Publicado em 23 de março de 2026 às 19:34
Do vertiginoso aumento das contas de calefação doméstica em Yorkshire, no Reino Unido, até o fechamento de escolas no Paquistão para reduzir os custos, passando pelos preços de combustíveis em países como o Brasil, as repercussões financeiras da guerra no Oriente Médio já estão causando fortes consequências.>
Fica cada vez mais evidente que o impacto das represálias de Teerã, projetadas para causar transtornos e danos econômicos, talvez não seja passageiro. E, além disso, também é muito desigual.>
Ao lado de uma extensa lista de países que correm o risco de serem gravemente afetados, existem alguns que estão se beneficiando. Quem são eles?>
Apesar de todos os esforços para impulsionar as energias renováveis, continuamos dependendo, em grande parte, do petróleo e do gás.>
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Suas reservas abundantes costumam prometer grandes riquezas. E é por isso que o petróleo foi batizado de "ouro negro".>
Quando os preços sobem, os produtores costumam sair ganhando, enquanto os consumidores pagam a conta.>
Mas esta não é uma crise típica dos preços do petróleo. O Oriente Médio continua sendo o centro do abastecimento e o Estreito de Ormuz, sua principal artéria.>
O impacto do bloqueio de facto e dos ataques à infraestrutura energética da região atingiram duramente os produtores do Golfo Pérsico, como o Catar e a Arábia Saudita, com o Irã mantendo os aliados dos Estados Unidos na sua mira.>
E, com os clientes procurando fontes alternativas, países como a Noruega e o Canadá podem sair beneficiados.>
Após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, muitos países tentaram deixar de depender do gás russo. Com isso, a Noruega conseguiu aumentar sua produção e tirar vantagem dessa situação.>
Por outro lado, o ministro da Energia do Canadá, Tim Hodgson, se apressou a posicionar seu país como "produtor de energia estável, confiável, previsível e baseado em valores". Mas existem questões sobre a real capacidade do país de aumentar sua produção.>
Na verdade, a Rússia poderá acabar sendo a maior beneficiária. Com Washington flexibilizando as normas para reduzir a escassez global de combustíveis, as vendas de petróleo russo para a Índia aumentaram em cerca de 50%.>
Estimativas indicam que Moscou poderia conseguir até US$ 5 bilhões adicionais até o final de março e se encaminhar para fechar o ano com a maior receita obtida com a venda de combustíveis desde 2022.>
Os Estados Unidos correm o risco de conceder a Moscou enormes e inesperados lucros, às custas das nações do Golfo. Mas existem também outros possíveis beneficiários.>
Com alguns países intensificando seu consumo de carvão, surge uma oportunidade muito atraente para grandes exportadores como a Indonésia, já que o preço deste combustível também está em alta.>
E sobre os Estados Unidos?>
O presidente americano, Donald Trump, afirma que, quando sobe o preço do petróleo, os Estados Unidos "ganham muito dinheiro".>
De fato, os produtores americanos de petróleo podem estar a caminho de ganhar dezenas de bilhões de dólares em receita adicional este ano, se os preços do petróleo bruto se mantiverem próximos dos níveis atuais.>
Mas isso não traz lucros líquidos para os Estados Unidos. Primeiramente, porque alguns produtores estão fortemente expostos às interrupções da produção no Oriente Médio.>
A ExxonMobil, por exemplo, detém operações no centro industrial de Ras Laffan, no Catar. Ali, a produção está paralisada desde o início de março e, agora, o local foi alvo de ataques de mísseis iranianos, causando "extensos danos".>
Em segundo lugar, após anos de reduzir sua capacidade frente à queda dos preços no atacado, muitos produtores de petróleo de xisto não conseguem aumentar rapidamente sua produção.>
E, o mais importante, em termos per capita, os americanos são os maiores consumidores de petróleo e gás do planeta.>
Do aumento da calefação durante o forte inverno do meio-oeste americano até o abastecimento de combustível na temporada de viagens de carro, os Estados Unidos estão fortemente expostos à flutuação dos preços dos combustíveis fósseis.>
Os economistas da Oxford Economics alertam que, se os preços do petróleo dispararem para US$ 140 por barril e se mantiverem neste nível, a economia correrá o risco de se contrair.>
É claro que os americanos não são os únicos que sofrem com esta vulnerabilidade.>
A dependência dos consumidores europeus (incluindo o Reino Unido), em relação ao gás importado, apresenta um risco maior para o crescimento econômico, que se materializaria com o impacto sobre a inflação.>
A evolução do mercado nas últimas semanas poderia acrescentar cerca de 0,5% à taxa anual de inflação, caso essa tendência se mantenha e o aumento dos preços seja transferido para produtos como fertilizantes e custos de transporte.>
A boa notícia é que, ao aumentar sua eficiência energética ao longo dos anos, o Ocidente, de forma geral, agora é mais resiliente às flutuações de preço da energia do que no passado.>
Mas, com o petróleo e o gás compondo mais da metade do consumo de energia em países como o Reino Unido, os motoristas, as faturas de aquecimento doméstico e os setores com consumo intensivo de energia, como as indústrias, permanecem vulneráveis em muitas partes do mundo.>
Grande parte do impacto não depende apenas da trajetória futura dos preços, mas também da reação dos governos, um tema que suscita intenso debate.>
Não surpreende que muitas autoridades relutem em propor resgates financeiros em larga escala, já que suas próprias finanças também se encontram sob fortes pressões.>
A reação dos mercados de títulos do governo frente ao risco de aumento da inflação ameaça aumentar em bilhões de dólares os custos já enfrentados por países endividados.>
Mas é claro que a maior ameaça imediata recaiu sobre os clientes habituais do petróleo e do gás liquefeito que fluem para o leste, através do Estreito de Ormuz.>
A Ásia importa 59% do seu petróleo bruto do Oriente Médio. E, no caso da Coreia do Sul, este índice atinge 70%.>
Com o preço das ações desabando devido à preocupação com as interrupções do fornecimento e os custos, os políticos também alertaram sobre o risco que se apresenta para a indústria de fabricação de chips do país.>
A Coreia do Sul produz mais da metade dos chips de memória consumidos no mundo.>
Em outros locais, o racionamento de combustível, semanas de trabalho de quatro dias e o fechamento de centros educacionais são algumas das medidas adotadas por países como Sri Lanka, Bangladesh e as Filipinas.>
Mas os maiores consumidores de energia do continente conseguiram, até certo ponto, se manter à margem dessas dificuldades, graças ao seu planejamento e à diplomacia.>
A China conta com reservas equivalentes a vários meses de consumo e, segundo diversas informações, o país intensificou suas compras de petróleo iraniano.>
O mesmo acontece com a Índia, que também aproveita esta luz verde temporária para recorrer à Rússia como seu fornecedor.>
É claro que o desenlace dependerá, em última instância, da evolução do conflito. Mas parece improvável que os Estados Unidos tivessem previsto totalmente algumas destas consequências econômicas, já que o país elaborou sua estratégia antes de iniciar os ataques ao Irã.>
E, se a guerra se prolongar, maior será o risco — não só de prejuízos a países individuais, mas também de contágio e repercussões em escala global.>
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