Publicado em 21 de fevereiro de 2026 às 15:12
No mês passado, milhares de japoneses se despediram em lágrimas dos ursos panda Xiao Xiao e Lei Lei, no Zoológico Ueno, em Tóquio, antes que eles seguissem de avião de volta para a China.>
Sua partida deixou o Japão sem pandas chineses pela primeira vez em décadas e se tornou um dos símbolos da recente deterioração das relações entre os dois países.>
Os recentes comentários da primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, levaram as relações do seu país com a China para o nível mais baixo em anos, fazendo com que Pequim aumentasse suas pressões sobre Tóquio em diversos setores.>
A China enviou navios de guerra, restringiu as exportações de terras raras, freou o turismo chinês ao país, cancelou shows e, por fim, trouxe de volta seus pandas que estavam no Japão.>
>
Takaichi inicia, agora, um novo mandato como primeira-ministra, depois do apoio histórico que ela recebeu nas recentes eleições antecipadas.>
Com isso, analistas alertam que a China e o Japão enfrentarão dificuldades para reduzir as tensões e que as relações bilaterais não irão se recuperar no futuro próximo.>
As disputas começaram em novembro, quando Takaichi aparentemente sugeriu que o Japão ativaria suas forças de autodefesa, no caso de um ataque a Taiwan.>
A China considera a ilha autogovernada de Taiwan uma província rebelde e não descarta o uso da força para "reunificá-la", algum dia.>
Taiwan possui um governo independente há décadas e conta com os Estados Unidos como aliado fundamental. Washington se comprometeu a ajudar a ilha a se defender.>
A preocupação, há muito tempo, é que um eventual ataque a Taiwan possa resultar em um conflito militar direto entre os Estados Unidos e a China e se estender para outros aliados americanos na região, como o Japão e as Filipinas.>
A questão de Taiwan é uma linha vermelha fundamental para a China. Pequim reage furiosamente a qualquer comentário percebido como "ingerência externa" e insiste que esta é uma questão de soberania, que apenas a China, sozinha, pode decidir.>
Quase imediatamente após as declarações de Takaichi, Pequim respondeu com uma onda de condenações e exigiu sua retratação.>
Os observadores destacaram que os comentários de Takaichi estavam de acordo com a postura do governo japonês e repetiam o que outros líderes do país já haviam declarado no passado.>
A diferença é que esta foi a primeira vez em que um primeiro-ministro japonês no cargo expressava esta opinião.>
Por outro lado, Takaichi se recusou a pedir desculpas ou se retratar por seus comentários. Analistas indicam que esta postura provavelmente seja justificada pelo sólido respaldo eleitoral obtido por ela.>
Takaichi afirmou que passaria a ser mais cautelosa ao comentar sobre cenários específicos. E seu governo enviou diplomatas de alta patente para se reunir com seus homólogos chineses.>
Mas estas medidas não ajudaram a acalmar a ira chinesa.>
Frente à firme negativa de Takaichi, a China aumentou suas pressões sobre o Japão de forma constante.>
Houve outras disputas entre os dois países nas últimas décadas, alimentadas pela sua histórica animosidade. Mas, desta vez, a situação é diferente, segundo os analistas.>
A China aumentou sua pressão em "muito mais frentes", segundo Robert Ward, presidente de assuntos japoneses do centro de estudos Instituto Internacional de Estudos Estratégicos.>
Para ele, trata-se de uma pressão difusa e de baixo nível, similar à "guerra de zona cinzenta" travada contra Taiwan. Seu objetivo seria "desgastar o oponente para normalizar coisas que, na verdade, não são normais".>
No campo diplomático, Pequim apresentou queixas às Nações Unidas e postergou uma reunião de cúpula trilateral que ocorreria entre a China, o Japão e a Coreia do Sul.>
A China também tentou envolver outras partes na contenda. Pequim pediu a adesão do Reino Unido e da França e, paralelamente, convoca seus aliados Rússia e Coreia do Norte para denunciar o Japão.>
No fim de semana de 14-15 de fevereiro, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, invocou o histórico de agressões do Japão durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) ao se dirigir aos líderes ocidentais, durante a Conferência de Segurança de Munique, na Alemanha. Ele qualificou as declarações de Takaichi como um "avanço muito perigoso".>
No âmbito militar, o Japão declarou que a China enviou drones e navios de guerra para perto das suas ilhas e que seus caças de combate fixaram os radares em aviões japoneses.>
Além disso, navios da guarda costeira dos dois países se confrontaram perto das disputadas ilhas Senkaku/Diaoyu. E, na semana anterior, as autoridades japonesas apreenderam um navio de pesca chinês.>
Mas o que está claro é que a China também quer atingir o Japão em um ponto vulnerável: a economia.>
Pequim impôs restrições às exportações para o Japão de tecnologias de uso duplo, que podem ser empregadas com fins civis e militares. Elas incluem terras raras e minerais críticos.>
A medida foi considerada uma forma de coerção econômica.>
A China também alertou aos seus cidadãos que evitem o Japão para seus estudos e férias. Foram cancelados voos em 49 rotas para o Japão, provocando redução do turismo e queda do valor de certas ações do setor de turismo e varejo.>
