Publicado em 3 de fevereiro de 2026 às 06:09
Quando se formou engenheira de produção pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), Letícia Lemos Martins pensava que nunca voltaria a morar em Passos, sua cidade natal no Sul de Minas, com 112 mil habitantes, segundo o último Censo.>
"Sempre imaginei que eu ia morar em algum grande centro, que ia arrumar um emprego legal e ficar por lá. Então, voltar para Passos não estava nos meus planos, mas eu tinha vontade, porque toda minha família está aqui, todas as pessoas que eu amo", conta a mineira de 26 anos.>
Os planos de Letícia mudaram quando ela soube que a fabricante de bebidas Heineken abriria uma nova fábrica em sua cidade natal. Inaugurada em novembro de 2025, com um investimento de R$ 2,5 bilhões, a cervejaria gerou mais de 2,2 mil empregos na fase de obras e emprega atualmente 350 pessoas, segundo a empresa.>
"Queria trabalhar numa multinacional, que é o sonho do engenheiro de produção. Então, surgiu a oportunidade de voltar para casa, e eu agarrei essa oportunidade.">
>
A chance de Letícia conciliar um sonho profissional com o desejo de morar perto da família foi possível devido a uma tendência crescente na indústria brasileira: a interiorização.>
Em 1985, dois terços dos empregos no setor estavam nas capitais e regiões metropolitanas, e um terço, no interior do país. >
Passadas quase quatro décadas, em 2022, a maioria dos empregos industriais brasileiros (54,4%) já estavam no interior, segundo dados do governo federal.>
A inversão da prevalência, com o interior dos Estados superando as regiões metropolitanas com a maioria dos empregos industriais em nível nacional, aconteceu em 2014 e vem ganhando força ano após ano.>
Entre os Estados com maior número de empregos na indústria de transformação, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Ceará e Bahia tiveram os movimentos de interiorização mais significativos nas últimas quatro décadas, com movimentos mais leves em Santa Catarina e Paraná, revela estudo recém-publicado pelo Núcleo de Economia Regional e Urbana da Universidade de São Paulo (Nereus/USP), de autoria dos economistas Paulo Morceiro e Milene Tessarin.>
>
Morceiro e Tessarin utilizaram dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) para analisar o peso da indústria no emprego formal total do Brasil.>
Eles traçaram um retrato inédito da contribuição das diferentes esferas geográficas na desindustrialização do Brasil, com uma série de dados longa e contínua, de 1985 a 2022 — e confirmaram com números uma "neoindustrialização" do país puxada pelas cidades do interior.>
Os dados mostram, por exemplo, que cresceu a representatividade dos Estados do Centro-Oeste na produção industrial, puxada pelo agronegócio, enquanto três regiões metropolitanas com forte tradição no setor (São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre) foram responsáveis sozinhas por 70% da desindustrialização que o Brasil sofreu nas últimas décadas.>
>
Segundo os economistas da USP, a participação no emprego total do Brasil da indústria de transformação — aquela que transforma matérias-primas em produtos, diferentemente da indústria extrativa, focada na retirada de recursos da natureza, como mineração e petróleo, por exemplo — diminuiu de 27,7% para 15,1% entre 1986 e 2022.>
Esse movimento de desindustrialização aconteceu em duas fases: uma mais intensa, de 1986 (ano do auge da industrialização no Brasil, quando a parcela da indústria no emprego atingiu seu máximo) a 1998, e uma mais branda, de 2008 a 2022.>
A fase mais intensa foi impulsionada por diversos fatores, pontuam os economistas.>
Em primeiro lugar, eles citam a redução do investimento público em infraestrutura e estatais como parte de um esforço para conter a explosão da dívida externa herdada da ditadura militar, enfraquecendo o que havia sido até então um dos pilares da industrialização nacional.>
A hiperinflação que o país enfrentava neste período inibiu investimentos empresariais ao impactar o consumo das famílias e gerar muita incerteza entre os empresários quanto à estabilidade econômica.>
A súbita abertura comercial promovida pelo governo federal nos anos 1990 e a valorização da moeda brasileira com a implementação do Plano Real expôs a indústria nacional — até então, excessivamente protegida, na visão dos economistas — à competição estrangeira, sem uma fase de adaptação. >
A combinação desses fatores levou à eliminação de 1,67 milhão de postos de trabalho na indústria entre 1989 e 1998, resultando em uma redução de 27,2% no estoque de emprego formal do setor, mostra o estudo.>
