Publicado em 22 de março de 2026 às 08:34
Israel e Estados Unidos estão há mais de duas semanas bombardeando o Irã, enquanto o mundo islâmico observa a guerra, sofrendo impactos diretos e indiretos em maior ou menor grau.>
Mas nenhum desses países de maioria muçulmana se apressa em ajudar o Irã. Pelo contrário, muitos o enxergam como uma ameaça. >
Embora defendam o mito da solidariedade pan-islâmica, os países muçulmanos também enfrentam contradições sectárias, desconfiança mútua, interesses nacionais, dependência dos EUA e a relutância em se deixar arrastar para outra guerra de consequências imprevisíveis.>
O Irã quer se tornar uma potência nuclear e a potência hegemônica regional. E, desde 28 de fevereiro, quando ocorreram os primeiros ataques dos EUA e Israel, ele vem bombardeando os países árabes vizinhos.>
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Esse pode ser um dos maiores erros estratégicos do Irã nos últimos anos. >
Durante muito tempo, Teerã atuou com grande habilidade, tentando se apresentar ao mundo árabe como defensor da solidariedade islâmica e portador de uma mensagem de união para todos os muçulmanos. >
Contudo, hoje é o próprio Irã quem lança ataques contra países árabes — isso em pleno mês sagrado de Ramadã — como observa a especialista em Oriente Médio Yasmina Asrarguis, ligada a universidade de Princeton.>
O mundo islâmico não é monolítico. As autoridades de cada país muçulmano (em sua maioria árabes) orientam-se principalmente pelos seus próprios interesses políticos e econômicos, e não estão dispostas a socorrer o Irã por pura solidariedade. >
Outro fator é que as posições em relação ao Irã no mundo muçulmano são complexas: não é um país árabe, sua população fala um idioma diferente e a maioria é xiita, enquanto a maioria esmagadora dos muçulmanos em todo o mundo são sunitas.>
A guerra atual só tem uma relação tangencial com a religião, mas, historicamente, a divisão entre xiitas e sunitas determinou em grande parte o equilíbrio de poder no Oriente Médio. >
"Não pode haver solidariedade sunita com os xiitas, principalmente quando o Irã xiita ataca os países sunitas", explicou à BBC Fabrice Balanche, especialista do Instituto Washington para a Política do Oriente Médio. >
Além disso, o Irã atacou seus vizinhos sunitas durante o mês sagrado do Ramadã e ameaça arrastá-los para um conflito ainda mais grave, que atinge diretamente seus interesses.>
O Irã não contava com muitos aliados na região e nem no mundo, mas atualmente Teerã se encontra, de fato, isolado. >
Quase meio século de governo do regime dos clérigos transformou o país em um dos principais perturbadores da paz no Oriente Médio. Os vizinhos do mundo islâmico o viam com desconfiança e, muitas vezes, com aberta hostilidade.>
Após a Revolução Islâmica de 1979, o Irã começou a criar e a consolidar sistematicamente a imagem de um poderoso Estado Islâmico, vanguarda da luta do mundo muçulmano.>
Seu antigo aliado, os EUA, foi declarado inimigo principal, e Israel, "o mal menor". Teerã focou no objetivo de exportar o modelo de Estado teocrático a outros países e, em particular, a defender e armar a minoria xiita da região.>
As ambições do Irã não agradavam aos países do Golfo Pérsico, sobretudo à Arábia Saudita, onde se encontram os principais locais sagrados do islã. Durante muitos anos, Riad e Teerã se consideraram mutuamente como rivais na disputa por influência na região. >
Os sistemas políticos das monarquias árabes petrolíferas do Golfo Pérsico se assemelhavam em grande medida ao regime do xá iraniano, derrubado em 1979, e por isso temiam especialmente os levantes populares.>
Os países do Golfo Pérsico já mantinham relações estreitas com os EUA, e as ambições do Irã entravam em conflito direto com seus próprios interesses. >
Essa "guerra fria" do Oriente Médio se prolongou por décadas até 2023, quando Riad e Teerã concordaram em restabelecer as relações diplomáticas com a mediação da China. >
Após o ataque dos EUA e Israel contra o Irã, a Arábia Saudita e outros vizinhos tiveram uma confirmação clara de que Teerã está disposto a ameaçar sua estabilidade e sua prosperidade econômica.>
