Publicado em 14 de outubro de 2025 às 10:32
O cofundador e CEO da OpenAI, Sam Altman, surpreendeu ao responder a perguntas de jornalistas durante a conferência DevDay nesta semana, algo raro entre executivos de tecnologia. Altman admitiu que há partes do segmento de inteligência artificial que "estão meio infladas neste momento".>
"Sei que é tentador escrever uma reportagem falando em bolha", disse Altman respondendo à pergunta da BBC, sentado ao lado dos principais profissionais da OpenAI, responsável por produtos como o ChatGPT.>
No Vale do Silício, região dos Estados Unidos onde estão sediadas as principais empresas de tecnologia, o debate sobre se as empresas de inteligência artificial (IA, ou AI, em inglês) estão supervalorizadas tem ganhado fôlego.>
Céticos, alguns apenas em ambientes privados e outros agora na esfera pública, questionam se a disparada no valor de mercado dessas empresas pode ser, ao menos em parte, resultado do que chamam de "engenharia financeira".>
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Em outras palavras, há quem tema que essas empresas estejam valendo mais do que deveriam.>
Altman disse esperar ver investidores cometendo erros e startups sem futuro faturando fortunas. Mas ele ressaltou que, com a OpenAI, "algo de verdade está acontecendo".>
Nem todos estão convencidos.>
Nos últimos dias, alertas sobre uma bolha da IA vieram do Banco da Inglaterra, do Fundo Monetário Internacional (FMI) e também de Jamie Dimon, chefe do banco JP Morgan, que disse à BBC que "o nível de incerteza deveria estar mais presente na mente da maioria das pessoas".>
E aqui no Vale do Silício, frequentemente considerado o polo tecnológico do mundo, as preocupações crescem.>
Em debate realizado no Museu da História do Computador, no Vale do Silício, também nesta semana, o pioneiro em IA Jerry Kaplan disse a uma plateia lotada que já viveu quatro bolhas.>
Ele está especialmente preocupado agora, dado o montante de dinheiro em jogo, que é muito maior do que na chamada bolha das empresas ponto com — como ficou conhecida a crise de especulação que aconteceu na bolsa americana no final dos anos 1990. Há muito mais a perder.>
"Quando [a bolha] estourar, vai ser muito ruim, e não apenas para quem trabalha com IA", disse. "Vai arrastar o restante da economia junto.">
Apesar das preocupações, alguns especialistas veem oportunidades. Na Stanford Graduate School of Business, que formou diversos empreendedores de tecnologia, a professora Anat Admati afirma que é difícil prever uma bolha e só é possível ter certeza após seu estouro.>
"É muito difícil prever uma bolha. E você não pode afirmar com certeza que estava em uma até que ela tenha estourado", disse.>
Mas os dados preocupam muitos.>
Empresas ligadas à IA responderam por 80% dos ganhos surpreendentes da Bolsa americana neste ano, e a Gartner, empresa americana de pesquisa e consultoria em tecnologia da informação, estima que os gastos globais com IA devem chegar a US$ 1,5 trilhão (cerca de R$ 8,4 trilhões) antes do fim de 2025 — a título de comparação, a soma de todos os bens e serviços produzidos (PIB) no Brasil em 2024 chegou a R$ 11,7 trilhões.>
A OpenAI, que popularizou a IA com o ChatGPT em 2022, está no centro de um emaranhado de acordos atualmente sob intensa análise.>
Por exemplo, em setembro de 2025, a OpenAI firmou um contrato de US$ 100 bilhões (cerca de R$ 560 bilhões) com a fabricante de chips Nvidia, atualmente a companhia de capital aberto mais valiosa do mundo. Em agosto, a Nvidia divulgou uma receita de US$ 46,7 bilhões (cerca R$ 247,5 bilhões) no segundo trimestre do ano, um aumento de 56% em relação ao mesmo período de 2024.>
O acordo amplia um investimento anunciado anteriormente no caminho inverso, da Nvidia na OpenAi, com a expectativa de que a OpenAI construa centros de dados usando os chips avançados da Nvidia.>
Mas na segunda-feira (13/10), a OpenAI anunciou planos de comprar equipamentos de desenvolvimento de IA no valor de bilhões de dólares da AMD, fabricante de chips rival da Nvidia, em um negócio que pode torná-la uma das maiores acionistas da empresa.>
Vale lembrar que a OpenAI é uma companhia privada, sem ações negociadas na Bolsa de Valores, embora recentemente tenha sido avaliada em meio trilhão de dólares (cerca de R$ 2,8 trilhões).>
A gigante de tecnologia Microsoft também é investidora significativa na OpenAI, e a empresa de computação em nuvem Oracle mantém um contrato de US$ 300 bilhões (cerca de R$ 1,7 trilhão) com a OpenAI.>
O projeto Stargate da OpenAI, no Estado americano do Texas, financiado com apoio da Oracle e do conglomerado japonês SoftBank e anunciado na Casa Branca durante a primeira semana do governo Donald Trump, cresce a cada mês.>
