada", explica à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, o cientista político e historiador cubano Armando Chaguaceda.>
"Fidel era ele e ponto. A família ficava de fora. Mas, com Raúl, os familiares adquiriram maior notoriedade.">
Raúl Guillermo Rodríguez Castro, o "Caranguejo", é filho de Déborah Castro Espín, a mais velha dos quatro filhos de Raúl Castro, e do ex-general de divisão Luis Alberto Rodríguez López-Calleja (1960-2022), uma das figuras mais influentes do regime cubano.>
Rodríguez López-Calleja dirigia o conglomerado empresarial militar Gaesa, uma holding que controla amplos setores da economia da ilha, do turismo e do comércio varejista até as remessas financeiras e serviços portuários.>
Seu filho Raúl Guillermo foi o primeiro neto de Raúl Castro. O ex-presidente manteve com ele uma relação especialmente próxima desde a infância, como revela à BBC seu primo do lado paterno, Carlos Rodríguez Halley, que é três anos mais novo.>
"Por ser o primogênito dos netos de Raúl Castro, Raulito sempre foi muito apegado ao avô", ele conta. "Muito novo, quando tinha 11 anos e estava na sexta série, foi morar com ele.">
A decisão foi importante dentro da família. Afinal, ela fez com que o jovem crescesse ao lado do então líder cubano e contribuiu para consolidar um vínculo que, com o tempo, facilitaria sua integração ao círculo de poder.>
"Nem mesmo seu pai esteve muito presente", segundo o primo. "Seu pai trabalhava muito e, desde que ele era muito jovem, eles apenas se viam.">
Raúl Guillermo seguiu uma formação que combinava educação civil e militar.>
Ele estudou na escola conhecida como Los Camilitos, uma instituição que prepara os jovens cubanos para carreiras nas forças armadas. Posteriormente, ele cursou contabilidade e finanças na Universidade de Havana.>
Seu primo descreve "Raulito" como alguém que cresceu em uma bolha.>
"Ele foi criado em um ambiente muito específico, sempre rodeado de jovens militares que eram trazidos do campo e doutrinados nas forças armadas", conta Rodríguez Halley. "Estes homens eram o seu entorno.">
Ele destaca que, da mesma forma que os outros netos de Raúl Castro, Raúl Guillermo cresceu em entorno privilegiado, com pouco contato com a vida cotidiana de um país atingido por décadas de escassez e deterioração dos serviços públicos.>
Seu apelido El Cangrejo surgiu quando ele era criança, dentro da própria família, por ter nascido com polidactilia.>
"Ele nasceu com seis dedos", conta o primo. "Foi operado quando era muito pequeno e ficou uma cicatriz que, agora, quase não se nota.">
Em termos de personalidade, Rodríguez Halley o descreve como um homem "tímido no seu ambiente mais fechado, mais familiar, mas que também projeta uma imagem pública de extroversão em certos ambientes".>
Raúl Alejandro foi casado mais de uma vez e tem duas filhas, segundo fontes próximas.>
Raúl Castro transferiu a presidência de Cuba para Díaz-Canel em 2018 e se retirou formalmente da primeira linha da política em 2021. Mas muitos analistas consideram que ele mantém intacto seu poder de decisão no aparato político e nas forças armadas.>
O cientista político Chaguaceda destaca que, em um sistema fechado como o cubano, a proximidade pessoal com a figura que concentra o poder pode ser um fator decisivo.>
"A elite está concentrada em um pequeno grupo de anciãos envelhecidos, militares ou civis, que fazem parte do setor político", explica ele. "E há um componente familiar, que é a família de Raúl Castro.">
Por isso, a influência do "Caranguejo" teria origem, mais que em uma trajetória política própria, na mencionada proximidade com seu avô, segundo especialistas e fontes próximas.>
Diferentemente do seu pai, um general que se destacou pela sua notável trajetória acadêmica e militar, Raúl Alejandro Rodríguez Castro não foi particularmente brilhante nos estudos nem na sua carreira no exército.>
De qualquer forma, sua única ocupação conhecida é a de guarda-costas do próprio Raúl Castro.>
"Os militares com quem ele cresceu eram sua referência, a ponto de ele próprio ter decidido que queria ser guarda pessoal do avô", explica seu primo.>
