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Por que o Uruguai lidera o boom de carros elétricos na América Latina

Por que o Uruguai lidera o boom de carros elétricos na América Latina

O Uruguai lidera o continente nas vendas de veículos elétricos por habitante. Várias razões explicam este sucesso, incluindo sua política de incentivo a energias renováveis, mantida sem alterações por diversos governos.

Publicado em 21 de fevereiro de 2026 às 12:12

Imagem BBC Brasil
O presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, chegou em um carro elétrico à sua cerimônia de posse, simbolizando a transição energética do país Crédito: AFP via Getty Images

Talvez você não os ouça, já que eles não fazem barulho. Mas é possível vê-los em qualquer avenida de Montevidéu, a capital do Uruguai.

Os carros elétricos já fazem parte da paisagem urbana do país, em um ritmo único na América Latina. E os números confirmam esta tendência.

O Uruguai possui, há mais de um ano, o maior número de veículos elétricos leves por habitante do continente.

São 5.382 unidades por milhão de habitantes em dezembro de 2024, segundo um estudo da Organização de Energia da América Latina e do Caribe (Olacde, na sigla em espanhol).

Desde então, o crescimento vem se acelerando cada vez mais.

A cada cinco veículos zero quilômetro vendidos no Uruguai em 2025, um era elétrico, segundo a Associação do Comércio Automotor do Uruguai (Acau). Este índice representa um aumento exponencial de 147% em relação ao ano anterior.

Com isso, o Uruguai assumiu a primeira posição do ranking latino-americano de participação dos veículos elétricos no mercado automotivo, elaborado pela organização sem fins lucrativos Zemo (sigla em inglês de Observatório da Mobilidade Zero Emissão).

O líder anterior era a Costa Rica, onde 17% dos veículos novos comercializados em 2025 eram elétricos.

No Brasil, este índice foi de 7%, com crescimento de 46% em relação ao ano anterior, segundo o mesmo estudo.

No continente como um todo (excluindo países como a Bolívia, Honduras, Nicarágua ou Venezuela, por falta de dados), as vendas de veículos elétricos representaram apenas 6% do total do ano passado, muito longe dos 20% verificados no Uruguai (um índice similar ao registrado na Europa).

"O Uruguai teve taxas de crescimento claramente explosivas em 2025" e "se transformou nessa estrela ascendente que começa a dominar a região", declarou à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) o especialista regional da Zemo, Juan Diego Celemin.

Em janeiro deste ano, a proporção de veículos elétricos vendidos no país voltou a aumentar, atingindo 30% do total de carros zero quilômetro, segundo a Acau. E a previsão é que as vendas continuem se expandindo.

É claro que, nos mercados maiores do continente, como o Brasil, o México e a Colômbia, são vendidos mais carros elétricos novos que no Uruguai, em números absolutos.

No Brasil, por exemplo, a frota de veículos leves elétricos atingiu 237,2 mil unidades em dezembro de 2024, segundo a Olacde. Mas, em relação à população dos países, a quantidade de carros elétricos por brasileiro é bem inferior ao do Uruguai.

É por isso que a entrada no mercado de cerca de 14,4 mil veículos elétricos por ano, em um país de apenas 3,5 milhões de habitantes, chama a atenção dos especialistas.

A que se deve este fenômeno?

'Diferença no bolso'

Com estabilidade política e econômica maior que seus vizinhos latino-americanos, o Uruguai costuma ser considerado um país estático, sem mudanças inesperadas.

Mas o boom dos veículos elétricos, de certa forma, desafia este conceito.

Uma geração atrás, modelos antigos do Chevrolet Bel Air ou do Fusca da Volkswagen, como o do ex-presidente uruguaio José "Pepe" Mujica (1935-2025), circulavam com frequência pelas mesmas ruas de Montevidéu por onde, hoje, passam automóveis futuristas movidos a baterias, embora eles ainda representem uma parte ínfima do total da frota automotiva.

Imagem BBC Brasil
Seja para transporte de passageiros ou para uso particular, os carros elétricos no Uruguai contam com diversos benefícios tributários Crédito: Bloomberg via Getty Images

Os especialistas afirmam que esta mudança se deve, em grande parte, à transição energética iniciada pelo Uruguai em 2010, rumo a fontes locais e renováveis de eletricidade.

Fruto de um acordo multipartidário, esta política se mantém estável ao longo de governos de diferentes posições políticas. Isso permitiu que até 99% da matriz elétrica do país passasse a ser compostos de fontes hidráulicas, eólicas, solares e biomassa.

Com isso, o Uruguai reduziu drasticamente sua dependência da eletricidade gerada por combustíveis fósseis, que precisam ser importados, já que o país não conta com produção própria de petróleo ou gás natural.

Ao assumir o cargo em março do ano passado, o atual presidente do país, Yamandú Orsi, chegou à cerimônia de posse em um veículo elétrico, para destacar a importância desta transformação.

"Existe um acordo nacional em relação à matriz energética no Uruguai", declarou à BBC o gerente da Acau, Ignacio Paz. "Nesta política, faz sentido incentivar a rápida inclusão dos veículos elétricos, utilizando a geração de energias renováveis."