Os cidadãos chineses representam 25% de todos os turistas estrangeiros que visitam o Japão, segundo números oficiais.>
Nem mesmo o entretenimento e a cultura escaparam da crise diplomática.>
Eventos musicais japoneses na China foram cancelados. Em um deles, uma cantora foi retirada às pressas do palco no meio da apresentação.>
As distribuidoras cinematográficas também postergaram a estreia de diversos filmes japoneses na China.>
A própria franquia Pokémon, um dos fenômenos culturais japoneses mais famosos no exterior, também foi objeto de críticas em relação a um evento de jogos de cartas que deveria ter ocorrido em janeiro, no santuário Yasukuni, em Tóquio.>
O templo homenageia os japoneses mortos em campos de batalha, incluindo alguns que a China considera criminosos de guerra. O evento acabou sendo cancelado.>
Nas redes sociais, nacionalistas chineses lançaram ataques online contra Takaichi. Eles incluíram a divulgação de vídeos gerados por inteligência artificial, mostrando a figura da cultura pop Ultraman e o personagem de anime Detetive Conan, lutando contra a primeira-ministra.>
Mas, de forma geral, a China tomou desta vez medidas menos provocadoras, em comparação com conflitos anteriores com o Japão, segundo Bonny Lin e Kristi Govella, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês).>
"Até o momento, sua reação econômica e militar foi relativamente limitada em comparação com o passado", declararam eles em uma análise recente, "mas existe ampla margem para uma escalada maior.">
A China também pode estar se abstendo de adotar uma postura dura demais com o Japão. Afinal, Pequim está se "posicionando ativamente como o guardião da ordem pós-Segunda Guerra Mundial".>
A China quer ser vista como uma potência responsável em comparação com os Estados Unidos, segundo Ward.>
Os observadores concordam que, se as tensões se acalmarem, provavelmente elas se estabilizarão em um nível mais alto do que antes. É menos provável que as duas partes reduzam as tensões desta vez, segundo Lin e Govella na sua análise.>
A China, agora, é uma potência muito mais forte e "Taiwan é o centro dos interesses chineses, o que significa que é mais provável que Pequim adote uma postura linha-dura do que em episódios anteriores".>
Lin e Govella também afirmam que "Pequim desconfia profundamente de Takaichi e é provável que considere hipocrisia suas tentativas de reduzir as tensões, sem se retratar explicitamente dos seus comentários — ou, ainda pior, como algo estrategicamente falacioso".>
Paralelamente, o Japão detém maior interesse em se manter firme, especialmente após a contundente vitória eleitoral de Takaichi, que "ela interpretará como reafirmação da sua postura em relação à China", segundo Ward.>
Govella declarou à BBC que Takaichi provavelmente usaria sua vitória como "capital político" para promover políticas econômicas e de defesa que irão fortalecer a posição japonesa.>
Takaichi se comprometeu a aumentar os gastos de defesa do Japão para 2% do PIB dois anos antes do previsto, completar uma revisão das principais estratégias de segurança até o final deste ano e lançar em breve um pacote de estímulo à economia do país.>
Por sua vez, a China "considera que Takaichi é uma líder bastante forte e que a campanha de pressão poderá simplesmente fortalecê-la em nível nacional. Por isso, é possível que eles não intensifiquem muito suas pressões", segundo Kiyoteru Tsutsui, especialista em Japão e diretor do Centro de Pesquisa Shorenstein Ásia-Pacífico da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos.>
"De forma que esta música, provavelmente, continuará tocando por algum tempo", prevê ele.>
Um fator imponderável poderá ser o forte apoio a Takaichi dedicado, até aqui, pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele chegou a declarar seu respaldo, o que é incomum, nos momentos que antecederam as eleições antecipadas no Japão.>
Mas muitos esperam que as relações entre os Estados Unidos e a China se intensifiquem ainda mais este ano, segundo Tsutsui.>
Estão programadas diversas reuniões entre Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, incluindo a visita de Estado do presidente americano a Pequim, no mês de abril.>
E, em comparação com incidentes anteriores, a reação dos Estados Unidos ao último enfrentamento "até agora, foi moderada, o que pode fortalecer a China", segundo Lin e Govella.>
"Os japoneses receiam que Xi e Trump cheguem a um grande acordo", afirma Ward.>
No fim de semana de 14-15/2, os Estados Unidos e o Japão reafirmaram suas relações durante a Conferência de Segurança de Munique, em reunião entre o secretário de Estado americano, Marco Rubio, e o ministro das Relações Exteriores do Japão, Toshimitsu Motegi.>
Takaichi também espera se reunir novamente com Trump em março, durante sua visita a Washington, antes da viagem do presidente americano à China.>
Enquanto Pequim segue aumentando suas pressões, Tóquio provavelmente irá "redobrar" seus esforços para assumir uma parte maior dos gastos de defesa compartilhados com Washington e "realmente irá trabalhar de forma mais estreita com eles para garantir que os Estados Unidos não se afastem e percam o interesse pela região", segundo Ward.>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta