Publicado em 12 de março de 2026 às 11:36
Em julho de 2019, o FBI fez uma busca na mansão de Jeffrey Epstein (1953-2019) em Nova York, nos Estados Unidos — no mesmo dia em que ele foi preso por tráfico sexual de menores.>
Os agentes abriram à força um grande cofre, onde encontraram diamantes, maços de dinheiro, passaportes, pastas com CDs e discos rígidos.>
Mas uma questão relacionada ao mandado impediu que eles levassem os objetos. E, quando os agentes retornaram com um novo mandado, o cofre havia sido esvaziado na sua ausência, segundo documentos do FBI.>
Richard Kahn, contador de Epstein desde 2005, havia ordenado aos funcionários da mansão que embalassem duas malas com o conteúdo do cofre e as enviassem para sua casa, segundo os agentes.>
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Quando o FBI conversou com o advogado de Kahn da época, o contador concordou em entregar as malas intactas, mas não quis que os agentes viessem à sua casa e se recusou a dizer quem havia dito a ele que retirasse os objetos.>
Uma fonte próxima da investigação sobre Epstein declarou à BBC que não sabia se Kahn já havia sido investigado ou entrevistado em relação aos processos criminais contra o financista condenado por pedofilia.>
O atual advogado de Kahn declarou à BBC News que seu cliente cooperou totalmente com os pedidos do FBI.>
Kahn e o advogado de Epstein de longa data, Darren Indyke, são os únicos administradores do seu espólio. Eles controlam todas as suas posses e patrimônio.>
São nomes pouco conhecidos, mas a dupla agora detém o controle sobre as compensações devidas a sobreviventes e os segredos contidos nos documentos ainda mantidos pelo espólio de Epstein.>
Estes documentos foram entregues ao Comitê de Fiscalização da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, mediante solicitação.>
Como parte da sua investigação sobre a rede de Epstein, o comitê do Congresso intimou a dupla a prestar depoimento. Kahn compareceu na quarta-feira (11/3) e Indyke deverá testemunhar na quinta, 19 de março.>
A BBC conversou com pessoas associadas às investigações sobre Epstein, examinou documentos de diversos processos judiciais e analisou o material mais recente dos arquivos de Epstein, publicados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos.>
O objetivo foi tentar descobrir mais sobre a suposta participação dos dois homens na vida de Epstein e após a sua morte.>
Epstein nomeou Indyke e Kahn como executores do seu testamento em agosto de 2019, apenas dois dias antes de morrer na prisão, enquanto aguardava julgamento por tráfico sexual de menores.>
Ele revisou seu testamento para transferir todo o seu patrimônio para um fundo com o nome do ano do seu nascimento, a ser administrado pelo advogado e pelo contador.>
No seu papel de executores, Indyke e Kahn concordaram em pagar acordos de compensação e incluíram condições para evitar que sobreviventes que aceitassem os pagamentos apresentassem novas ações judiciais pessoais contra eles. Outras acusações ainda estão pendentes.>
Como beneficiários do fundo, cada um dos dois também poderá receber dezenas de milhões de dólares do que restar após o pagamento das indenizações.>
Ainda não se sabe ao certo o valor do espólio de Epstein. Calcula-se que fosse de cerca de US$ 635 milhões (cerca de R$ 3,28 bilhões) na época da sua morte, segundo a empresa de advocacia Edwards Henderson, que representa grande parte das sobreviventes.>
Uma das mulheres abusadas por Epstein, que pediu para permanecer anônima, contou à BBC que Indyke e Kahn tinham questões a responder sobre o que eles sabiam sobre a sua "organização".>
"Jeffrey era apenas uma pessoa", declarou ela. "Não há como ele tenha conseguido acompanhar tudo isso sozinho.">
"Sempre dizemos 'siga o dinheiro', certo? Se você seguir o dinheiro, poderá entender muito sobre como esta operação era conduzida.">
Os processos judiciais afirmam que Indyke ou Kahn (frequentemente, ambos) "tinham autoridade para assinar virtualmente todas as contas mantidas por Epstein", ou seja, eles tinham autorização para realizar transações.>
A dupla também ajudou a administrar diversas empresas de Epstein. Algumas delas, segundo os processos, existiam apenas para atender à sua operação de tráfico sexual.>
O advogado de Kahn declarou à BBC que "não existe base para essas acusações" e que as empresas de Epstein não operavam para ocultar suas atividades.>
"Virtualmente todas elas eram entidades que pagavam impostos, cuja propriedade nunca foi oculta", segundo ele.>
