Publicado em 31 de março de 2025 às 04:44
Um mundo com preços estáveis, baixa inflação e taxas de juros próximas de zero (por vezes até negativas em alguns países). Assim era a economia mundial antes da pandemia de coronavírus que começou há cinco anos.>
Nos anos anteriores à covid-19, nas economias avançadas, como EUA e países da Europa, a inflação anual raramente passou de 2% ao longo de mais de uma década. Como consequência, as taxas de juros se mantiveram lá embaixo — e até abaixo de zero no caso da União Europeia.>
Nesse período imediatamente antes da pandemia, o Brasil também tinha inflação próxima da meta de 4,5% e uma taxa de juros abaixo de 7% — tendo recém saído de uma recessão nos anos de 2015 e 2016.>
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Primeiro veio uma desaceleração brutal das economias — inclusive com queda rápida nos preços. Mas, à medida que os países começaram a sair dos lockdowns, os preços explodiram em praticamente todos os lugares do planeta.>
A inflação disparou não só em economias emergentes como também nos países ricos.>
No Brasil, ela saiu de 4,19% em janeiro de 2020 para 12,13% em abril de 2022. Nos EUA, de 2,5% no começo de 2020 para 9,1% em junho de 2022 — um patamar inédito para o país desde 1980, uma época de recessão por conta de choques mundiais no preço do petróleo.>
Como consequência, as autoridades monetárias reagiram subindo os juros básicos da economia em diversos países — avançados e emergentes.>
Os juros básicos são instrumentos usados pelas autoridades para combater a inflação. Quando os preços começam a subir demais em uma economia, os juros altos ajudam a encarecer o custo de se tomar empréstimos — freando a subida de preços.>
O juro americano subiu de um patamar de 0,25% para 5,5%, entre 2022 e o ano passado. No Brasil, a escalada de juros aconteceu dois anos antes: partindo de 2% em fevereiro de 2021 para 13,75% em agosto de 2022.>
Desde o ano passado, políticos, empresários e trabalhadores em diversos países vêm esperando que a inflação retorne aos níveis pré-pandemia. E também os juros — que são considerados fundamentais para estimular a produção e o crescimento econômico.>
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Um dos termômetros mundiais para verificar se a economia global está voltando ao seu normal é a decisão do banco central americano, o Federal Reserve (Fed), em relação aos seus juros. >
Há quase um ano, analistas acompanham cada reunião do Fed à espera de que a taxa básica de juros dos EUA seja cortada, o que seria um sinal de retorno ao patamar normal da economia. Mas isso não está se confirmando.>
Alguns cortes foram feitos, mas em um ritmo muito menor do que o esperado. Neste mês, o Fed manteve os juros no mesmo patamar: entre 4,25% e 4,5%.>
Ou seja: a economia dos EUA — assim como a de diversos outros países — não está voltando ao antigo normal. No Brasil, os juros até mesmo voltaram a subir, em um novo ciclo de alta. Em 19 de março, atingiram 14,25% — o mesmo patamar em que estavam durante a crise econômica brasileira de 2016.>
Mas porque a inflação teima em não cair no mundo e no Brasil meia década após o começo da pandemia?>
Apesar de a inflação seguir acima dos patamares pré-pandemia, ela caiu bastante e de forma rápida, afirma o economista Joseph Gagnon, do Peterson Institute for Internacional Economics (PIIE), entidade sediada em Washington D.C., nos EUA.>
"Trazer a inflação de 8% ou 9% para menos de 3% até que aconteceu mais rápido do que qualquer um imaginava", disse Gagnon à BBC News Brasil.>
"Mas voltar de 3% para 2% está demorando mais.">
Para Gagnon, a demora para a inflação descer o último degrau até o patamar considerado normal se dá por conta de um efeito de transmissão de preços.>
A pandemia elevou os preços de itens como alimentos e energia — e isso provocou uma alta em salários. Essa alta de salários alimentou outra alta: a do preço de serviços. >
Nesse processo, a inflação — que mede preços gerais da economia — continua subindo mesmo que os itens originais que provocaram a alta inicial já tenham tido seus preços estabilizados.>
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A inflação só poderá cair mesmo depois de alguns anos, quando essa inércia se dissipa.>
Um dos efeitos desse período prolongado de inflação é que o poder de compra dos americanos não subiu tanto quanto estava subindo antes da pandemia.>
