Publicado em 6 de setembro de 2025 às 20:32
Deve ser difícil ser um astro de Hollywood estupidamente bonito e rico. Essa é, pelo menos, a mensagem de Jay Kelly, nova comédia dramática de Noah Baumbach, diretor de A Lula e a Baleia, Frances Ha e História de um Casamento.>
A vida do astro rico e bonito de Hollywood que dá título ao filme (interpretado por George Clooney) pode parecer encantadora. A qualidade do seu trabalho é excelente e ele conta com uma equipe de assistentes dedicados.>
Nos últimos tempos, contudo, ele tem começado a questionar o valor dos papéis que escolheu como ator e está preocupado por não ter passado tempo suficiente com suas filhas, uma das quais está fazendo um "mochilão" pela Europa com amigos.>
Você entende agora por que as coisas estão difíceis para ele?>
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Acontece que ele não precisava se preocupar. Ignorando que deveria começar a filmar um novo trabalho, Jay convoca uma frota de carrões Range Rovers para levar ele e sua comitiva a um jato particular que cruzará o Atlântico para que ele possa pegar o mesmo trem em Paris que sua filha e viajar com ela para receber um prêmio pelo conjunto da obra em um festival de artes na Toscana.>
Tudo é resolvido para ele por seus funcionários, liderados por seu fiel empresário (Adam Sandler, que está tão comoventemente sofrido e exausto que poderia entrar na fila para o Oscar de melhor ator coadjuvante).>
É verdade que os vagões da primeira classe do trem estão lotados, mas os passageiros nos assentos da econômica cumprimentam Jay com uma cortesia encantadora. É verdade que ele não tem sido um pai perfeito, mas suas filhas ainda o amam. >
Conflitos envolvendo seu pai egoísta (Stacy Keach) e um velho amigo invejoso da escola de formação de atores (Billy Crudup) são amenizados pela ajuda dos funcionários contratados. Nem mesmo problemas de primeiro mundo são questões para Jay.>
E essa é a falha fatal que permeia Jay Kelly, que estreou no Festival de Cinema de Veneza e chega à Netflix em dezembro. Quando um protagonista consegue realizar seus desejos com um estalar de dedos — ou, para ser mais preciso, abrindo seu sorriso radiante —, todo o perigo e a tensão desaparecem.>
O espectador pode rir das piadas bem-humoradas e se emocionar com as históricas cidades montanhosas ensolaradas da Toscana, mas é difícil se importar com as ansiedades de Jay. >
Afinal, o que está em jogo? Qual é a pior coisa que pode acontecer?>
Escrito por Baumbach e Emily Mortimer, Jay Kelly repete inúmeros outros filmes e séries de televisão americanos, muitos deles influenciados pelo sucesso de The White Lotus, que retratam com fascinação o estilo de vida dos ricos e famosos.>
No momento, há muitos desses tributos cintilantes ao 1% nas telas, mas a maioria delas inclui um assassinato (O Casal Perfeito) ou alguma conspiração perversa (Succession) para nos convencer de que não estamos apenas assistindo com inveja a uma seleção de cozinhas amplas com vista para o mar.>
Não existe esse tipo de tensão em Jay Kelly. Sua crise de meia-idade é tão branda que "crise" não é realmente a palavra apropriada — e, no entanto, esta é uma comédia que leva seu personagem principal profundamente a sério. Os espectadores podem ter dificuldade em fazer o mesmo.>
O filme começa com uma citação de Sylvia Plath (não que a angústia de Jay tenha algo a ver com a de Plath) e passa a reverenciá-lo como um semideus problemático: há flashbacks carinhosos de sua juventude, há discursos elogiando sua filmografia, há uma música piegas de piano dando ritmo à trilha sonora.>
Há também algumas frases curtas e concisas sobre sua incapacidade de apreciar sua própria condição extremamente privilegiada, mas durante a maior parte do tempo o espectador é convidado a apreciar um sujeito bem-intencionado e magicamente talentoso que enriqueceu o mundo com décadas de grandes atuações — e o fez sem problemas com drogas, escândalos sexuais ou outros esqueletos no armário.>
O sentimentalismo vago dessa fantasia romântica indulgente é difícil de digerir. >
Quando você assiste à fantástica série de Seth Rogen na Apple TV+ sobre executivos e estrelas de Hollywood The Studio, espera-se que ria com os personagens e também deles, mas não que os venere.>
O mesmo costumava ser verdade para os personagens de Baumbach. No passado, suas comédias ácidas eram compostas quase exclusivamente por pessoas tolas, frustradas e, às vezes, simplesmente horríveis. >
É decepcionante, portanto, que ele, como tantos cineastas hoje, seja tão brando com as pessoas mais privilegiadas do mundo. Serão elas realmente inerentemente fascinantes e impressionantes, só porque têm mais dinheiro no banco do que a média de muitos países?>
Talvez essas pessoas não pareçam mais tão privilegiadas para Baumbach.>
Um dos aspectos mais divertidos de seus filmes é a ligação que eles têm com sua própria vida e suas preocupações.>
A Lula e a Baleia, por exemplo, era sobre crescer no Brooklyn como filho de um aspirante a romancista, como foi o caso de Baumbach. Enquanto Somos Jovens era sobre um cineasta nova-iorquino enfrentando a meia-idade. História de um Casamento era sobre o divórcio de um diretor nova-iorquino.>
Tendo escrito o sucesso de bilheteria Barbie com sua esposa Greta Gerwig (que também dirigiu o filme), é compreensível que a alta sociedade glamourosa de Hollywood seja o assunto do momento em sua mente.>
Mas ele não poderia ter trazido um pouco de seu antigo humor cortante para o filme? Ao longo de Jay Kelly, Jay é bajulado pelo público e mimado por seus assessores. Baumbach também bajula e mima demais.>
'Jay Kelly' tem estréia prevista na Netflix em 5 de dezembro.>
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