Kahn e Indyke teriam recebido milhões de dólares em honorários e empréstimos de Epstein, pago sobreviventes e até ajudado a viabilizar casamentos em coerção para mulheres traficadas do exterior para possibilitando que elas permanecessem nos Estados Unidos, segundo documentos apresentados à Justiça.>
Uma das ações afirma que ninguém, exceto Ghislaine Maxwell (ex-socialite britânica e, agora, associada condenada de Epstein) era "tão essencial e central para as operações de Epstein" quanto Indyke e Kahn.>
O congressista americano Suhas Subramanyam, membro do Comitê de Fiscalização da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, declarou à BBC News que "eles talvez sejam duas das melhores pessoas com quem conversar" para saber melhor como Epstein administrava suas operações.>
"Certamente, as vítimas os mencionaram como pessoas que conheciam alguns dos crimes de Jeffrey Epstein, não apenas os negócios financeiros, mas até o tráfico sexual", afirma ele.>
Kahn e Indyke negaram qualquer irregularidade nas suas interações com Epstein e não foram acusados criminalmente.>
"Nenhum juiz, de nenhum tribunal, concluiu que o sr. Indyke ou o sr. Kahn tenha cometido qualquer irregularidade, de nenhum tipo", declarou à BBC o advogado de Indyke, Daniel Weiner.>
"Nenhuma mulher acusou nenhum dos homens de cometer ou presenciar abusos sexuais, nem afirmou, em nenhum momento, ter reportado a eles qualquer acusação de abuso do sr. Epstein.">
A mulher abusada por Epstein contou à BBC que o comparecimento dos homens perante o comitê era aguardado porque as sobreviventes "clamavam por eles há muito tempo".>
"Eles precisam responder por tudo isso", afirma ela.>
"Só espero que as pessoas realmente falem e simplesmente não apelem à Quinta Emenda e fiquem ali sentadas em silêncio, pois ninguém irá ganhar com isso.">
Além do testemunho programado, como executores do espólio de Epstein, Indyke e Kahn forneceram ao Comitê de Fiscalização da Câmara "milhares de páginas de documentos, fotografias e outros materiais" quando intimados, segundo o advogado de Indyke.>
Mas alguns itens, como as mensagens do livro de aniversário de Epstein, vieram com supressões feitas antecipadamente pelos próprios executores. A equipe jurídica de Indyke e Kahn afirma que elas foram feitas para proteger a identidade das vítimas.>
Kahn não era apenas o contador de Epstein.>
Os documentos da companhia indicam que ele exerceu uma atividade paralela como gerente de uma companhia de design de Nova York nos anos 2010.>
Mas os papéis apresentados à Justiça sugerem que a companhia era parte de um conjunto de empresas usadas por Epstein para canalizar dinheiro para as vítimas e para as pessoas que recrutavam mulheres que seriam vítimas de abuso.>
Estes detalhes foram revelados em documentos de um processo judicial movido pelas Ilhas Virgens Americanas contra o espólio de Epstein e seus executores, Indyke e Kahn, baseado em "tráfico humano e fraudes financeiras".>
O caso levou a um acordo em 2022. O espólio concordou em pagar mais de US$ 105 milhões (cerca de R$ 542 milhões) em dinheiro, além de metade da renda obtida com a venda de uma das ilhas particulares de Epstein.>
Os documentos judiciais do caso afirmam que a dupla ajudou Epstein a gerenciar 140 contas bancárias.>
Uma das contas bancárias da companhia de design foi totalmente financiada com dinheiro transferido das contas pessoais de Epstein, segundo os documentos do caso.>
A ação judicial afirma que, no papel, a proprietária da empresa de design era uma mulher que estava sendo abusada sexualmente por Epstein e era paga através da companhia.>
A outra pessoa que estava na folha de pagamento da empresa foi relacionada por Kahn como designer em alguns documentos fornecidos ao banco, segundo os arquivos do caso.>
Mas a ação afirma que outro documento de Kahn revelou que ela tinha ocupação completamente distinta, o que sugere que não havia razão legítima para que a companhia pagasse um salário para ela.>
O advogado de Kahn afirma que não há base para as acusações de que seu cliente estivesse envolvido em atividades ilegais ou irregulares.>
"O trabalho do sr. Kahn para Epstein foi exatamente o mesmo tipo de contabilidade que milhares de profissionais fornecem para seus clientes todos os dias", declarou Dan Ruzumna à BBC.>
Os documentos do caso indicam que Indyke e Kahn também usaram outra empresa de Epstein, registrada nas Ilhas Virgens Americanas, para emitir cheques no valor de US$ 300 mil (cerca de R$ 1,5 milhão) para jovens mulheres ou para um advogado de imigração que ajudou mulheres vítimas de tráfico a permanecer nos Estados Unidos.>