Diversas fontes posicionam Raúl Guillermo como alto funcionário do Ministério do Interior de Cuba, com patente de tenente-coronel ou coronel, sempre vinculado à segurança pessoal de Raúl Castro.>
Relatos mencionados pelo BBC Monitoring (o serviço de monitoramento da BBC) indicam que seu avô o teria promovido em 2016 a chefe da Direção Geral de Segurança Pessoal, uma unidade chave do aparato de segurança cubano, encarregada de proteger os dirigentes do país.>
Desde então, sua presença ao lado do ex-presidente se tornou habitual.>
Fotografias e vídeos difundidos pela imprensa estatal cubana mostram frequentemente Raúl Alejandro ao lado do avô em atos oficiais, reuniões ou viagens ao exterior. Ele costuma aparecer vestido com uniforme verde-oliva e óculos escuros.>
Em algumas ocasiões, ele é visto um passo atrás de Raúl Castro ou inclinado na sua direção, aparentemente transmitindo informações ou orientando o ex-presidente durante atos públicos.>
Este papel o coloca em uma posição singular dentro do sistema político cubano. "Raulito" controla o acesso físico ao histórico ex-dirigente e participa da logística, segurança e organização dos seus deslocamentos.>
Da mesma forma que os outros netos do ex-presidente, Raúl Alejandro também desperta atenção devido às informações que o vinculam ao privilegiado estilo de vida da elite governante de Cuba, diferente das dificuldades econômicas enfrentadas pela maioria da população da ilha.>
Sua vida social nos últimos anos foi marcada, segundo fontes próximas, pela sua proximidade com a elite esportiva e cultural de Cuba.>
"Como qualquer cubano, ele era fanático por beisebol", recorda seu primo.>
"Mas, claro, ele não ia ao beisebol, como eu e você, para se sentar e assistir a uma partida. Ele andava com os melhores jogadores.">
"No seu primeiro casamento, estavam todos os artistas da [banda] Charanga Habanera; também estavam Alexander e o outro músico do [grupo] Gente de Zona", ele conta, em referência a dois populares grupos musicais cubanos.>
A falta de informação sobre Raúl Guillermo é um fato comum quando se tenta analisar o funcionamento interno do poder em Cuba.>
"Sempre foi um sistema muito opaco e o que se sabe é pouco mais do que especulação", afirma Armando Chaguaceda.>
A aparente participação de Raúl Guillermo Castro nos contatos com Washington também trouxe de volta uma questão mais ampla: quem realmente toma as decisões em Cuba?>
Fontes mencionadas pelo jornal americano Miami Herald indicam que os contatos do governo Donald Trump não se limitaram a um único interlocutor, mas sim a "diversas pessoas do entorno de Raúl Castro", incluindo familiares e altos militares.>
Neste sentido, o presidente cubano, Díaz-Canel, afirmou na sexta-feira estar à frente dos diálogos por parte de Cuba, ao lado de Raúl Castro e de outros altos funcionários do Partido Comunista e do governo.>
Díaz-Canel não detalhou quem faz parte da delegação americana.>
O congressista americano Mario Díaz-Balart comparou estes diálogos com os contatos anteriores entre Washington e o governo da Venezuela, antes da captura do presidente Nicolás Maduro, no dia 3 de janeiro.>
Segundo as mesmas fontes, não se trataria de negociações formais, mas de intercâmbios sobre possíveis mudanças econômicas e políticas na ilha.>
O governo americano aumentou, nos últimos meses, as pressões sobre Cuba, que já atravessava a maior crise econômica e energética das últimas três décadas.>
Washington interrompeu o fornecimento de petróleo procedente da Venezuela, um tradicional parceiro e fornecedor do regime cubano. E ameaçou impor tarifas de importação aos países que fornecerem combustível para a ilha.>
Paralelamente, setores da diáspora cubana em Miami, no Estado americano da Flórida, expressaram preocupações com a possibilidade de que Washington permita a manutenção da família Castro e seu entorno no poder.>
Sobre esta possibilidade, Díaz-Balart afirmou que "o conceito de 'Raúl sem Raúl' não é aceitável para este governo". Ele faz referência à possibilidade de que outros membros da família, incluindo o "Caranguejo", continuem controlando o país após um possível acordo.>
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