Publicado em 23 de março de 2026 às 17:34
O conflito no Irã afetou os mercados de energia e de matérias-primas. O Irã praticamente fechou o Estreito de Ormuz, uma rota vital para o transporte de petróleo, ao atacar mais de uma dezena de navios nas últimas duas semanas que tentaram atravessar a passagem marítima.>
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem pressionado aliados europeus a ajudar a garantir a segurança do estreito, alertando em 15/03 que será "muito ruim para o futuro da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte]" se não apoiarem os esforços americanos para reabrir Ormuz. Mas o Irã prometeu manter a via fechada.>
A interrupção do transporte marítimo no Golfo fez os preços do petróleo Brent saltarem de cerca de US$ 70 (cerca de R$ 350) por barril antes do início da crise para mais de US$ 100 (aproximadamente R$ 500). >
O comércio global de uma ampla gama de produtos — de bens de consumo a matérias-primas agrícolas — também está sendo afetado.>
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Mas a crise também evidenciou uma questão mais ampla: o comércio global depende de um número surpreendentemente pequeno de rotas marítimas estreitas, frequentemente chamadas de "gargalos" marítimos.>
Veja a seguir um guia dos gargalos mais importantes para o comércio global e o grau de vulnerabilidade de cada um a interrupções.>
Ormuz é a rota estratégica energética (e o gargalo) mais importante do mundo. Ligando o golfo Pérsico ao mar da Arábia, responde por cerca de 39% do comércio marítimo de petróleo bruto e 19% do gás natural. >
Ao contrário da maioria das rotas comerciais, não há alternativa viável para que os países do Golfo exportem sua energia sem passar por Ormuz.>
O Irã ameaça periodicamente fechar o Estreito de Ormuz desde a década de 1980. Mas a interrupção no transporte marítimo desde o fim de fevereiro, quando os EUA e Israel lançaram ataques aéreos contra o Irã, é a escalada mais grave em décadas. >
Ela provocou a maior interrupção no fornecimento de petróleo da história e a disparada dos preços globais.>
As consequências da atual interrupção no transporte marinho no Golfo vão além da energia. A região do Golfo movimenta mais de 26 milhões de contêineres por ano, e grandes exportações de fertilizantes também passam por ali. >
Uma interrupção prolongada, portanto, terá impacto direto nos custos globais de produção de alimentos.>
O canal de Suez liga o mar Vermelho ao Mediterrâneo, reduzindo em pelo menos dez dias o tempo de viagem entre a Ásia e a Europa. A via responde por 10% do comércio marítimo global, incluindo 22% do transporte de contêineres, 20% dos embarques de automóveis e 10% do petróleo bruto.>
Controlado pelo Egito, não é facilmente ameaçado diretamente. Mas a via não está imune a acidentes, como mostrou o encalhe do navio porta-contêineres Ever Given em 2021. A embarcação bloqueou o canal por seis dias, interrompendo cerca de US$ 10 bilhões (cerca de R$ 50 bilhões) em comércio.>
A maior vulnerabilidade desse gargalo é o estreito de Bab el-Mandeb, na extremidade sul do mar Vermelho. >
Ataques a navios comerciais pelo grupo houthi no Iêmen, apoiado pelo Irã, entre 2023 e 2025,realizados em resposta à guerra de Israel contra o Hamas em Gaza, forçaram muitas empresas a desviar rotas pelo sul da África.>
Isso reduziu o tráfego no canal de Suez de mais de 26 mil embarcações em 2023 para cerca de 13 mil em 2024. >
Líderes houthis ameaçaram recentemente retomar os ataques a navios comerciais em retaliação aos ataques de Israel e dos EUA ao Irã, afirmando em comunicações oficiais que seus "dedos estão no gatilho".>
Ligando os oceanos Pacífico e Atlântico, o canal do Panamá responde por cerca de 2,5% do comércio marítimo global: uma fatia modesta, mas concentrada em cargas de alto valor e estratégicas, como contêineres, automóveis e grãos.>
O canal movimenta cerca de 40% de todas as cargas conteinerizadas dos EUA, avaliadas em US$ 270 bilhões (cerca de R$ 1,35 trilhão) por ano.>
Sua vulnerabilidade decorre tanto do clima quanto da geopolítica. Em 2023 e 2024, secas severas reduziram drasticamente os níveis de água nos reservatórios de água doce do canal, forçando restrições ao número e ao tamanho das embarcações. >
Em seguida, no início de 2025, Trump ameaçou assumir o controle do canal. Ele citou preocupações com a operação de alguns de seus portos pela Hutchison, empresa sediada em Hong Kong.>
O estreito de Malaca é a rota marítima mais movimentada do mundo. Ele concentra 24% de todo o comércio marítimo global, incluindo 45% do petróleo bruto transportado por via marítima e 26% dos automóveis. A via também abriga Singapura, que possui o segundo porto de contêineres mais movimentado do mundo.>
Malaca é a principal porta de entrada para as importações de energia de China, Japão e Coreia do Sul. Quase 80% das importações de petróleo da China passam por ali, uma dependência que Pequim chama de "dilema de Malaca".>
A pirataria continua sendo uma preocupação persistente, com mais de 130 incidentes registrados no estreito de Malaca em 2025. Mas o maior risco é geopolítico. Qualquer escalada nas tensões entre China e EUA ou Índia pelo domínio marítimo na região pode afetar gravemente a passagem pelo estreito.>
O Estreito de Malaca também está exposto a desastres naturais, incluindo tsunamis e atividade vulcânica. O tsunami do Dia de Natal de 2004, por exemplo, causou danos significativos à infraestrutura costeira na entrada sul do estreito.>
Os estreitos turcos Bósforo e Dardanelos são a única rota marítima entre o mar Negro e o Mediterrâneo. Eles respondem por 3% do comércio marítimo global. Embora essa participação pareça pequena, inclui cerca de 20% das exportações globais de trigo da Ucrânia, Rússia e Romênia.>
Com apenas 700 metros de largura em seu ponto mais estreito, atravessando o centro de Istambul, na Turquia, a navegação é complexa e colisões de menor porte são comuns. Pela Convenção de Montreux, a Turquia controla o acesso militar aos estreitos, poder que Ancara, capital da Turquia, tem usado desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 para restringir o movimento de navios de guerra, mantendo aberto o tráfego comercial.>
Uma nova escalada na região do mar Negro pode desestabilizar esse equilíbrio e afetar os mercados globais de grãos. A alta atividade sísmica da região acrescenta outra camada de risco.>
A atual crise no Estreito de Ormuz evidenciou o quão vulnerável é o comércio global a interrupções, devido à dependência de um número reduzido de vias marítimas estreitas.>
Mas as cinco rotas mencionadas não são os únicos gargalos do comércio.>
Há cerca de 24 gargalos marítimos no mundo, incluindo outras passagens importantes como os estreitos de Taiwan, Dover e Bering. Cada uma dessas rotas está exposta a uma combinação própria de tensões geopolíticas, mudanças climáticas, pirataria, acidentes ou desastres naturais.>
* Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado sob licença Creative Commons. Leia aquia versão original (em inglês).>
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