"Em um ano normal, quando a inflação era de 2%, os salários costumavam crescer 3% — cerca de um ponto percentual acima da inflação. Mas isso não está acontecendo nesses últimos quatro ou cinco anos de inflação da covid", diz Gagnon.>
"Os salários conseguiram se equiparar à inflação da covid, mas não cresceram esse 1% a mais. Em cinco anos, os salários deveriam ter crescido cinco pontos percentuais a mais do que a inflação e isso não aconteceu.">
Então, é de se esperar que em poucos anos a inflação volte ao patamar de antes da pandemia? Não exatamente.>
Segundo os economistas, um dos grandes desafios para conter a inflação no mundo — e no Brasil — é o problema fiscal que todos os governos têm no momento.>
A expectativa de preços — que determina o nível de inflação — é influenciada pelo tamanho da dívida do governo. Se um governo gasta muito mais do que arrecada, seu endividamento cresce.>
Para pagar essa dívida, os governos recorrem à emissão de mais moedas — e com isso as moedas se desvalorizam diante dos bens e serviços. Ou seja, tudo fica relativamente mais caro. E esse é um problema generalizado no mundo.>
"Esse é o ponto essencial. Essa agenda de consolidação fiscal é um debate no mundo. Se as dívidas do país estão em outro patamar, o nível dos juros vai estar em outro nível também", explica à BBC News Brasil a economista Zeina Latif, da Gibraltar Consulting.>
Gesner Oliveira, economista da GO Associados e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), diz que a inflação atual se explica também pela pauta ambiental, em que o mundo está trocando sua matriz energética. Países como o Reino Unido têm a meta de, em 2050, ser neutra em emissões de carbono.>
"Os países têm metas de descarbonização, em que se troca fontes fósseis por fontes renováveis. Muitas vezes essa troca é mais cara, embora o custo de fontes renováveis tenha caído. E isso coloca uma pressão sobre os preços", diz Oliveira.>
A disciplina fiscal já era um problema no Brasil antes mesmo da crise, com diferentes governos promovendo reformas trabalhistas, tributárias e de previdência na tentativa de contar explosões de gastos. Mas agora esse é um problema também em economias avançadas.>
"O que mudou nos EUA hoje é que não há absolutamente nenhuma disciplina física aqui. Nosso governo está gastando muito mais do que arrecada. O déficit orçamentário é de 6% do PIB [Produto Interno Bruto], o que é muito grande para um país com pleno emprego e sem recessão", diz Gagnon.>
"É quase inédito que na ausência de uma guerra ou recessão, o déficit orçamentário estaria nesse patamar. E não há perspectiva de que o Congresso vá reduzir seus gastos.">
No caso dos EUA, nem mesmo políticas de cortes orçamentários devem aliviar esse quatro>
O governo de Donald Trump vem promovendo cortes de gastos — com demissão de funcionários e diminuição da máquina pública federal. No entanto, economistas esperam que o presidente americano cortará também impostos. E isso não alteraria a situação fiscal americana, já que não haveria economia nenhuma de dinheiro.>
A Europa também sofre com problemas orçamentários. Até recentemente o continente parecia estar se encaminhando para voltar aos níveis de inflação vistos antes da pandemia — já que os governos europeus têm maior controle sob sua situação fiscal, com déficits e dívidas menores.>
Mas isso não deve mais acontecer, segundo o economista do PIIE, por conta de mudanças geopolíticas. Desde a chegada de Trump ao poder, os países europeus estão precisando gastar mais em segurança. E todo esse gasto será financiado através de maior endividamento — e não de maior arrecadação de impostos.>
Para Zeina Latif, os gastos contraídos pelos governos durante a pandemia — com estímulos especiais a setores e populações afetadas — fez aumentar ainda mais o problema fiscal enfrentado pelos governos hoje em dia.>
"O Brasil gastou mais de 8% do PIB em 2020 em estímulos fiscais só no governo federal. Na época, o FMI [Fundo Monetário Internacional] tinha soltado um número que a média do mundo emergente tinha sido de 3,5%", diz Latif.>
"No mundo a inflação não foi só causada pela disrupção de cadeia, pela pandemia e depois pela guerra da Rússia. Foi o problema fiscal. Vimos que os países que abusaram demais da sua situação fiscal [gastando demais] foram os que tiveram mais problemas com a inflação, como os EUA.">
Gragnon diz que até o ano passado os preços pareciam estar se normalizando nos EUA — sugerindo que a tão esperada queda dos juros americanos finalmente se consolidaria esse ano. Mas tudo mudou em janeiro.>