Kahn não emitiu cheques "para mulheres jovens e/ou um advogado de imigração em nome de Epstein, pois ele não era procurador de nenhuma conta bancária de Epstein até pouco antes da morte de Epstein", afirma Ruzumna, seu advogado.>
"As entidades corporativas de Epstein atendiam interesses comerciais legítimos, como empregar funcionários da casa, pagar despesas associadas a um dado bem de propriedade daquela entidade corporativa, fazer contribuições para a caridade e garantir o pagamento adequado de impostos", destacou ele.>
Indyke fez repetidas retiradas de dinheiro, aparentemente com o propósito de fornecer fundos ao criminoso sexual condenado, sem acionar as exigências bancárias de fornecimento de informações, segundo os documentos judiciais das Ilhas Virgens Americanas.>
As mulheres exploradas sexualmente por Epstein afirmam que ele usava dinheiro vivo para fazer pagamentos a elas e às pessoas que recrutavam novas vítimas.>
Os documentos do caso dizem que, em uma das ocasiões, Indyke levou dois cheques para um banco de Nova York e sacou o dinheiro. Foram US$ 7,5 mil (cerca de R$ 39 mil) de uma das contas pessoais de Epstein e US$ 4 mil (cerca de R$ 21 mil) da conta empresarial de Indyke.>
Ele sacou um dos cheques e, segundo os documentos, disse que retornaria no dia seguinte para receber o segundo e "evitar toda a burocracia".>
Ao longo de dois anos, Indyke sacou cheques 45 vezes, usando outra conta pessoal de Epstein. Foram US$ 7,5 mil por vez, que é o limite bancário para retiradas de terceiros, segundo os documentos judiciais.>
A ação judicial também afirma que houve 97 retiradas de US$ 1 mil (cerca de R$ 5,2 mil) diferentes em menos de um ano de um caixa automático a pouca distância do escritório de Indyke, mas não especifica quem sacou o dinheiro.>
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Indyke e Kahn "tiveram lucros significativos com seu relacionamento com Epstein", segundo os documentos do caso nas Ilhas Virgens Americanas.>
Entre 2011 e 2019, Indyke recebeu US$ 16 milhões (cerca de R$ 82,5 milhões) e Kahn, US$ 10 milhões (cerca de R$ 52 milhões) de Epstein e suas empresas, segundo os documentos da ação nas Ilhas Virgens.>
Estes valores incluem empréstimos que teriam sido "perdoados" por Epstein em seu testamento.>
Os montantes seriam "novas evidências da natureza ilícita do trabalho realizado por eles [Indyke e Kahn]", segundo os documentos.>
O advogado de Indyke, Daniel Weiner, declarou que "o sr. Indyke e o sr. Kahn negam todas estas afirmações de culpa, responsabilidade, irregularidades ou danos de qualquer tipo".>
Um documento dos arquivos de Epstein que, aparentemente, é o testamento do pedófilo, indica que Indyke e Kahn também têm direito a uma "remuneração anual" pelo cargo de executores, no valor de US$ 250 mil (cerca de R$ 1,3 milhão) e que seus honorários legais são cobertos pelo espólio.>
Mas o advogado de Kahn, Ruzumna, declarou à BBC News que o testamento "dispõe... que cada um receba um pagamento único de US$ 250 mil por administrar o espólio".>
O advogado de Indyke afirmou que os executores "nunca agiram para colocar seus próprios interesses acima das suas tarefas como executores. Eles continuam a administrar o espólio... de total acordo com a legislação aplicável.">
Epstein incentivou algumas das mulheres traficadas por ele do exterior a encontrar cidadãos americanos para se casarem — frequentemente outra mulher — e garantir que elas pudessem permanecer no país.>
Após sua condenação por solicitação de prostituição de uma menor no Estado americano da Flórida, em 2008, ele se concentrou em encontrar e abusar de mulheres do Leste europeu, que eram "mais isoladas, dependentes e vulneráveis", segundo o processo das Ilhas Virgens Americanas.>
"Acho que está na hora de você encontrar uma namorada americana", escreveu Epstein em um e-mail para uma mulher não identificada, em março de 2013. "O casamento com o mesmo sexo será a forma mais rápida de obter o green card [o documento que dá direito à residência permanente nos EUA]. De longe.">
No mesmo ano, outra mulher não identificada enviou um e-mail para Epstein, dizendo: "Vamos agora conseguir a licença de casamento. E ela pergunta se é possível se reunir com você? Porque ela tem algumas perguntas.">
A BBC teve acesso a uma certidão de casamento entre duas mulheres, uma das quais se apresentou posteriormente dizendo ter sido vítima de abuso.>