Já a fase mais recente começou com a crise financeira mundial de 2008 e foi impactada ainda pelo baixo crescimento do Brasil neste século, pelo avanço da China nas exportações mundiais de manufaturados e pela recessão econômica de 2015 e 2016, fatores que ampliaram a competição com importados e inibiram investimentos no setor industrial, devido ao enfraquecimento do consumo. >
Nesse cenário, tanto capitais e regiões metropolitanas, como o interior dos Estados, se desindustrializaram nas últimas quatro décadas, com a indústria perdendo participação no total de empregos formais.>
Mas, no interior, essa desindustrialização foi mais branda, especialmente no Estado de São Paulo, o maior polo industrial do país, mostram os economistas.>
>
Segundo Morceiro, parte desse fenômeno é explicado por uma crescente concentração populacional e sobrecarga da infraestrutura de áreas urbanas, que eleva os custos operacionais das indústrias, criando desvantagens que superaram os benefícios de se estar em áreas densamente ocupadas.>
Isso levou a uma "fuga de indústrias" para regiões menos concorridas. >
"Terrenos e galpões industriais ficam muito caros, o custo de mão de obra cresce muito, tem que pagar aluguel mais caro, a comida fora de casa é mais cara para o trabalhador, que demora mais tempo para chegar à fábrica devido aos congestionamentos", exemplifica Morceiro, um dos principais estudiosos da indústria e da desindustrialização no Brasil. >
"O pessoal se organiza muito mais fácil, então os sindicatos são mais fortes. Tudo isso é custo para a empresa", diz ele.>
Nesse cenário, setores como o automobilístico, antes muito concentrado no ABC Paulista — polo industrial tradicional da Região Metropolitana de São Paulo —, agora floresce em outras partes do Brasil.>
Exemplo recente disso é a montadora chinesa GWM, que inaugurou em agosto uma nova fábrica em Iracemápolis, no interior paulista, distante cerca de 160 km da capital, após adquirir, em 2021, uma planta que pertenceu à Mercedes-Benz.>
Com investimentos planejados de R$ 10 bilhões no Brasil até 2032, a empresa espera gerar de 800 a mil postos de trabalho na nova fábrica, que deve produzir até 50 mil veículos por ano.>
A chegada da GWM a Iracemápolis permitiu à paulista Gabriele de Oliveira Pereira, de 27 anos, trocar a jornada 6x1 como estoquista em um supermercado em Piracicaba, por uma vaga de operadora de produção na indústria automotiva da cidade vizinha.>
"Meu salário dobrou", conta Gabriele, orgulhosa do novo emprego, que conseguiu após fazer um curso de solda na Oficina de Sonhos, um projeto de capacitação profissional de Piracicaba.>
"Coloquei minhas contas em dia e, agora, consigo levar minha filha de 2 anos para passear, coisa que antes não podia proporcionar e que minha mãe não pôde proporcionar para mim, quando eu era mais nova.">
Entre os desafios do novo emprego, Gabriele cita a barreira da língua da chefia chinesa.>
"Alguns falam inglês, outros falam chinês. Só sei o básico, então, nos comunicamos pelo celular. E eles são bem trabalhadores e não gostam que fique parado, não.">
Morceiro destaca ainda que outro fator que tem contribuído para a interiorização da indústria é a chamada "guerra fiscal", quando Estados ou municípios abrem mão de arrecadar impostos para atrair empresas a instalarem fábricas em seus territórios.>
No caso da planta da Heineken em Passos, por exemplo, o município isentou a cervejaria holandesa de pagar cerca de R$ 90 milhões em tributos municipais por até 15 anos, segundo informações da imprensa local à época da aprovação da chamada "Lei Heineken", criada especialmente para isso, em 2022.>
Já a GWM afirma que recebeu isenção de IPTU pela geração de empregos em Iracemápolis, além de estar inscrita no programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover), do governo federal, que concede incentivos para montadoras que investem em produção nacional e pesquisa e desenvolvimento.>
Morceiro observa, porém, que esse movimento de "neoindustrialização" puxado pelo interior é insuficiente para compensar o processo maior de desindustrialização do Brasil como um todo.>
Por exemplo, enquanto os Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul são responsáveis juntos por 92,9% da desindustrialização do país, Estados que estão se industrializando com o impulso das commodities agrícolas, como Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, dão uma contribuição pequena para atenuar esse processo, reduzindo em apenas 4,4% a desindustrialização de 1986 a 2022.>
"Esse movimento de interiorização permitiu com que a indústria ganhasse um fôlego para competir com os importados", diz Morceiro, já que a interiorização representa muitas vezes uma redução de custos para a indústria. >