"Independentemente de como evolua o conflito em geral, o dano à reputação regional do Irã já é evidente. A confiança, uma vez abalada, é extremamente difícil de recuperar", escreve Khalid Al-Jaber, diretor executivo do Conselho de Assuntos Globais do Oriente Médio, para o Atlantic Council.>
Para consolidar sua influência na região, o Irã vem construindo há décadas o chamado "Eixo da Resistência", voltado contra os EUA e Israel.>
Teerã armou e financiou a milícia xiita Hezbollah no Líbano, os houthis no Iêmen e diversas forças aliadas no Iraque, além de intervir nos conflitos do Líbano, Síria, Bahrein e Iêmen.>
O Irã também utilizou a questão palestina para reforçar sua reputação de defensor dos muçulmanos, apoiando o Hamas e a Jihad Islâmica.>
No entanto, muitos países árabes viam nessas ações não tanto uma luta pela causa palestina, mas uma tentativa de Teerã de ampliar sua própria influência e estabelecer o controle sobre a região.>
O desejo do Irã de possuir armas nucleares também despertava grande preocupação entre seus vizinhos.>
Por isso, ajudar o Irã — tanto antes quanto agora — significaria, na visão de muitos governos árabes, fortalecer um país que consideram um perturbador do equilíbrio regional e uma ameaça à sua própria estabilidade.>
Ainda não está claro como terminará a nova guerra no Oriente Médio, mas já é evidente que o frágil equilíbrio de poder na região foi abalado.>
"Os países do Golfo Pérsico entendem que o Irã pode destruir todo o seu desenvolvimento econômico com apenas alguns golpes. O Irã está voltando a ser a principal ameaça para a região", afirma Balanche.>
"Isso inevitavelmente empurrará a Arábia Saudita mais próximo de Israel, sobretudo para ter acesso a tecnologias de defesa antimísseis, como o sistema 'Domo de Ferro', que poderia reforçar significativamente a proteção do reino", acrescenta o especialista do Instituto Washington.>
As forças xiitas apoiadas pelo Irã estariam dispostas a socorrer seu patrocinador, mas suas possibilidades são limitadas. >
Após o ataque do Hamas contra Israel em outubro de 2023 e a guerra subsequente, o chamado Eixo da Resistência enfraqueceu consideravelmente. Israel aniquilou a antiga liderança do Hezbollah, desgastou o Hamas e o antigo aliado sírio de Teerã, Bashar al-Assad, foi derrubado pelos rebeldes e fugiu para Moscou.>
A desconfiança em relação ao Irã no mundo islâmico vem se intensificando ainda mais depois que Teerã atacou seus vizinhos do Golfo Pérsico em resposta às ofensivas de Israel e dos Estados Unidos.>
"Talvez Teerã esperasse aumentar a pressão sobre as monarquias do Golfo para que estas, por sua vez, pressionassem os Estados Unidos e conseguissem o fim da guerra. Na realidade, está acontecendo exatamente o contrário", afirma Yasmina Asragis.>
Alguns países do Golfo Pérsico, no entanto, mantêm canais de diálogo com o Irã. Omã e Catar atuaram com frequência como mediadores nas conversas com as autoridades iranianas. Resta saber se continuarão com seus esforços diplomáticos no futuro.>
A imensa maioria dos muçulmanos são sunitas (entre 85% e 90% dos 1,8 milhão de muçulmanos), enquanto que os xiitas constituem uma minoria (entre 10% e 15%). As principais comunidades xiitas se encontram no Irã, Azerbaijão, Iraque e Paquistão.>
A divisão remonta à disputa pela sucessão que surgiu após a morte do profeta Maomé, no ano 632. Os partidários divergiam sobre quem deveria liderar a comunidade muçulmana, a umma.>
Os xiitas — a própria palavra significa "seguidores" ou "partido de Ali" — defendiam a transferência do poder para um dos parentes de Maomé: Ali bin Abi Talib. Alegavam que era ele quem tinha o direito legítimo de se tornar califa, como parente mais próximo e discípulo do profeta.>
Os sunitas, por sua vez, consideravam que o líder da comunidade muçulmana deveria ser escolhido entre os companheiros mais dignos e respeitados do profeta. O primeiro califa foi Abu Bakr, um dos colaboradores mais próximos de Maomé.>