"A posse de Donald Trump bagunçou todo o processo de queda da inflação, que parecia estar se encaminhando bem. Agora, temos a ameaça de tarifas, e isso vai elevar de novo os preços dos bens, assim como vimos durante a covid", diz Gagnon.>
"Podia-se prever que haveria uma guerra comercial, mas não estava previsto que haveria tantas tarifas contra Canadá ou México", diz Gesner Oliveira.>
"Esse rompimento do sistema multilateral completo, esse discurso claramente contrário ao multilateralismo e níveis de tarifas que voltam para a primeira metade do século 20, isso estava fora do radar.">
O efeito desse aumento de tarifas nos EUA é previsível, segundo os economistas: volta da inflação nos EUA.>
Isso porque, em última instância, quem paga pelo aumento das tarifas é o consumidor doméstico. Assim, os americanos são quem acabarão pagando mais pela guerra comercial declarada por Trump, porque os produtos importados ficarão mais caros lá.>
O que é menos claro é o que deve acontecer nos demais países, como o Brasil. Aqueles que retaliarem na guerra comercial, provavelmente verão sua inflação subir também. Mesmo assim, essa inflação provavelmente será menor nos demais países do que nos EUA.>
"Digamos que o Brasil retalie com tarifas contra os EUA. Isso não vai afetar tanto os consumidores no Brasil quanto o que está acontecendo nos EUA, porque vocês estariam aumentando tarifas apenas contra um país, os EUA. E os EUA estão aumentando tarifas contra diversos países. Então isso seria mais inflacionário para nós [americanos] do que para vocês", diz o economista americano.>
A incerteza gerada por Trump pode provocar problemas que deixariam o mundo ainda mais longe da normalidade pré-pandemia, segundo o economista.>
"As estimativas de probabilidade de haver uma recessão nos EUA [feitas no mercado] cresceram bastante. Há um mês, essa chance era de 15%. Hoje os mercados estimam em 30%", diz.>
"Existe muita incerteza relacionada a Trump — ora impondo tarifas ora recuando, demitindo funcionários do governo, expulsando imigrantes sem documentos. As empresas estão começando a esperar para investir. Elas não estão gastando dinheiro porque querem esperar para ver o que acontece.">
Para Zeina Latif, o impacto da mais recente onda inflacionária só não foi pior na vida dos brasileiros porque os salários têm conseguido acompanhar os reajustes de preço — isso em função de o mercado de trabalho estar aquecido.>
"Os ajustes salariais estão na casa de 9%, com ganho real. É claro que as pessoas, mesmo tendo seus salários preservados, ficam ansiosas a cada ida no supermercado, em que trazem para casa um pacote menor.">
Mas o que esperar de agora em diante?>
Gesner Oliveira diz que os preços da economia brasileira devem seguir sofrendo com pressões de alta — com o governo brasileiro sinalizando que só poderá ter superávits fiscais em 2026.>
"Ninguém prevê reequilíbrio ou eliminação do déficit primário até 2026. Se essa situação vai continuar assim, o endividamento vai aumentar", diz Oliveira. >
"Isso significa uma fragilidade fiscal crescente, o que gera desconfiança em relação à moeda doméstica, e isso eleva o dólar. E, ao elevar o dólar, o preço dos importados fica pressionado, e sobe a inflação geral.">
Além disso, Oliveira afirma que, com a possibilidade de os juros americanos permanecerem mais altos por mais tempo, isso também pode prejudicar a economia brasileira.>
"Se a taxa de juros nos EUA demora para baixar ou não baixa, isso impõe taxa de juros mais alta no Brasil", afirma o economista.>
"A entrada de capital no Brasil depende da diferença entre o juro doméstico e o juro internacional. Se o juro internacional não cai, para continuar atraindo capital internacional, é preciso subir o juro doméstico. Fica difícil diminuir a taxa de juros no Brasil.">
Zeina Latif acredita que o Brasil também sofre com bombas fiscais — grandes gastos que devem surgir no futuro próximo.>
Uma dessas bombas que ela sugere que podem explodir em breve é a da aposentadoria dos trabalhadores autônomos do regime MEI, que contribuem relativamente pouco para a Previdência, mas que, nos próximos anos, começarão a se aposentar com valores maiores do que o que foi contribuído.>
"Além dos velhos problemas, tem os novos aparecendo", diz Latif. >
"O próximo presidente provavelmente vai ter que fazer uma nova reforma da Previdência. A última reforma foi importante, mas foi completa ou só ganhou tempo.">
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