O caso das Ilhas Virgens Americanas, que foi objeto de acordo entre as partes, acusou Indyke e Kahn de "facilitarem conscientemente" pelo menos três casamentos entre vítimas americanas e estrangeiras, sob coerção da operação de tráfico de Epstein.>
Houve ameaças de "sérios danos corporais e à reputação", caso elas se recusassem ou tentassem fugir.>
Eles conduziram o trabalho legal e contábil para elaborar "uma fraude que vinculava ainda mais as vítimas a Epstein", permitindo que ele as controlasse e abusasse sexualmente delas, segundo os documentos do caso.>
Indyke e Kahn negam as acusações.>
Uma mulher americana repetidamente abusada por Epstein e pressionada para fazer sexo com seus associados comerciais por mais de uma década foi forçada a entrar em um casamento facilitado por Indyke, segundo os documentos judiciais.>
O objetivo era evitar que outra vítima de Epstein fosse deportada dos Estados Unidos, segundo os documentos. E o procurador-geral das Ilhas Virgens Americanas afirmou que Indyke e um advogado de imigração de Nova York começaram imediatamente a ajudar a preparar a vítima para sua entrevista junto às autoridades americanas de imigração.>
Kahn forneceu uma carta de referência para o processo de imigração, segundo os documentos judiciais.>
Quando a mulher pediu para pôr fim ao casamento e ir embora, os documentos do caso afirmam que Indyke tentou repetidamente convencê-la a não se divorciar e "a ameaçou de perder a proteção de Epstein e seus associados".>
O advogado de Kahn, Ruzumna, declarou à BBC que seu cliente acreditava estar fazendo um favor a ela e não participando de uma farsa. E que a mulher e sua parceira agradeceram a ele por fornecer a carta de referência.>
O advogado de Indyke, Weiner, não comentou especificamente nenhuma das acusações sobre os casamentos.>
Apesar de Epstein ter ocupado as manchetes globais por mais de uma década com suas atividades criminosas, os advogados de Indyke e Kahn afirmam que seus clientes rejeitam categoricamente qualquer indicação de que "teriam facilitado ou assistido conscientemente o sr. Epstein nos seus abusos sexuais ou tráfico de mulheres, ou que tivessem conhecimento das ações do sr. Epstein enquanto forneciam serviços legais e contábeis, respectivamente, ao sr. Epstein".>
Em 2020, Indyke e Kahn, na sua capacidade de executores, entraram em um acordo com o Programa de Compensação das Vítimas de Jeffrey Epstein (EVCP, na sigla em inglês). Este programa oferece às sobreviventes uma oportunidade de buscar justiça financeira pelos abusos sofridos.>
Para garantir que as reivindicações das mulheres ficassem "livres de qualquer interferência do espólio de Epstein", segundo EVCP, foi introduzido um administrador independente.>
O número de reivindicações foi mais que o dobro do esperado.>
Documentos judiciais indicam que 136 mulheres receberam um valor reunido de US$ 121 milhões (cerca de R$ 624 milhões) do espólio de Epstein. Outros 59 pedidos de indenização de outras sobreviventes foram acertados com um total de US$ 48 milhões (cerca de R$ 248 milhões).>
Indyke e Kahn aprovaram a liberação dos fundos do espólio "para pagar os custos e honorários legais de outros co-conspiradores", também segundo os documentos judiciais.>
Ambos, Indyke e Kahn, negam esta afirmação e declararam à BBC que o espólio não pagou os honorários legais de "nenhum conspirador conhecido dos crimes de Epstein".>
Além disso, segundo uma ação judicial apresentada no mês passado, o espólio de Epstein concordou em pagar até US$ 35 milhões (cerca de R$ 181 milhões) a sobreviventes que se recusaram a se inscrever no programa de compensação e acionaram Indyke e Kahn pessoalmente, alegando que a dupla facilitou as atividades de tráfico sexual do financista condenado e "escolheu o dinheiro e o poder, em vez de respeitar a lei".>
Antes do depoimento dos dois homens no Capitólio, o advogado de Indyke, Daniel Weiner, declarou que "os srs. Indyke e Kahn têm total intenção de dar continuidade à sua cooperação com o Comitê e aguardam a oportunidade de esclarecer o seu não envolvimento com as improbidades de Epstein".>
Paralelamente, a sobrevivente anônima fez a seguinte questão à BBC News:>
"Quando você fala nesses enormes montantes, esse dinheiro ofusca e prevalece sobre a vontade e a necessidade de fazer o que é certo? Não sei. E cabe a eles decidir moralmente. Espero que eles façam o que é certo.">
Com colaboração de Paul Myers.>
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