Publicado em 27 de março de 2025 às 06:44
O ex-presidente Jair Bolsonaro vai enfrentar um processo criminal no Supremo Tribunal Federal (STF), suspeito de liderar uma tentativa de golpe de Estado — e, caso seja considerado culpado de todos os crimes dos quais é acusado, sua pena pode superar 40 anos de prisão.>
Seu prognóstico é considerado ruim no STF porque a Corte já condenou centenas de pessoas por atentar contra o Estado Democrático de Direito, ao participarem dos atos de 8 de janeiro de 2023, quando radicais bolsonaristas depredaram as sedes dos Três Poderes.>
Parte desses condenados recebeu penas consideradas elevadas, de 14 a 17 anos de prisão, algo que gera controvérsia entre juristas e divide os próprios ministros do Supremo.>
Durante o julgamento que tornou Bolsonaro réu, o ministro Luiz Fux concordou com a abertura do processo contra Bolsonaro, uma decisão unânime da Primeira Turma do STF, mas usou seu voto para apontar possíveis excessos nas penas que vêm sendo aplicadas nos casos do 8 de janeiro.>
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"Os juízes, na sua vida, têm sempre de refletir dos erros e dos acertos. Até porque os erros autenticam nossa humanidade. Então, é preciso que nós também tenhamos essa capacidade de refletir", afirmou.>
Ele aproveitou sua manifestação para explicar por que pediu vista no julgamento de uma mulher presa nos atos antidemocráticos e que ficou famosa por ter pichado a frase "Perdeu, mané" na estátua da Justiça, que fica em frente ao STF, durante os ataques. Moraes já votou pela condenação da ré a 14 anos de prisão.>
"Eu vou fazer uma revisão dessa dosimetria [da pena]", afirmou, sobre o caso da mulher.>
"E eu confesso que em determinadas ocasiões me deparo com pena exacerbada, e foi por essa razão que eu pedi vista desse caso [da mulher], porque eu quero analisar o contexto em que essa senhora se encontrava", disse Fux.>
"Nós julgamos sob violenta emoção após a verificação da tragédia do 8 de janeiro", continuou.>
Após sua fala, o ministro Alexandre de Moraes, relator dos casos do 8 de janeiro, respondeu a Fux. Ele argumentou que a mulher processada não teria apenas pichado a estátua em frente ao STF.>
"É um absurdo as pessoas quererem comparar aquela conduta, de uma ré que estava há muito tempo dentro dos quartéis, pedindo intervenção militar, que invadiu junto com toda a turba, e, além disso, praticou esse dano qualificado, com uma pichação de um muro", disse.>
"Então, a questão da dosimetria, eu e o ministro [Cristiano] Zanin, nós mesmos divergimos em muitos casos na questão da dosimetria. Mas nós temos que admitir os fatos. Lá não foi uma simples pichação", reforçou.>
Moraes apresentou um balanço das condenações e penas aplicadas até o momento nos casos do 8 de janeiro, durante o julgamento de Bolsonaro.>
Segundo o ministro, houve 497 ações penais com condenações, com 240 pessoas recebendo penas de até 1 ano de prisão, revertidas em medidas restritivas de direitos.>
Já as penas a partir de 14 anos atingiram 205 condenados até o momento. >
A Primeira Turma do STF — formada pelos ministros por Moraes, Fux, Zanin, Cármen Lúcia e Flávio Dino — decidiu nesta quarta-feira (26/03) tornar réu Bolsonaro e mais sete ex-integrantes do seu governo, incluindo três generais do Exército — Augusto Heleno (ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional), Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministro da Defesa) e Walter Braga Netto (ex-ministro da Casa Civil).>
Eles fariam parte do que a Procuradoria-Geral da República (PGR) chamou de "núcleo crucial" de uma trama golpista contra a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 2022. Todos negam as acusações.>
Com a abertura do processo, os oito réus responderão a acusações por cinco crimes: golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, organização criminosa armada, dano qualificado pela violência e grave ameaça contra o patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado.>
Segundo a criminalista Marina Coelho Araújo, professora do Insper e vice-presidente do Instituto dos Advogados de São Paulo, as penas máximas podem somar mais de 40 anos no caso de Bolsonaro, considerando que ele é apontado pela PGR como líder principal da trama golpista.>
"Não é raro que o Judiciário aplique penas máximas, mas pode-se aplicar pena máxima em um crime e em outro não", explicou.>
Para o professor de Direito da Universidade de São Paulo (USP) Rafael Mafei, as altas penas impostas pelo STF aos condenados pelos atos de 8 de janeiro indicam que o ex-presidente receberá uma pena ainda maior, caso sua condenação como líder da tentativa de golpe se confirme.>
"Assumindo que ele seja condenado por todos aqueles crimes pelos quais ele foi denunciado, a gente começa falando de algo na casa dos 30 anos [de pena de prisão] pra cima", ressalta.>
Na sua visão, a atuação do STF tem sido "muito importante" nos casos do 8 de janeiro,>
"Seria muito trágico que esse ato não fosse exemplarmente punido. E acho muito importante também que a punição não se limite a essas pessoas [presas no 8 de janeiro], que foram instrumentalizadas para esse propósito de gerar um benefício político para o Bolsonaro, para o Braga Netto, ajudar a viabilizar uma intervenção militar ilegítima", ressalta.>
Por outro lado, Mafei considera legítimos alguns questionamentos sobre as penas impostas aos condenados, sobretudo quanto à condenação simultânea pelos crimes de golpe de Estado e de tentativa de abolição violenta do Estado Democrático.>
Na visão de alguns juristas, é possível entender que ambos são crimes subsidiários, ou seja, que caso ambos sejam cometidos, o mais grave (golpe de Estado), "absorveria" o menos grave (abolição do Estado democrático de direito) — então, a pessoa seria condenada apenas pelo primeiro.>
Julgamentos que têm ocorrido no plenário do STF sobre o 8 de janeiro têm divido os ministros, mas a maioria tem apoiado as penas mais altas propostas por Moraes.>
Em geral, Zanin e Edson Fachin têm aceitado a condenação concomitante por crimes de golpe de Estado e abolição do Estado democrático de direito, mas proposto penas menores.>
Já o presidente da Corte, Luís Roberto Barroso, tem rejeitado essa condenação simultânea, aceitando apenas a condenação por golpe de Estado.>
Nunes Marques e André Mendonça, por sua vez, criticam essa condenação simultânea e costumam se posicionar pela absolvição dos réus.>
Bolsonaro será julgado na Primeira Turma, que é composta por cinco ministros: Moraes, Fux, Flávio Dino, Cármen Lúcia e Cristiano Zanin. >
Em meio a esse debate, o próprio Bolsonaro tem se mostrado pessimista com seu futuro no STF. Ele articula no Congresso a aprovação de uma lei de anistia que perdoaria todos os condenados por atos relacionados ao 8 de janeiro de 2023, mas não há ainda confirmação de votação da proposta.>
Em ato pela anistia realizado em 16 de março, no Rio de Janeiro, Bolsonaro reconheceu o risco de receber uma pena elevada.>
"O que eles querem? É uma condenação. Se é 17 anos de prisão para as pessoas humildes, é para justificar 28 anos para mim", disse sobre um caminhão de som, na orla de Copacabana.>
Para o professor de Direito Penal da Universidade de São Paulo (USP) Pierpaolo Bottini, é cedo para discutir qual pode vir a ser a dosimetria da pena de Bolsonaro e dos outros sete réus, caso se confirmem as condenações.>
"Quando a gente está falando de dosimetria, estamos falando na culpabilidade de cada um. Então, vamos ter que olhar para a participação de cada um, quais crimes ele cometeu ou não, se houve dolo [intenção] ou não", disse.>
"Isso só dá para tratar no final do processo, depois de ouvir todas testemunhas e produzir todas as provas", continuou.>
Na visão de Bottini, é possível que Bolsonaro e os demais réus sejam condenados simultaneamente por tentativa de golpe de Estado e de abolição do Estado Democrático de Direito, a depender das provas produzidas no processo criminal.>
"Talvez os réus tenham cometido os dois crimes. Ou seja, durante o governo Bolsonaro, você tem um crime para abolir o Estado Democrático de Direito e, depois da posse do novo regime [governo Lula], o crime de golpe de Estado, ao tentar depor o governo democraticamente eleito", ressaltou.>
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