Além disso, a Nvidia detém participação na startup de IA CoreWeave, que fornece parte da enorme infraestrutura da OpenAI.>
Especialistas do Vale do Silício alertam que, à medida que esses arranjos financeiros complexos se tornam cada vez mais comuns, eles podem estar distorcendo a percepção sobre a demanda por IA.>
Algumas pessoas não estão poupando palavras sobre o assunto, chegando a chamar os acordos de "financiamento circular" ou até de "financiamento de fornecedor", quando uma empresa investe ou empresta dinheiro a seus próprios clientes para que eles continuem comprando.>
"Sim, os empréstimos de investimento são sem precedentes", disse Altman na segunda-feira (13/10). Mas ele acrescentou: "Também é sem precedentes empresas crescerem em receita tão rápido.">
A receita da OpenAI cresce rapidamente, mas é importante ressaltar que a companhia nunca teve lucro.>
E não é um bom sinal que as pessoas com quem a BBC conversou continuem mencionando a Nortel, a fabricante canadense de equipamentos de telecomunicações que tomou empréstimos de forma intensa para financiar negócios de seus clientes e, assim, inflar artificialmente a demanda por seus produtos.>
Por sua vez, Jensen Huang, da Nvidia, defendeu o acordo com a OpenAI à CNBC na segunda-feira (13/10), afirmando que a empresa não é obrigada a comprar a tecnologia da sua companhia com o dinheiro investido.>
"Eles podem usar como quiserem", disse Huang. "Não há exclusividades. Nosso objetivo principal é apoiá-los e ajudá-los a crescer, e fazer o ecossistema crescer também.">
Kaplan, pioneiro em IA, identifica sinais de que o setor e, portanto, a economia em geral, pode estar em apuros. Em momentos de euforia, diz ele, empresas anunciam grandes iniciativas e planos de produtos para os quais ainda não têm capital.>
Enquanto isso, investidores de varejo se apressam para entrar na onda das startups.>
A valorização das ações da fabricante de chips AMD nesta semana pode indicar que investidores tentam lucrar com a máquina de riqueza do ChatGPT e, enquanto isso acontece, a infraestrutura física real, destinada a atender à aparentemente insaciável demanda por mais desenvolvimento de IA, está sendo construída.>
"Estamos criando um novo desastre ecológico feito pelo homem: enormes centros de dados em locais remotos, como desertos, que vão enferrujar e liberar substâncias nocivas ao meio ambiente, sem ninguém para ser responsabilizado, porque construtores e investidores já terão ido embora", disse Kaplan.>
Hoje, há 162 data centers espalhados pelo Brasil, conforme estimativas da Associação Brasileira de Data Centers (não há dados públicos oficiais), com capacidade instalada em torno de 750MW e 800MW.>
Algo dessa magnitude, para efeito de comparação, é semelhante ao consumo de energia de uma cidade de cerca de 2 milhões de habitantes, conforme estimativas feitas por técnicos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) a pedido da reportagem.>
Usando a mesma analogia do consumo de eletricidade por habitante (que não é uma comparação perfeita, mas serve para dar dimensão da magnitude), a demanda por energia projetada para os data centers em 2038 equivaleria à de uma cidade de 43 milhões de habitantes, quase quatro vezes a população da cidade de São Paulo (11,5 milhões, conforme o Censo 2022).>
Data centers que têm a capacidade de treinar, implementar e disponibilizar aplicações e serviços de IA são equipados com circuitos eletrônicos com chips de alto desempenho (como o H100 da Nvidia) que consomem muito mais energia do que os tradicionais.>
Com a popularização do uso da inteligência artificial, contudo, a expansão prevista para a próxima década deve multiplicar esse número em mais de 20 vezes.>
Mesmo que estejamos em uma bolha, a esperança do Vale do Silício é que os investimentos feitos agora não se percam necessariamente.>
"O que me conforta é que a internet foi construída sobre as cinzas do excesso de investimento na infraestrutura de telecomunicações de ontem", disse Jeff Boudier, que desenvolve produtos no hub de IA Hugging Face.>
"Se há excesso de investimento em infraestrutura para cargas de trabalho de IA, pode haver riscos financeiros associados", afirmou.>
"Mas isso vai viabilizar muitos novos produtos e experiências, incluindo aqueles que nem estamos imaginando hoje.">
Há muitos que acreditam no potencial da IA de transformar a sociedade.>
A questão é se o dinheiro para financiar as ambições das principais empresas do setor pode estar se esgotando.>
"A Nvidia parece ser o credor ou investidor final", disse Rihard Jarc, fundador da newsletter UncoverAlpha. "Quem mais teria capacidade hoje de investir US$ 100 bilhões (cerca de R$ 560 bilhões) em outra empresa?">
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