"Mas não é suficiente para estancar a desindustrialização, é suficiente apenas para diminuir a intensidade [desse processo] no país.">
O economista destaca que a desindustrialização importa, porque a indústria é um setor que dá um forte impulso ao crescimento dos países. Isso é particularmente relevante para aqueles ainda em desenvolvimento e muito desiguais, como o Brasil.>
"A indústria tem engrenagens mais fortes que outros setores. Quando ela cresce, a economia cresce mais, porque ela arrasta esse crescimento devido aos seus multiplicadores, às cadeias produtivas mais longas", diz Morceiro.>
"Durante a industrialização de qualquer país, a taxa de crescimento costuma ser a maior da sua história.">
Rafael Cagnin, diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), observa que parte da desindustrialização das regiões industriais mais tradicionais do país, como São Paulo e Rio de Janeiro, também está relacionada ao avanço do setor de serviços nestes locais.>
"Rio e São Paulo, que são os polos industriais tradicionais, também são as regiões metropolitanas mais ricas", diz Cagnin.>
"Então, é possível que esse processo de desindustrialização, embora mais intenso, seja mais próximo de um processo 'normal' do enriquecimento dessas regiões e, consequentemente, da diversificação da estrutura produtiva em direção a serviços.">
Esse movimento também ocorre nos países ricos, de economia mais avançada, mas, no Brasil, especialistas avaliam que ocorre de forma precoce por ser registrado após poucos anos de vigor industrial e em um momento em que o país ainda era considerado de renda média, em vez de alta.>
Cagnin destaca ainda o papel do avanço da terceirização no processo de desindustrialização.>
"Parte daquilo que era emprego industrial tipicamente até os anos 1980 — segurança, reparos, limpeza, organização de estoques, pesquisa e desenvolvimento, marketing —, com o fenômeno da terceirização, acabou sendo transferido para fora da indústria", observa o diretor do Iedi.>
Pesa ainda para a desindustrialização (quando medida como a participação da indústria no emprego total do país, como fazem Morceiro e Tessarin) o avanço da automação, que é um processo positivo ao aumentar a produtividade da indústria, avalia Cagnin, mas que reduz a mão de obra necessária e, consequentemente, o peso do setor no mercado de trabalho.>
Diante desse quadro, de desindustrialização dos polos tradicionais e avanço da indústria rumo ao interior do Brasil, o diretor do Iedi avalia que a política industrial nacional precisa atuar em duas frentes. >
A primeira delas é encontrar formas de incentivar a modernização dos parques industriais.>
"Isso implica criar condições no país de viabilização de investimentos. E o principal obstáculo que temos é custo de capital", diz o economista, destacando o papel dos juros elevados nesse alto custo.>
Com a Selic, a taxa básica de juros da economia, em 15%, maior patamar em 20 anos, fica mais caro para as empresas pegar dinheiro emprestado para investir em novas tecnologias e processos.>
Já para os parques mais recentes e modernos, muitos deles agora no interior, a principal preocupação deve ser com a capacidade logística, avalia o especialista.>
"É uma questão de como você vai adensar estes parques, ou seja, como criar outros setores em torno desses que já existem", afirma Cagnin.>
"Então, onde tem biocombustível, podemos fazer etanol de segunda geração [produzido a partir de resíduos como bagaço e palha de cana-de-açúcar, em vez do caldo]. A indústria de carne pode ir além do abate, esquartejamento, congelamento e exportação, processando ainda mais essa carne em outros produtos alimentares", exemplifica.>
"O desafio é tornar mais complexos esses polos industriais que já foram criados por esse interior.">
Segundo o economista, para isso, além de reduzir o custo para investir, são necessárias melhorias em redes de transporte, energia e combustíveis para escoar a produção para os mercados compradores e também ampliar a conexão entre esses diferentes polos.>
Gabriele, a funcionária da fábrica de automóveis que viu sua qualidade de vida melhorar ao conseguir um emprego na indústria, também avalia que fortalecer o setor seria importante.>
"Muita gente queria estar aqui também, mas é difícil, né? Muita gente pergunta se [a fábrica] está contratando", conta a operária.>
"Uma pessoa que nem eu, que sempre trabalhou em mercado, sempre em escala 6x1, é bastante libertador se sentir confortável trabalhando de segunda a sexta, tendo um horário bom, com pessoas que amam o que fazem. Venho trabalhar agradecendo a Deus todo dia pela oportunidade.">
Gráficos por Laís Alegretti, da equipe de Jornalismo Visual da BBC News Brasil.>
>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta