Publicado em 20 de novembro de 2025 às 14:44
As dez cobras enfrentavam uma situação difícil.>
Recolhidas na Amazônia colombiana, as jabutiboias (Erythrolamprus reginae) permaneceram em cativeiro sem comida por vários dias, até ganharem de presente uma presa nada apetitosa: sapos-flecha (Ameerega trivittata).>
A pele dessa espécie de sapo contém toxinas mortais, como histrionicotoxinas, pumiliotoxinas e decaidroquinolinas, que interferem nas proteínas celulares essenciais.>
Seis das jabutiboias preferiram passar fome. As outras quatro deslizaram intrepidamente para caçar.>
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Mas, antes de engolir a refeição, elas arrastaram os sapos no chão, como fazem algumas aves para retirar as toxinas das suas presas, segundo a bióloga Valeria Ramírez Castañeda, da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos, que conduziu o experimento com seus colegas.>
Três das quatro cobras sobreviveram à refeição, o que indica que seus corpos conseguiram lidar com as toxinas remanescentes.>
Os seres vivos produzem moléculas mortais destinadas a matar seus inimigos há centenas de milhões de anos.>
Primeiro, vieram os micróbios, que usavam substâncias para eliminar concorrentes ou atacar células hospedeiras sendo invadidas. Depois, os animais, para matar presas ou afastar predadores, e as plantas, para se defender dos herbívoros.>
Em resposta, muitos animais evoluíram criando formas de sobreviver a essas toxinas. Às vezes, eles chegam a armazená-las para usar contra seus próprios oponentes.>
Os cientistas estão começando a descobrir essas criativas defesas antitoxinas. Eles esperam identificar melhores tratamentos para o envenenamento das pessoas.>
Basicamente, eles estão aprendendo sobre uma força que vem ajudando silenciosamente a modelar as comunidades biológicas, segundo a bióloga evolutiva Rebecca Tarvin, também da Universidade da Califórnia em Berkeley. Ela ajudou a supervisionar o experimento com as cobras e descreveu essas estratégias na edição de 2023 da Revista Anual de Ecologia, Evolução e Sistemática (em inglês).>
"Apenas alguns miligramas de um único composto e aquilo pode mudar todas as interações em um ecossistema", afirma Tarvin.>
As espécies se tornam tóxicas em uma série de formas. Algumas delas produzem as próprias toxinas.>
Os sapos da família Bufonidae, por exemplo, produzem moléculas chamadas glicosídeos cardíacos. Eles impedem uma proteína denominada bomba de sódio e potássio de desviar os íons para dentro e para fora das células.>
Este desvio é fundamental para manter o volume celular, contrair os músculos e transmitir impulsos nervosos.>
Outros animais abrigam bactérias produtoras de toxinas nos seus corpos. É o caso do baiacu; sua carne contém tetrodotoxina e seu consumo pode ser fatal.>
E muitos outros conseguem suas toxinas na alimentação. Exemplos são os sapos venenosos, que devoram ácaros e insetos que contêm toxinas. Estes sapos incluem a espécie que foi oferecida como alimento para as jabutiboias.>
À medida que muitos animais evoluíam para se tornarem tóxicos, eles também reprogramavam seus corpos para evitar que se envenenassem a si próprios. E o mesmo aconteceu com as criaturas que eles comem, ou com as que se alimentam deles.>
A mais estudada dessas adaptações envolve alterações das proteínas normalmente desativadas pelas toxinas, que passam a ser resistentes.>
Insetos que crescem e se alimentam de asclépias, por exemplo, que são plantas ricas em glicosídeos, possuem bombas de sódio e potássio evoluídas, às quais o glicosídeo não consegue se ligar.>
Mas alterar uma molécula vital pode criar complicações para uma criatura, segundo a bióloga molecular Susanne Dobler, da Universidade de Hamburgo, na Alemanha.>
Nos seus estudos com o percevejo Oncopeltus fasciatus, que se alimenta de sementes de asclépias, ela descobriu que, quanto mais resistente a glicosídeos a bomba se torna, menos eficiente ela fica.>
Este é um problema nas células nervosas, onde a bomba é especialmente importante. Mas o inseto parece ter evoluído de forma de solucionar esta questão.>
Em um estudo de 2023, Dobler e seus colegas estudaram a resistência a toxinas em três versões da bomba produzidas pela criatura. Eles descobriram que a mais funcional, no cérebro, também é a mais sensível à toxina.>
O percevejo deve ter evoluído outras formas de proteger o cérebro contra os glicosídeos, segundo Dobler.>
A bióloga suspeita que proteínas chamadas transportadores ABCB estejam envolvidas. Elas ficam nas membranas celulares e desviam resíduos e outros produtos indesejados para fora das células.>
Ela descobriu que certas mariposas-esfinge usam proteínas transportadoras ABCB situadas em torno dos seus tecidos nervosos para eliminar glicosídeos cardíacos das células. E talvez o Oncopeltus fasciatus faça algo parecido.>
Dobler também está testando a hipótese de que muitos insetos possuem transportadores ABCB nas suas membranas intestinais, que impedem as substâncias tóxicas de entrar no corpo.>
Isso poderia explicar por que o besouro-pimenta, que se alimenta de lírios-do-vale ricos em glicosídeos, parece não se abalar com as toxinas e simplesmente as excreta. E as fezes resultantes ainda repelem formigas predadoras, segundo relatou Susanne Dobler em 2023.>
Para as jabutiboias, o fígado parece ser fundamental. Nos experimentos com cultivos celulares, a equipe de Rebecca Tarvin descobriu evidências de que algo no extrato de fígado da cobra protege o animal contra as toxinas dos sapos-flecha.>
A hipótese formulada pela equipe é que as cobras possuem enzimas que transformam as substâncias mortais em formas atóxicas, mais ou menos como o corpo humano faz com o álcool e a nicotina.>
O fígado da cobra também pode conter proteínas que se ligam às toxinas e as impedem de se unir aos seus alvos, absorvendo-as como se fossem esponjas.>
Os cientistas descobriram essas proteínas "esponjas de toxinas" no sangue de certos sapos venenosos. Elas permitem que os animais resistam às toxinas mortais saxitoxina e alcaloides da sua alimentação.>
O esquilo-terrestre-da-califórnia parece empregar um truque parecido para se defender do veneno da cascavel, um coquetel de dezenas de toxinas que destroem as paredes dos vasos sanguíneos, evitam a coagulação do sangue e muito mais.>
O sangue desta espécie de esquilo contém proteínas que bloqueiam algumas dessas toxinas, como as utilizadas pelas próprias cascavéis para sua proteção, caso o veneno escape das suas glândulas venenosas especializadas.>
A composição do veneno é diferente entre as várias populações de cobras e o biólogo evolutivo Matthew Holding, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, tem evidências de que a mistura antiveneno do esquilo-terrestre-da-califórnia é adaptada de acordo com as cobras da região.>
Essas defesas não são infalíveis. As cascavéis evoluem constantemente para produzir novos venenos e superar as adaptações dos esquilos, segundo Holding, e mesmo a cascavel irá morrer se for injetada com quantidade suficiente do seu próprio veneno.>
É por isso que os animais, mesmo os resistentes, tentam evitar as toxinas como primeira medida defensiva. Daí vem o costume das cobras terrestres de arrastar a presa e a prática de algumas tartarugas de consumir apenas a pele da barriga e as vísceras de salamandras tóxicas, não a sua pele traseira mortal.>
Mesmo os insetos que são resistentes a glicosídeos cardíacos, como as larvas da borboleta-monarca, cortam as veias da asclépia para permitir a saída do fluido tóxico, antes de adentrar na planta.>
Muitos animais também encontram formas de armazenar com segurança as substâncias tóxicas que consomem e utilizá-las com seus próprios objetivos.>
O besouro-metálico, por exemplo, ingere glicosídeos cardíacos das plantas hospedeiras e, provavelmente por transportadores ABCB, os lança sobre as costas para autodefesa.>
"Quando você faz algo para perturbar esses besouros, pode ver pequenas gotículas aparecerem sobre o seu élitro, a superfície dorsal dos insetos", explica Dobler.>
Com este tipo de cooptação de venenos, alguns insetos ficam dependentes das suas plantas hospedeiras para sobreviver.>
A relação entre a borboleta-monarca e a asclépia é um exemplo típico dessa dependência e do longo alcance que essas conexões interligadas podem atingir.>
Em um estudo de 2021, o biólogo evolutivo e geneticista Noah Whiteman, da Universidade da Califórnia em Berkeley, e um de seus colegas identificaram quatro animais que evoluíram para tolerar glicosídeos cardíacos, o que permitiu a eles se alimentar da borboleta-monarca.>
Um deles é o bicudo-de-cabeça-preta, um pássaro que se banqueteia com as monarcas nas florestas de pinheiros no alto das montanhas do México, quando as borboletas voam para o sul no inverno.>
Whiteman nos recomenda pensar nesta ideia: uma toxina que foi produzida por uma planta de asclépia em uma pradaria de Ontário, no Canadá, ajudou a formar a biologia de uma ave que, agora, pode jantar com segurança em uma floresta localizada a quilômetros de distância.>
"É simplesmente incrível a jornada dessa pequena molécula e a influência que ela teve na evolução", exclama ele.>
* Este artigo foi publicado originalmente pela revista jornalística independente Knowable e reproduzido pela BBC Future sob licença Creative Commons. Leia a versão original (em inglês).>
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