Imagem BBC Brasil
Os carros elétricos representaram 30% do total de automóveis zero quilômetro vendidos em janeiro no Uruguai Crédito: BBC News Mundo

Nos últimos anos, o Uruguai eliminou ou reduziu, para os veículos elétricos, diversos impostos aplicados aos carros de motor a combustão, cuja carga tributária, segundo Paz, é uma das mais altas do continente americano.

Existem outras vantagens comparativas para os veículos elétricos no país além destes benefícios. Uma delas é o preço da gasolina — o mais alto da América Latina, a cerca de US$ 2 (R$ 10,50) por litro.

É verdade que a eletricidade no Uruguai também é mais cara do que em outras partes do continente.

Ainda assim, especialistas indicam que a diferença média entre abastecer um veículo a combustão e carregar um elétrico equivalente, em uma tomada doméstica no Uruguai, é de cerca de 10 para 1, muito acima do que em outros países.

A Administração Nacional de Usinas e Transmissões Elétricas (UTE) é a empresa estatal que detém o monopólio da transmissão e distribuição de eletricidade no Uruguai. Ela também ofereceu benefícios nas tarifas para o carregamento de veículos elétricos.

Os serviços necessários para a operação deste tipo de veículo também são mais baratos que os tradicionais, embora estejam disponíveis em menor quantidade.

Imagem BBC Brasil
O Uruguai tem a gasolina mais cara do continente. Por isso, existe uma grande diferença de custo entre carregar um carro a combustão e um similar elétrico Crédito: BBC News Mundo

Cidadãos uruguaios que trocaram seus carros a combustão por veículos elétricos destacam a economia que estão fazendo, além do andar silencioso.

"Estamos satisfeitos e não temos interesse em voltar para o motor a combustão", afirma Lucía Bonilla. Ela mora com o marido e dois filhos menores de idade em uma zona semiurbana.

A família trocou de carro por um veículo elétrico há seis meses e percorre, em média, cerca de 100 km por dia.

Ela conta que carregar o carro novo "em casa, conectado a uma tomada à noite, como se fosse um liquidificador", custa hoje o equivalente a US$ 51 (cerca de R$ 270) por mês. O valor representa uma fração dos US$ 386 (cerca de R$ 2 mil) que antes eram gastos com gasolina.

"A compra do carro elétrico zero quilômetro sai mais caro, mas estamos amortizando totalmente o nosso financiamento com a economia mensal em gasolina e manutenção", destaca ela.

"Calculamos que, em menos de quatro anos, começaremos a ficar com essa diferença no bolso."

Testemunhos como este, ao lado do aumento da oferta de marcas chinesas de veículos elétricos que dominam o mercado e vêm crescendo no transporte público, produziram uma espécie de efeito contágio, segundo os especialistas. Aparentemente, eles eliminam as dúvidas de muitos uruguaios sobre os motores a bateria.

Mas a "revolução silenciosa" da mobilidade elétrica no país pode vir a encontrar seus primeiros limites.

Pontos sensíveis

Uma das dúvidas sobre o ritmo da expansão dos veículos elétricos no Uruguai está relacionada à rede de carregadores públicos.

"O parque automotor elétrico está crescendo com tanta rapidez que nossa infraestrutura está ficando um pouco para trás", segundo Ignacio Paz.

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A empresa estatal de eletricidade do Uruguai, UTE, instalou uma rede de estações de carregamento de carros elétricos, frente ao aumento da demanda Crédito: Bloomberg via Getty Images

A estatal UTE ampliou sua rede de carregamento de veículos elétricos no país. O objetivo é que cada ponto fique a uma distância média de 50 km.

Nas zonas urbanas, também surgiram carregadores de acesso público, mantidos por empresas particulares.

A distância entre os dois pontos mais distantes do território uruguaio é de menos de 600 km. Esta vantagem geográfica talvez alivie a "ansiedade de autonomia" dos uruguaios — o medo de esgotar a bateria do veículo elétrico, antes de atingir um ponto de carregamento.

Muitos usuários da rede pública carregam suas baterias por completo. Especialistas indicam que isso gera filas de espera, já que os veículos elétricos reduzem sua potência de carga quando atingem 80% de capacidade da bateria. A partir dali, carregá-las a 100% pode levar o mesmo tempo que de 20% até 80%.

Outro ponto sensível do incipiente mercado de carros elétricos é o descarte das baterias.

"Este é um tema muito importante não só do ponto de vista ambiental, mas também comercial", explica Ignacio Paz. "Muitas empresas dizem que, se este ponto não estiver regulamentado, não enviarão veículos."

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Até onde chegará o boom dos carros elétricos no Uruguai? Crédito: BBC News Mundo

Para atender a esta questão, o governo uruguaio aprovou recentemente um decreto regulamentando a coleta, armazenagem e tratamento das baterias de mais de 1 kW, que ainda está em fase de implementação.

Por outro lado, as vendas de automóveis elétricos no Uruguai poderão perder impulso se forem reduzidos os benefícios fiscais e tarifários atualmente oferecidos.

A UTE aplicou um aumento de 5% do preço do carregamento dos veículos elétricos na rede pública, o que gerou críticas de alguns usuários, embora continuem pagando muito menos que pelo consumo de gasolina.

"Do que depende o crescimento do mercado uruguaio de carros elétricos para que continue sendo tão agressivo? Para mim, dos preços", afirma Juan Diego Celemin.

"É fato que o mercado no Uruguai irá crescer. A pergunta é quanto."

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