A luta pelo poder no califado acabou provocando o assassinato de Ali em 661. Seus filhos, Hasan e Husayn, também foram mortos. A morte de Husayn, em 680, nas proximidades da cidade de Karbala (atual Iraque), continua sendo considerada pelos xiitas como uma tragédia de proporções históricas.>
A discrepância política inicial foi se transformando pouco a pouco em uma divisão religiosa e doutrinária mais profunda. Foi justamente a Revolução Iraniana de 1979 que transformou esse enfrentamento religioso em uma rivalidade geoestratégica. >
Desde então, o Irã xiita e a Arábia Saudita sunita tem lutado pela liderança regional no mundo muçulmano. >
Os líderes iranianos passaram a questionar abertamente o direito da dinastia saudita de ser guardiã dos principais santuários do islã — Meca e Medina —, e diversos incidentes provocados por iranianos durante o hajj (a peregrinação a Meca) intensificaram a tensão entre os dois países.>
Em uma tentativa de conter a influência de Teerã, Riad financiou durante décadas diferentes redes e movimentos, dos quais posteriormente surgiram organizações jihadistas que fugiram do seu controle.>
O confronto entre o Irã e a Arábia Saudita, assim como com outros países do Golfo Pérsico, marcou por muito tempo a dinâmica política do Oriente Médio.>
Mas o governante saudita de fato, Mohammed bin Salman, quer tornar o país atraente para turistas e investidores, e está disposto a investir os rendimentos do petróleo em seu projeto nacional 'Visão 2030'.>
Ele vem desenvolvendo a energia solar e eólica e convidou o jogador mais rico do mundo, Cristiano Ronaldo, para jogar na liga de futebol local. Por isso, a Arábia Saudita se esforça para manter a estabilidade na região e cultivar relações pragmáticas com todos os seus vizinhos, inclusive o Irã.>
Foi justamente nesse contexto que, em 2023, com a mediação da China, Riad e Teerã concordaram em restabelecer relações diplomáticas. Segundo Fabrice Balanche, o príncipe Bin Salman estava disposto a 'comprar' a estabilidade a qualquer preço e negociar com todos, mas agora esse futuro está ameaçado.>
O Irã, por sua vez, nunca teve intenção de renunciar a seus princípios anteriores e continua sendo um Estado de ideologia revolucionária, afirma Najat Al-Said, professora da Universidade Americana nos Emirados — ao contrário dos países do Golfo, que se afastaram dos princípios ideológicos em favor de interesses econômicos e políticos.>
"O contraste entre a evolução da Arábia Saudita — de uma política confessional ao nacionalismo saudita — e o endurecimento ideológico do Irã demonstra que os sistemas políticos são capazes de mudar em função das exigências de cada momento, enquanto os sistemas ideológicos, ao contrário, tornam-se cada vez mais rígidos. Qualquer transformação significativa para eles representa um risco de desaparecimento", observa Al-Said.>
O panorama geopolítico do Oriente Médico mudou de forma significativa após a assinatura dos "Acordos de Abraão". >
Em 2020, os Emirados Árabes Unidos, Bahrein e o Sudão, e posteriormente o Marrocos, normalizaram suas relações com Israel. Na nova ordem regional, o Irã passou a se destacar cada vez mais como inimigo comum de vários Estados árabes.>
A Arábia Saudita também considerou a possibilidade de normalizar suas relações com Israel antes do início da guerra em Gaza, apesar de a questão palestina ter representado um obstáculo para os acordos.>
A grande questão é o que acontecerá depois da guerra. Permanecerá o atual regime de Teerã — enfraquecido, mas sobrevivente, e portanto talvez ainda mais perigoso — ou haverá uma mudança de poder?>
"Seja qual for o desenrolar dos acontecimentos, uma coisa é evidente: num futuro próximo, é pouco provável que o Irã consiga recuperar seu antigo nível de poder", afirma Balanche.>
"Independentemente de se manter o regime ou surgir uma nova liderança, o país precisará de tempo para recuperar a influência que possuía na época do xá, quando o Irã desempenhava, de fato, o papel de 'guarda do Oriente Médio'.">
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